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“Lyon é e sempre será o Lyon”

Sete anos de hegemonia do maior rival quebrado, um título francês depois de 10 anos, e boas expectativas para finalmente avançar para as oitavas de final da Liga dos Campeões. O meio-campista Wendel, que fez parte do grupo que desbancou o Lyon na Ligue 1, conta à Trivela a experiência de levantar a taça na França, e os planos do Bordeaux para o bicampeonato nacional e pelo reconhecimento internacional.

Ressaltando a rivalidade com o Lyon e da “experiência sem precedentes” do título, porém, Wendel não deixa de acreditar que os lioneses estão ainda entre os favoritos do país no plano europeu. “O que eles progrediram nesses anos, firmando seu nome, conquistando os títulos e o patrimônio acumulado, ninguém vai conseguir tirar”, diz.

O jogador falou não só sobre a França, mas também sobre sua experiência no Brasil, pelo Cruzeiro e Santos, com a conquista de campeonatos estaduais e nacionais, além de uma curta passagem pelo futebol português.

Como foi sua experiência no Cruzeiro, de Vanderlei Luxemburgo, especialmente ao fazer parte do grupo que conquistou a “Tríplice Coroa” (Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro) em 2003?

Aprendi muita coisa, foi uma ótima experiência. Em 2003 tive a minha confirmação no futebol, eu tive a oportunidade de participar daquele time que conquistou os três títulos, um ótimo grupo naquela época.

Como é trabalhar com o Luxemburgo, considerando que foi comandado por ele no Cruzeiro e no Santos?

O Vanderlei é um treinador diferente, ele tira o máximo de cada um, sabe as qualidades e defeitos de todos os jogadores, e a passagem que tive com ele no Cruzeiro foi um marco muito importante na minha carreira.

Depois do Cruzeiro, você passou um tempo em Portugal, no Nacional, depois voltou ao Brasil em empréstimo, para defender o Santos. Como foi sua campanha no time paulista, e quais as principais diferenças que você sentiu com relação ao Cruzeiro?

Os primeiros seis meses foram um pouco difíceis pra mim. A gente estava liderando no Campeonato Brasileiro, mas aí diversos jogadores saíram, houve mudanças, e passamos a perder muitos jogos. Depois chegou o Vanderlei, e deu uma arrumada, fomos campeões paulistas, o que não acontecia com o Santos há muitos anos, e ficamos sem perder quase nenhum jogo na Vila Belmiro, foi muito proveitoso.

Antes de ir para a França, você já teve a experiência internacional em Portugal. O que você achou do nível do futebol português, e no que ele poderia melhorar no nível europeu?

O futebol português é bem diferente. Tirando os três grandes times – Sporting, Benfica e Porto -, o nível do campeonato é muito baixo. As três equipes sempre mantêm os melhores jogadores, e os menores não têm muitas chances. Aqui na França isso é diferente. Claro que o Lyon sempre teve a superioridade, mas hoje temos o próprio Bordeaux, o Olympique de Marselha, e outros que ficam na briga, todos têm certa força. Fica difícil pensar em como mudar isso em Portugal, pois só fiquei cinco meses lá. Mas creio que os menores têm que seguir ao máximo o exemplo dos grandes. Lógico que não têm a mesma receita dos grandes, mas eles devem servir de exemplo.

Como você compara o futebol brasileiro e francês?

Creio que há certas semelhança entre os franceses e o brasileiros, pois no Brasil os clubes já aprenderam a disputar os campeonatos, sabem dosar e pensar que, se não têm mais chances de ser campeões, ao menos buscam uma participação continental, pois sabem que isso dá retorno financeiro, passam a focar na Libertadores. Aqui na França eles lutam sempre por uma participação na Liga dos Campeões, apesar da briga pelo título em casa. Tentamos agarrar a chance de fazer parte da Uefa e da Liga dos Campeões sempre. Temos condições de sermos bicampeões este ano, temos tudo para fazer uma excelente temporada, e de ir melhor este ano na LC.

Então o foco do Bordeaux nesta temporada não será a Liga dos Campeões?

Pensamos no bicampeonato, mas claro que queremos ir bem na LC. Ano passado acabamos eliminados da fase de grupos, mas nesta temporada já conseguimos um empate com a Juventus fora de casa, e já temos quatro pontos, depois da vitória sobre o Maccabi Haifa, e creio que com mais cinco temos chance de chegar às oitavas. Com mais uma duas vitórias, acho que dá para conseguirmos.

Como foi tirar a hegemonia de sete anos de vitória do Lyon na França?

