Live in St. Vincent

Prisões são lugares incomuns. Lugares ou não lugares. Deveriam ser como naus da Idade Média, vagando sem rumo pelo oceano. Carregando, abarcando consigo os excluídos. Leprosos, insanos, pederastas e promíscuos. Mais do mesmo, ou não. Prisões são lugares incomuns, palco perfeito para um renegado se apresentar, diria Johnny Cash vestido de preto e uma guitarra debaixo do braço. Prisões são lugares incomuns, onde supostos desajustados são obrigados a viver junto. Um dia nublado como tantos outros. São Vicente era um nome sacro para um cinzento recinto onde reclusos viviam alguns tantos. Uma prisão brasileira perdida no terceiro mundo. Lugar perfeito para aqueles esquecidos sentados na beira do campo de futebol. Sem Chance era assim chamado. Batizado desta forma por sua semelhança com o personagem de um filme. A cabeça chata correspondia à descendencia nordestina. Severino era seu nome, não era clichê. Jamais houve craque batizado como este.
– Passa! – berrou Sem Chance abrindo pela ponta direita.
Bozó tenta o lançamento. Com um apelido desse sabe-se bem como deveria ser a fisionomia. Os mais amisitosos chamavam simplesmente de ‘negão’. Boa gente, quando jovem tentou até ser estudado. Interrompeu a faculdade no decorrer. Mexia com narcotráfico. Deu calote na firma em que trabalhava para pagar estoque perdido. Denunciaram o que havia no fundo do seu armário. ‘Xisnovaram’ diriam os iniciados. ‘Falta Deus no meu coração’ era um argumento que não mais funcionava. Deu certo quando Bozó ainda não tinha maioridade. Lá se vão quatro anos de xilindró. Bom comportamento pode ajudar, fora das grades o rapaz trabalhava para ajudar a mãe, cabelereira de suburbio que sofria de depressão.
– Mal, Severino – diz Bozó sem jeito. Bateu estranho e a bola saiu pela lateral.
Bozó era mais filósofo do que meio de campo. Dado seu porte avantajado acabou atraindo amizades falsas para si. Vida dura, dentro da prisão vale a lei do mais forte. Tem-se um próprio código de ética, certos crimes são respeitados e outros não. Infanticida sofre penas amargas bem como violadores sexuais. Os que não se enquadram lá fora são obrigados a viver junto ali dentro. Bozó sai do campo. Outro colega adentra para ser parceiro de ataque de Sem Chance. Severino queria ser boleiro, quis o destino que ele se envolvesse com coisa errada. Largou família e encarou o êxodo já a algum tempo. Uma vez na cidade grande viu-se em apuros. Meteu-se em assalto a mão armada e lá se vão sete anos de cadeira. Sete mais três tem-se o dez em suas costas, sonho de moleque.
Enquanto observa os boleiros se distanciando num contra-ataque, Bozó se senta na beirada do campo. Abre um livro que na capa dizia ‘para ler junto’. Pensava em contradições, pensava nas irônias da vida própria. Tentou psicologia no vestibular e não passou. Com a pontuação entraria em direito. E olha onde se encontrava agora. Ao tentar ganhar um ilícito trocado extra acabou negando sua própria condenação a liberdade. Gostava de Sartre e até ensinava alguns outros prisioneiros a escrever.
– Tá muito do esquisito hoje, negão! – diz Sem Chance se aproximando.
– Vontade de tá la fora! – responde Bozó.
– Tá certo, tua família ainda vem pra te visitar. Sabe lá o que pode ter acontecido com a minha, devem de tá pensando que morri…
– Escreve para esse povo homem de deus, já te disse umas mil vezes…
– Tu é estudado homem! Isso de usa a cachóla é muito do difícil.
A conversa é interrompida. Hora dos prisioneiros se recolherem. Sem Chance e Bozó se encontrarão na quadra amanhã ou depois como tem feito nos últimos anos. Infelizmente não são colegas de cela. Descobriram uma convivência. Ali naquele mundo contraditório Sem Chance e Bozó descobriram que podem conversar junto. Bozó bem que tenta pensar junto com Sem Chance, desabituado a usar a cachóla. Ao menos podia jogar bola dia sim, dia não. Foi artilheiro do torneio interno do ano passado. Escutava o jogo do Timão pelo radinho que conseguiu num rolo. As grades de sua cela eram como zagueiros adversários. Com Bozó descobriu alguém com quem jogar junto. A condicional por bom comportamento poderia separá-los. Mas por algum tempo ainda, Bozó passaria seus dias ali. A pequena filha que ainda não viu, a mãe que tenta ganhar a vida com dificuldade. Exilado daquelas com quem gostaria de estar junto.
(Para Marcia)



