Kopa: Tudo começou com ele

 

Por Guilherme Amorozo

Quem aprendeu boa parte da história das Copas do Mundo por meio de livros e filmes antigos sempre teve na ponta da língua o nome de um francês que é presença obrigatória em toda e qualquer publicação que trata do assunto: Just Fontaine, o ser humano que mais gols marcou em uma única edição do mundial. E gol, ao contrário do que já afirmou Parreira, não é um apenas um detalhe. O que significa que Fontaine merece todas as honrarias que até hoje recebe pelos 13 tentos que anotou no torneio de 1958 (média de mais de dois por jogo).

O que parece escapar aos devoradores de almanaques, porém, é que o artilheiro só fez o que fez por ter atrás dele a melhor geração de jogadores que o futebol de seu país produzira até então. E, mais importante, por contar com a companhia daquele que foi o maior craque francês de sua época, o atacante Raymond Kopa.

Dentro de campo, os feitos de Kopa são comparáveis apenas aos dos outros dois gênios maiores do futebol francês – Michel Platini e Zinedine Zidane. Excepcional driblador e gênio das assistências, Kopa foi peça fundamental dos elencos de dois times europeus históricos da década de 1950: o Reims, base da seleção francesa terceira colocada na Copa da Suécia; e o lendário Real Madrid da mesma época, a primeira equipe global da história.

França e Espanha

No Reims, onde foi tetracampeão francês e vice-campeão europeu, iniciou a parceria de ataque com Fontaine que se consagraria com a camisa azul em 1958. Tanto no time vermelho e branco quanto com os bleus, a dupla era comandada pelo ousado Albert Batteux, que, a exemplo do que faria João Saldanha no Brasil uma década depois, armava suas equipes de forma a privilegiar as habilidades de seus principais jogadores.

Sua atuação na final da Copa dos Campeões da Europa de 1956 contra o Real Madrid não garantiu a ida do troféu para Reims. Mas foi o bastante para levá-lo a Madri na temporada seguinte. No Real, Kopa compôs um mitológico ataque ao lado de Alfredo Di Stéfano e Ferenc Puskas. Resultado: três copas européias para o francês, das cinco que os merengues ganharam em seqüência naquela época (de 1956 a 1960) –, a de 1959 em cima do seu Reims, para onde voltaria mais tarde (não sem antes faturar também duas ligas espanholas).

Quatro décadas antes

Quem não pôde ver Kopa jogar certamente viu Zidane. E em algum momento se deparou com a história de sua ascendência argelina e da origem estrangeira de boa parte da seleção campeã mundial em 1998, que fez daquela equipe um símbolo da França multicultural. Se com a bola no pé Kopa foi capaz de prenunciar a trajetória que Zizou percorreria (e ultrapassaria) quatro décadas depois, fora de campo sua história antecipa a de Zidane de forma quase literal.

Nascido Raymond Kopaszewski, Kopa era filho de imigrantes poloneses, dos milhares que deixaram a terra natal para trabalhar nas minas de carvão do nordeste da França após a II Guerra (ele chegou a trabalhar com o pai quando criança; aos seis anos de idade teve de amputar um dedo da mão esquerda depois que uma rocha caiu sobre ela). Sua subida ao estrelato o colocou no meio da discussão sobre identidade nacional em que a França se metera nas décadas de 50 e 60.

Após o desempenho pífio da seleção francesa na Copa de 1954, Kopa chegou a ser alvo de cânticos racistas nos estádios do país. No mundial seguinte, entretanto, o núcleo da equipe francesa era composto por ele, Roger Piatoni, filho de imigrantes italianos, e Fontaine, nascido de uma mãe espanhola em Marrakech. O comprometimento de Kopa à causa francesa, não muito diferente do de Zidane, que teve a opção de jogar pela Argélia quando jovem, selou a sua aprovação pelo público do país (o estilo de jogo exuberante também não atrapalhou em nada).

Turbulência e declínio

Mas a projeção de Kopa poderia ter sido ainda maior, não estivesse o seu país tão preocupado com as turbulências políticas da época, que acabaram por relegar o futebol ao segundo plano. Enquanto os bleus derrubavam todos os adversários na Suécia em 1958 até topar com o Brasil, o país se via às voltas com os movimentos de independência de suas colônias africanas e caribenhas, e com a queda de seu domínio na Indochina. O desempenho inédito da França na copa, que em outras circunstâncias poderia ter sido aproveitado para reconstruir a autoconfiança nacional ainda abalada pelos acontecimentos da II Guerra, foi recebido com indiferença pela população.

Os distúrbios internos levaram a uma queda vertiginosa do interesse dos franceses pelo futebol. Estádios esvaziaram-se durante os anos 60, e após 58, a seleção classificou-se para apenas um dos quatro mundiais seguintes. O declínio coincidiu com os últimos anos da carreira de Kopa, de volta ao Reims. A França ainda esperaria quase 20 anos para ter outro craque do mesmo nível, e mais 20 para finalmente conquistar o que a geração de Kopa esteve tão perto de conseguir, não fosse um pequeno detalhe chamado seleção brasileira.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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