Foi uma experiência sem precedentes para mim. Foi um marco na França, afinal, o Lyon ficou sete anos consecutivos ganhando, acho que todas as equipes ficaram contentes com nosso título. Mas nós merecemos, vencemos as 11 partidas finais, a equipe teve um crescimento muito grande de uns tempos pra cá, criou uma nova filosofia, temos um ambiente muito bom, todos se dão bem. Quando conquistamos o título, a cidade de Bordeaux parou completamente, foi uma festa incrível.

Depois deste título, como foi o início de temporada?

Começamos muito confiantes. Muito confiantes mesmo! Mantivemos quase o mesmo grupo, os mesmos jogadores. O ambiente aqui é muito bom, criamos uma “família”, e os sul-americanos são, num geral, bem tratados.

Apesar de ter começado bem, o clube vem de uma derrota no final de semana, por 2 a 1 para o Saint-Etienne, que o tirou da primeira posição, agora com o Lyon. O meio-campo do clube tem sido criticado, por falta de entrosamento e criatividade. O que você acha que pode ser corrigido?

Creio que o principal motivo da derrota foi o cansaço. Tivemos muitos jogos consecutivos, o Campeonato Francês no final de semana, então Liga dos Campeões no meio da semana, e depois o Saint-Etienne no domingo, foram três jogos em uma semana, quase, pesou bastante. Mas o campeonato é longo, não vejo esse resultado como muito grave.

Quais equipes você aponta como principais candidatas a atrapalhar o Bordeaux na disputa pelo bicampeonato?

Bem, o Lyon é e sempre será o Lyon. O Olympique de Marselha também contratou muito bem, se reforçaram. Creio que os dois serão nossos adversários mais próximos até o fim.

Depois usar a LC para ganhar experiência a nível internacional, você acha que o clube já aprendeu, ou ainda precisa usar o torneio de “laboratório”?

Deu pra ver que a equipe progrediu muito no quesito experiência na LC. Contra a Juventus, jogamos de igual pra igual, e talvez até tenhamos merecido a vitória. Creio que é notória a nossa evolução neste aspecto.

O que falta para o Bordeaux despontar internacionalmente?

O que precisamos é continuar disputando a cada ano, como o Lyon. É o que falta para a equipe crescer, a equipe de duas a três temporadas para cá mostrou regularidade, e precisamos continuar nesse ritmo.

Por que os clubes franceses não conseguem o mesmo desempenho que os ingleses, espanhóis e italianos nas disputas europeias?

É uma situação complicada, pois a França não segura seus bons jogadores. Os melhores vão para a Itália, Espanha, Inglaterra, é difícil de segurá-los. Porém, no caso desses países, os melhores ficam por lá. Se os franceses não mantiverem os melhores, fica difícil concorrer e conseguir bons resultados na Europa. Tem que manter as estrelas na equipe. Mas algumas coisas melhoram: o Marselha trouxe o Lucho González, o Lyon trouxe o Lisandro López, e é dessa forma que os clubes crescem, progridem, e conseguem rivalizar com os europeus.

Com o fim da hegemonia do Lyon, você acredita que é a chance dos outros clubes franceses também despontarem?

Eu diria que sim. Mas o Lyon continuará a ser o Lyon para sempre, e o que eles progrediram nesses anos, firmando seu nome, conquistando os títulos e o patrimônio acumulado, ninguém vai conseguir tirar. Mas pode dar uma equilibrada, o Marselha investiu mais, o Rennes também, o próprio Bordeaux. Os clubes estão procurando cada vez mais se igualar.

Mas você acha que a saída de Juninho Pernambucano, ícone do Lyon por tanto tempo, vai fazer muita diferença na equipe?

As contratações do Lyon já mostraram qualidade. Claro que o Juninho fez história, mas os jogadores de agora também têm toda a capacidade de manter o nível.

O que você achou da contratação em definitivo de Yoann Gourcuff pelo Bordeaux? O seu afastamento, por uma lesão na coxa, tem feito diferença para o time?

Acho que foi um excelente negócio do Bordeaux comprá-lo em definitivo, ele é o nosso melhor jogador, é mesmo o camisa 10 da França, o melhor em campo. Quando ele está jogando, o Bordeaux tem uma maneira de atuar, joga de um jeito; quando ele não está, jogamos de outro. Não tenho dúvidas de que ele faz falta.

Como é seu relacionamento com o técnico Laurent Blanc?

Ele é o patrão aqui, temos sempre que respeitá-lo. Nossa relação é a melhor possível, ele adora os sul-americanos, somos todos muito reconhecidos, ele sabe que estamos sempre marcando gols. Como ex-jogador, ele sabe o que se passa na nossa cabeça.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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