“Jogo Duro – A História de João Havelange”
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Quando, no ano de 2006, a revista inglesa World Soccer divulgou que estava sendo feita a biografia de João Havelange, o burburinho foi pequeno, mas forte. Afinal de contas, o autor do livro, Ernesto Rodrigues, vinha de escrever um sucesso de público e de crítica especializada, Ayrton, O Herói Revelado, ótimo e alentado perfil do brasileiro tricampeão mundial de Fórmula-1. Detratores e apoiadores fanáticos de Havelange esperavam o livro.
Em 2007, ele chegou. Mas acabou não agradando. Ernesto (ex-diretor do Globo Repórter, hoje ombudsman da TV Cultura) diz, na contracapa, ter feito o livro na intenção de descobrir um Havelange diferente daquele alfinetado a torto e a direito por onze entre dez redações de esporte no Brasil, como sendo um “matador do espírito amador do futebol”, enquanto ia modernizando o futebol sem adversários. Caso conseguisse tal objetivo de modo eqüidistante, teria, realmente, feito um trabalho que serviria de referência, sem a exagerada afeição dos partidários do brasileiro nascido em 1916, nem a permanente acidez de seus críticos.
E é aí o ponto em que o livro peca mais. Mesmo sem assumir o lado de Havelange escancaradamente, Ernesto acaba por dar peso maior aos aliados do dirigente que comandou por 24 anos a FIFA, ganhando ao longo deles poder cada vez maior e mais reconhecido. Os entrevistados são, em sua maioria, ora gente que esteve intimamente ligada a João durante sua gestão (como o hoje presidente Sepp Blatter, o espanhol Pablo Porta e o inglês Keith Cooper), ora jornalistas cujas palavras quase sempre corroboram o que Havelange falou em vinte e quatro horas e meia de entrevistas ao autor (quando não são elogiosas, caso de Eduardo Bueno e Sérgio Cabral), ora amigos de longa data, como o banqueiro Antônio Carlos de Almeida Braga, o “Braguinha”.
Até se ouviu as vozes discordantes dos métodos de Havelange, como o ex-presidente da UEFA Lennart Johansson ou os jornalistas Juca Kfouri e Keir Radnedge, mas as declarações delas nos rumos do livro acabam sendo residuais. Tal método resultou em declarações virulentas contra o alemão Helmut Käser, secretário-geral de Havelange na FIFA nos primeiros oito anos do mandato, que foi das principais dores de cabeça do brasileiro, até sua saída e a chegada de Blatter. Ou em loas diretas dos escutados a Havelange – como nas descrições de sua influência no caso das liberações de Luiza Konder, esposa de Braguinha, presa durante o regime militar brasileiro, e Paulo Paranaguá, filho da estilista Glorinha Paranaguá, detido pela ditadura argentina. Ou em passagens rápidas demais por trabalhos de imprensa contra Havelange, como o dossiê de Roberto Pereira de Souza, publicado na revista Playboy, em 1994.
Mas, evidentemente, o livro tem seus pontos fortes. Demonstrados na boa e organizada pesquisa de dados e datas, de grande ajuda para tornar o livro organizado e de leitura fácil (muito embora haja casos como descrever a Holanda de 1974 como um time que tinha “Cruiff, Neskens, Kroll e Rosenbrink”). E também em entrevistas que conseguiram o objetivo de aprofundar-se na vida pessoal e nas opiniões do sempre discreto Havelange, resultando em momentos até tocantes, como na emoção das declarações de quando, mesmo sem assumir, João mostra a mágoa que o distanciou quase irremediavelmente do ex-genro e ex-pupilo Ricardo Teixeira, pelo fato deste ter se separado da esposa, Lúcia, filha de Havelange. Ou em momentos reveladores, como quando Havelange assume que saiu dele a sugestão para que Teixeira contratasse a dupla Parreira-Zagallo com vistas à Copa de 1994, três anos antes.
Caso o livro tivesse investido nesse lado “Havelange, o homem revelado”, chegaria mais perto da eqüidistância que o tornaria uma obra-prima. Infelizmente, apesar de ser bom trabalho jornalístico de Ernesto Rodrigues, não o conseguiu.