Maldito Futebol Clube: Os piores 44 dias de Brian Clough

 

Por Thiago Borges

A riqueza, o profissionalismo e a organização da Premier League nos dão hoje a impressão de que ali nada mais importa a não ser o futebol, o que se passa dentro das quatro linhas. Estádios cheios, uniformes impecáveis, torcida, patrocinadores, transmissão… sem dúvida, o modelo de valorização de um campeonato. Junto com os ganhos da modernização, há também uma série de perdas.

Produzido pela BBC Films e lançado em DVD no Brasil sem passar pelos cinemas, Maldito Futebol Clube recupera o que parece ser um desses elementos perdidos com a modernização: os personagens folclóricos. A estrela é Brian Clough, técnico bicampeão europeu com o modesto Nottingham Forest. O filme cobre um período de seis anos da sua vitoriosa carreira, entre 1968 e 1974, contando justamente o episódio em que foi menos feliz, a curtíssima passagem pelo Leeds United.

Inspirado no livro The Damned Utd. de David Peace, nem tudo no filme é exatamente como aconteceu. Os personagens existiram, o pano de fundo é verdadeiro, mas em inúmeros detalhes autor e roteirista fazem valer a licença poética. Melhor dizer que foi somente inspirado em fatos reais.

Derby County: Os primeiros passos

A história começa em 1974, quando Brian Clough assume o Leeds United, no lugar do “treinador mais vencedor da história do clube”, Don Revie, que vai comandar o English Team. O diretor Tom Hooper opta por uma narrativa não-linear, intercalando momentos da história pregressa de Clough com os 44 dias de tormento da passagem pelo Leeds.

Apresentado o personagem, voltamos a 1968, onde o ainda muito jovem treinador faz sua segunda temporada à frente do tradicionalíssimo Derby County, ao lado do assistente Peter Taylor. Na luta para permanecer na segunda divisão, vemos Clough vibrar ao ter a chance de enfrentar o todo poderoso Leeds de Don Revie pela FA Cup.

O respeito e admiração pelo treinador adversário são marcantes. Levam Clough a idealizar o encontro e o cumprimento, que não acontecem. Após a vitória do Leeds por 2 a 0, Revie passa por Clough sem cumprimentá-lo, o que desencadeia o projeto de “vencê-lo a qualquer custo”. A carreira de Clough jamais seria a mesma depois deste episódio.

Mr. Brian Clough

A bela interpretação de Michael Sheen, que fez Tony Blair em “A rainha”, apresenta um Brian Clough excêntrico, irreverente, falastrão, passional, arrogante, prepotente e impulsivo, mas que ainda assim consegue estabelecer laços de empatia com os outros personagens e com o público. A competência, a vontade de vencer — sobretudo Revie —, levam o Derby County de volta a Football League, antigo nome da Premier League, e ao título em 1972, sempre ao lado do fiel escudeiro Peter Taylor.

Responsável pelo espantoso crescimento dos “rams”, Clough troca os pés pelas mãos colocando a rivalidade com Revie acima dos interesses do clube. Extrapola todos os limites ao destratar o presidente e criticá-lo na imprensa. Os desentendimentos culminam em um pedido de demissão que se pretendia um blefe, mas acaba se efetivando.

Mesmo que a preocupação do diretor e do roteirista Peter Morgan não seja o relato fiel dos fatos, a imersão no comando da equipe revela aspectos de bastidores que são os pontos altos do filme. Elementos que não costumam ser lembrados quando se fala na história fria dos títulos e dos números. Fica claro, por exemplo, que o protagonismo de Clough não faz jus à importância de Peter Taylor.

São o avesso um do outro, e, até por isso, se completam. A serenidade, discrição e inteligência de Taylor não são só um complemento ao temperamento explosivo e à bela oratória de Clough, deixando a impressão de que, na verdade, ele é a cabeça pensante da dupla. Bom, que não se menospreze a outra metade, que sem dúvida é o sangue e o coração. Seu ponto fraco é Don Revie. É movido pela obsessão em ser maior do que ele, que o empurra para o grande desafio de ser seu sucessor no comando do Leeds, um dos gigantes da época.

Leeds United: 44 dias de 1974

O tempo em que foram rivais foi suficiente para demarcar o estilo de jogo de cada um. Clough denunciava o jogo feio praticado pelos pupilos de Revie, referindo-se a eles como “trapaceiros, violentos e dissimulados”. Sua contratação causou um enorme desconforto, ratificado pelo discurso proferido em sua apresentação aos jogadores. A grandeza do Leeds não apequenou Clough, que propunha que agora, com ele, se praticasse futebol, questionando os méritos anteriores. A falta de tato perdia suas amarras: após uma forte discussão, Peter Taylor abandona o parceiro e amigo, que desta vez precisa mostrar seu valor sozinho.

Em exatos 44 dias estabeleceu-se o pior início de temporada do Leeds dos últimos 20 anos. A presença de Don Revie nas arquibancadas do Elland Road era como um fantasma a perturbar o sono de Clough, que não seria, ainda, maior que seu antecessor.

Créditos

Maldito Futebol Clube faz uma ótima reconstituição da época ao mostrar uma parcela da vida daquele que ainda hoje é considerado o melhor treinador inglês a não ter uma chance no English Team (Sir Alex Ferguson é escocês). Alguém que é capaz de se autoproclamar o melhor entre todos os treinadores e pedir perdão a um amigo de joelhos.

O projeto de ser maior que Don Revie foi adiado, mas se cumpriu no Nottingham Forest, clube que assumiu também na segunda divisão, levando aos títulos da Football League, da Copa da Liga e ao bicampeonato europeu. Falecido em 2004, Clough é hoje estátua no Pride Park, estádio do Derby County, ao lado de Peter Taylor, e nas cidades de Nottingham e Middlesbrough, onde nasceu. Hoje, o Derby County é treinado por Nigel Clough, um de seus filhos, que aparecem retratados ainda muito jovens no filme.

Em contraponto à consolidação da Premier League como o modelo de modernização a ser copiado por todos os campeonatos do mundo, Maldito Futebol Clube reestabelece algo que podemos chamar de ilusão retrospectiva, aquela sensação, cada vez mais frequente à medida em que vamos envelhecendo, de que já se foram os melhores anos. Ilusória porque a recuperação não é nunca completa e a memória preenche as lacunas de maneira desequilibrada, privilegiando aquilo que deixa saudade.

De qualquer forma, parece possível afirmar que há cada vez menos histórias deliciosas como esta no futebol, por conta da quase extinção de figuras como Brian Clough.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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