Keita: Uma cascavel na matilha
É comum pensar que a liga do Qatar só serve para encher os bolsos de jogadores cujo prazo de validade já expirou. No entanto, foi no Al Sadd, clube grande do Qatar, que surgiu um caso do futebol que é capaz de driblar este teimoso cliché de que do Médio Oriente os europeus só têm a ganhar petrodólares e sombra de palmeiras.
Quem acompanha o futebol francês, mais concretamente o Lille, perceberá de quem estamos falando. Abdulkader Keita é um dos melhores pontas-direitas da cena internacional e foi devido à sua prolífica obra no Al Sadd que Claude Puel o quis levar para o norte de França.
Muito provavelmente, a par da estrela marselhesa Franck Ribéry, Keita é o jogador mais entusiasmante da liga francesa e um dos mais empolgantes da atual edição da Liga dos Campeões. O gol marcado no Milan, em San Siro, (vitória por 2 a 0 na sexta rodada da LC) foi somente mais uma etapa cumprida numa caminhada que começou… no deserto. Sempre irrequieta, esta cascavel começou a deslizar pelas dunas de Doha e hoje explora o Nord-Pas-de-Calais com os Dogues de Lille.
Os primeiros tempos
Ainda nem chegado à casa dos 20 anos de idade, Keita obteve seu primeiro título nacional. Na altura, em 1999, representava o African Sports, o grande rival do outro clube dominador de Abidjan – o Asec Mimosas, que, sob o supervisionamento de Jean-Marc Guillou, via crescer nas suas fileiras nomes como os irmãos Touré, Didier Zokora ou Aruna Dindane, só para citar alguns. Dindane foi, aliás, um dos que mais ombreou com Keita nas duas temporadas em que o atual extremo do Lille jogou pelo African Sports (1999 e 2000).
Seguiu-se uma interessante proposta da Tunísia, e Keita vinculou-se ao Etoile de Sahel, que nunca conseguiu destronar a hegemonia do Espérance de Tunis. No Etoile, foi companheiro de algumas referências do futebol tunisino, como Ghodhbane ou Jaziri (atual atacante do Troyes), ou mesmo do zagueiro guineense Kalabane (até janeiro, vestia a camisa do Auxerre, antes de se mudar para o Vestel Manisaspor, da Turquia).
Utaka como inspiração?
Após a Copa Africana de Nações de 2002, realizada no Mali, onde a Costa do Marfim teve um desempenho paupérrimo, Kader Keita juntou-se ao Al Sadd, de Doha, a capital do Qatar. E foi aqui que começou verdadeiramente a ascensão de Keita, o jogador que substituiu o também jovem nigeriano John Utaka no ataque do Al Sadd. Utaka atuou apenas uma temporada no clube, antes de rumar para o Lens (hoje tem um papel de destaque no Rennes, com a saída de Frei para Dortmund) e talvez tenha funcionado como uma espécie de inspiração para o próprio Keita, cujo ‘salto europeu’ tem semelhanças com o do nigeriano.
Assim, na temporada 2002/3, Keita, então treinado pelo croata Luka Peruzovic marcou 12 gols. Apesar da boa marca, não foi suficiente para ultrapassar o Qatar SC, que se sagrou campeão nacional, com o atacante angolano Akwá em grande forma.
Na temporada seguinte, em 2003/4, Keita ganhou o título do Qatar. Porém, o clube contava então com a preciosa ajuda do atacante equatoriano Carlos Tenorio, que até esteve presente na Copa de 2006. Tenorio é, hoje, a principal estrela do Al Sadd e mesmo não tendo superado Batistuta (Al Arabi) na lista dos goleadores dessa temporada, contribuiu decisivamente para a vitória final no campeonato. O meia marroquino Chippo (ex-Porto) e o veterano zagueiro Frank Lebouef (campeão mundial em 1998) eram outros ‘craques’ do elenco, que nunca chegou a contar com o verdadeiro Romário – o Baixinho vestiu a camisa do Al Sadd em apenas três ocasiões antes de mudar de ares.
Por fim, a Europa
Um ano depois, já com a companhia do ala-direito iraniano Hossein Kaebi, Keita não foi capaz de revalidar o título (Al Sadd terminou a temporada em sétimo lugar), mas a continuação dos bons desempenhos individuais levaram Claude Puel a decidir-se pela contratação do atacante. O Lille pagou aproximadamente chr(128) 4,5 milhões pelo jogador e depois de um período de natural adaptação, Keita explodiu na liga francesa.
Todos os dribles e arranques experimentados no deserto do Qatar tiveram finalmente a desejada continuidade numa liga de topo do futebol europeu. A notoriedade do futebol serpenteante de Keita foi tanta que foi quase unanimemente considerado o jogador-revelação da liga francesa 2005/6 pela imprensa desportiva – isso apesar de só ter ‘aparecido’ no segundo turno. Keita nem sequer fazia parte dos primeiros planos do técnico da Costa do Marfim, Henri Michel – ficou mesmo de fora da CAN-2005. No entanto, era impossível fechar os olhos à qualidade e ferocidade do futebol exibido por Keita nos gramados da Velha Gália.
Sem ter jogado um minuto nas eliminatórias, foi convocado para a Copa do Mundo. Todavia, nunca foi uma opção ativa para Henri Michel, que preferia apostar em jogadores em quem tinha mais confiança e convivência da fase de qualificação. Talvez agora com o novo técnico, o alemão Uwe Stielike, Keita consiga jogar mais minutos e infernizar as defesas, juntamente com Drogba e Koné.
Imparável driblador
O que é mais espantoso no estilo de Keita (‘Popito’ é seu apelido) é que não mostra receio em ir para cima do adversário. Pode ter pela frente um defensor de grande fibra como o lyonnais Abidal, pode mesmo estar fechado numa cabine telefônica com dez réplicas de Gabriel Heinze a tentar tirar-lhe a bola e nem assim perde o equilíbrio.
Forte fisicamente, jogando com a imprevisibilidade tão típica do sangue africano, Keita atua preferencialmente como ponta-direito. E a forma como congrega o jogo na ala também é um motivo para que outro jogador do Lille, o meia Bodmer, revele uma assinalável capacidade goleadora com um estilo vertical que porventura faz lembrar os tempos de Ballack no Leverkusen.
O nigeriano Odemwingie é o principal atacante dos Dogues, mas Fauvergue também tem demonstrado uma boa habilidade na finalização dentro da grande área. Qualquer um deles se coordena bem com os movimentos de rotura de Keita e permite que o marfinense atue ocasionalmente como atacante no sistema de Puel. O treinador francês, há algum tempo rotulado com um conceito defensivo de 4-5-1, tem agora uma nova capacidade de estender a equipa em comprimento (e mesmo em largura) que antes não tinha – Makoun com condições para fazer circular a bola em linhas mais adiantadas. Também pela própria dinâmica colectiva implementada no Lille, Keita tornou a sua equipe globalmente mais forte, até pelo que vimos nos exemplos de Makoun e Bodmer.
Makoun, Odemwingie e Keita – são estas as três pérolas africanas que fazem Puel sonhar com a hipótese de eliminar o Manchester United nas oitavas-de-final da Liga dos Campeões. Infelizmente para Puel, Keita está suspenso devido a um cartão amarelo visto em San Siro, num lance escusado com Jankulovski, e não vai poder atuar no jogo de ida.