Lacatus: o rei de Bucareste

O Barcelona era favorito para vencer a final da Liga dos Campeões, na temporada 1985/86, e ganhar a Europa pela primeira vez. O Steaua Bucareste, da Romênia, sabia disso. Além das dificuldades em enfrentar um gigante, havia a pressão da torcida adversária. O jogo, em Sevilha, fez com que os catalães enchessem o estádio.

A tática traçada no vestiário romeno era a mesma que os times teoricamente mais fracos sempre fazem: explorar o contra-ataque. Para arrancar um gol, o atacante Marius Lacatus era a aposta. Cabia a ele perturbar a defesa espanhola e achar uma brecha para balançar as redes.

Não deu certo. Isolado na frente, e sempre marcado, não conseguiu levar perigo ao Barcelona. O Steaua se defendeu bem, mas faltou força ofensiva. No segundo tempo, a estratégia mudou. O negócio foi amarrar o jogo e levar a decisão para as cobranças de pênaltis.

Os espanhóis morderam a isca. E aí, Lacatus brilhou. Driblava, cavava faltas e escanteios, simulava lesões, reclamava e enrolava. A partida terminou com os jogadores do Barcelona urrando de raiva. E continuou assim na prorrogação. Bola para Lacatus e o jogo parava.

Enfim, os pênaltis. O Steaua, faceiro e esperançoso. O Barcelona, espedaçado emocionalmente, não acertou nenhum. Os romenos fizeram dois. O primeiro com Lacatus, uma bomba no meio da goleira. Era o quarto título do atacante pelo clube. E ainda viriam outros 18. Façanhas que o tornaram o maior jogador da história do Steaua. Por lá, junto com os troféus, tem 98 gols em 357 jogos.

Há um ano, quando o então técnico do clube Gheorghe Hagi bateu de frente com o dono, o milionário Gigi Becali, a torcida exigiu que Lacatus fosse contratado, apesar da pouca experiência como treinador – havia comandado somente equipes de pequeno porte. Becali ouviu, e poucas semanas depois, o homem que pôs a Romênia no mapa do futebol europeu retornou à velha casa.

O antes e o depois

Marius Mihai Lacatus começou a jogar futebol aos 13 anos, em 1977, nas categorias de base do Brasov, time da primeira divisão e que leva o nome da cidade onde nasceu. Após seis temporadas, parou na capital Bucareste, comprado pelo Steaua. Chegou despercebido. Afinal, era só mais um.

Há quem diga que o Steaua se dividiu em dois: o antes de Lacatus, e o depois de Lacatus. As conquistas explicam. Até 1983, o clube havia sido nove vezes campeão nacional. Hoje, é 23. E Lacatus, que se despediu do Steaua há oito anos, participou de dez dessas conquistas.

Foi ele também um dos maiores responsáveis pela Liga dos Campeões, em 1986. O desempenho no torneio lhe rendeu o apelido de “A Besta”, em razão da violência com que chegava nos adversários. Diabólico com a bola nos pés, constumava deixar a trava da chueira nas pernas dos zagueiros.

Sete anos e onze títulos depois, incluindo campeonats romenos, copas nacionais, Liga dos Campeões e Supercopa da Uefa, optou pelo lado financeiro e se mandou para a Itália. Na Copa do Mundo daquele país, em 1990, apavorou. Dois golaços marcados contra a União Soviética renderam uma proposta que considerou irrecusável da Fiorentina.

A volta para casa. E para o sucesso

A temporada em Florença, se foi excelente em termos salariais, foi horrorosa dentro de campo. Lesões o deixaram afastado. Disputou apenas 21 partidas – boa parte delas incompletas – e fez só três gols. Arrependida, a Fiorentina o negociou com o Oviedo, da Espanha. A experiência foi um pouco melhor, mas longe do sucesso obtido na Romênia.

As contusões não atrapalharam, mas jamais foi unanimidade entre a comissão técnica nos dois anos em que passou por lá. Sete gols em 51 jogos.

Assustado com o baixo rendimento e sonhando com a convocação para a Copa de 1994, nos Estados Unidos, voltou para o Steaua. E chegou com pompa. Antes de desembarcar em Bucareste, já havia sido decretado que ele seria o capitão, o que não havia acontecido na década de 80.

Recuperou o futebol e foi às copas de 1994, quando a Romênia terminou em 6º lugar, sua melhor participação até hoje, e 1998, além da Euro 1996. Defendeu o país por 14 anos, entre 1984 e 1998, resultando em 84 jogos e 13 gols.

Jogou no Steaua até 2000. Suficiente para ser mais onze vezes campeão. Nos três anos que passou sem o ídolo, o Steaua só conseguiu dois títulos, e cinco desde que Lacatus saiu novamente.

O técnico

Depois de ganhar tudo o que era possível pelo Steaua Bucareste, Marius Lacatus decidiu encerrar o ciclo e trocar de cube. Mas não de cidade. Rodou alguns quilômetros e se apresentou no National Bucareste, em 2000, com 36 anos. Os fãs o perdoaram porque o time, apesar de vizinho, não tem uma rivalidade estreita com o Staua em comparação com Dinamo e Rapid.

A idade e o cansaço pesaram. Lacatus pouco atuou pelo novo clube. Participou de doze jogos e resolveu parar. Porém, sequer deixou o National, atualmente na segunda divisão. No mesmo ano, assumiu como técnico. E pelo que parece gostou da profissão, mesmo não tendo sido aprovado em lugar nenhum.
Até o ano passado, havia treinado outras sete equipes, como por exemplo, o O?elul Gala?i, da primeira divisão, em 2002, o Brasov, em 2003, e o Ceahl?ul Piatra Neam?, da Série B, em 2004. Aventurou-se até na seleção romena, com o cargo de assistente técnico, em 2003.

Agora, no comando do Steaua., tenta repetir a carreira que construiu como atleta. O campeonato romeno 2007/08 bateu na trave. Terminou em segundo, um ponto atrás do campeão. Posição que rendeu uma vaga na Liga dos Campeões. O começo foi ruim. Derrota em casa por 1 x 0 para o Bayern de Munique. O grupo F tem ainda Fiorentina e Lyon. Não vai ser fácil. Mas não foi em 1986 e em 1989, quando Lacatus e companhia chegaram à final e levaram 4 x 0 do Milan.

Com a derrota por 5 a 3 de virada para o Lyon na Romênia, na segunda rodada da fase de grupos da LC, Lacatus se despediu do comando do Steaua Bucareste.

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