Jogo do milênio

Depois da vitória por 3 a 1 em Anfield, a classificação do Chelsea diante do Liverpool poderia ser encarada como a lógica. No entanto, o desenrolar dos fatos na partida de Stamford Bridge não teve nada de lógico. Pelo contrário. O empate por 4 a 4 da última terça-feira foi marcado pelo impressionante dinamismo e pela capacidade de surpreender quando tudo parecia decidido. Uma partida épica, a ser citada em qualquer lista de grandes momentos da Liga dos Campeões.

O pedigree europeu do Liverpool é um tema recorrente desta coluna. O que há de diferente desta vez é o fato de ele se mostrar até mesmo nas derrotas. Os Reds deixaram o campo com certa decepção pela perda da vaga nas semifinais, mas sobretudo com a honra de terem deixado cada gota de suor em campo, ficando por duas vezes a um gol da classificação. Independentemente do resultado, foi razão para a torcida se orgulhar na véspera do 20º aniversário da tragédia de Hillsborough, um dos dias mais tristes da história do clube.

A vantagem conquistada no primeiro jogo parecia permitir ao Chelsea uma abordagem mais segura, dando campo ao Liverpool e administrando o jogo. No entanto, a falha de Petr Cech na cobrança de falta direta de Fábio Aurélio pareceu um duro golpe para os Blues. Era necessário cair a ficha de que só jogando futebol a classificação não escaparia. Antes disso, no entanto, o nervosismo ficou evidente quando Ivanovic, herói no primeiro jogo, deu um puxão infantil em Xabi Alonso na área: pênalti que o espanhol não desperdiçou.

Alonso vinha se comportando como dono de um meio-campo armado por Rafa Benítez para suprir a ausência de Gerrard, com Mascherano e Lucas completando o trio de volantes. O espanhol se movimentava por todos os setores, participava do início da criação das jogadas e encostava nos homens de frente.

Guus Hiddink, então, notou a urgência de mexer com o time e decidiu substituir o nada eficiente Kalou por Anelka. Os efeitos da alteração, no entanto, só foram sentidos no segundo tempo, mostrando que a principal sacudida que os Blues tinham de levar era moral e não tática. Mais ou menos como um pugilista que é amplamente dominado em um round e precisa respirar por alguns segundos no córner para repensar sua postura.

A “dura” de Hiddink nos vestiários surtiu rápido efeito, e bastaram cinco minutos no segundo tempo para o Chelsea respirar um pouco. Cortesia de Reina, que retribuiu a gentileza de Cech na etapa inicial e empurrou contra as próprias redes a bola levemente desviada por Drogba, após o cruzamento de Anelka. Logo veio a bomba de Alex na cobrança de falta, igualando o placar em 2 a 2 e deixando o Liverpool novamente com uma montanha a escalar.

Quando Lampard marcou o terceiro gol dos Blues, aos 31 minutos, parecia tudo acabado para o Liverpool. Então, os Reds mostraram que não foi por acaso que conquistaram um título inacreditável em 2005 depois de ir para o intervalo perdendo por 3 a 0. E ainda que Benítez parecesse jogar a toalha ao retirar Fernando Torres de campo, os jogadores continuavam convencidos de que era possível.

O gol de Lucas, que igualou o placar em 3 a 3, foi um presente da sorte, com a bola desviando em Essien para trair Cech, mas o quarto gol foi puro mérito coletivo, com a bela cabeçada de Kuyt no cruzamento de Riera. O Liverpool não apenas estava vivo, como tinha todo o moral do seu lado. Stamford Bridge se calou, e os dois times, fisicamente esgotados pelo ritmo frenético da partida, tentavam buscar as últimas forças.

Apenas no quarto gol de Lampard, aos 44 minutos, o Chelsea pôde sentir o sabor de fatura liquidada. Mas os acréscimos só não foram mais tensos porque Essien ainda salvou em cima da linha o que seria o quinto do Liverpool.

Se o que não mata te fortalece, o Chelsea tem todos os motivos para se sentir revigorado para o confronto semifinal com o Barcelona. Mais um duelo de muita história recente na competição e potencial para novos jogos dignos da memória da LC.

Formalidade em Munique

Goleado por 4 a 0 no Camp Nou, o Bayern se daria por satisfeito em não sofrer uma nova derrota diante de sua torcida. Afinal de contas, ninguém acreditaria seriamente em qualquer possibilidade de reação no confronto. Assim, o jogo foi administrado em banho-maria pelo Barcelona, que só mudou a marcha para buscar o gol de empate com Keita, depois de Ribéry colocar os bávaros em vantagem.

Jürgen Klinsmann podia contar com Lucio e Lahm, dois jogadores que fizeram muita falta na primeira partida, mas parecia não ter uma solução para as dificuldades da equipe na criação das jogadas. Toni ficava frequentemente isolado no ataque, e o padrão era depender da inspiração de Ribéry para levar algum perigo ao gol adversário.

O Barcelona pôde se dar ao luxo de poupar Henry, em estado febril, deslocando Iniesta para completar o tridente ofensivo. A entrada de Keita mostrou como sobram opções no elenco de Josep Guardiola, pelo menos do meio-campo para a frente. Atrás, ainda falta um teste sério – que deve ser o Chelsea. Já o Bayern mostrou que ainda precisa melhorar para chegar à sua primeira semifinal desde o título de 2001.

Cristiano Ronaldo decide

Os críticos de Cristiano Ronaldo costumam acusá-lo de sumir em jogos decisivos. Pois ele fez justamente o contrário no estádio do Dragão, marcando o gol que valeu a vitória do Manchester United sobre o Porto, que nunca havia sido derrotado em casa por um time inglês.

Em vantagem, os Red Devils fizeram prevalecer a solidez defensiva, graças à volta de Ferdinand pra formar a dupla titular com Vidic. Também foi notável o sacrifício dos homens de frente – era comum ver Rooney acompanhando as subidas de Cissokho pela lateral-esquerda do Porto, e Giggs cobrindo as subidas de Evra do lado oposto.

O Porto, por sua vez, decepcionou em relação ao que havia feito no empate por 2 a 2 em Old Trafford. Hulk, que havia sido um dos destaques da primeira partida, foi presa fácil para os marcadores adversários. A saída de Lucho González por lesão ainda no primeiro tempo também não ajudou o time de Jesualdo Ferreira, que ficou com sua organização no meio-campo prejudicada.

Então, a duras penas, o United garantiu sua terceira semifinal consecutiva, mantendo viva a esperança de terminar a temporada com cinco títulos.

Arsenal, tudo muito fácil

O Arsenal atingiu um pico de desempenho em um bom momento da temporada, graças às voltas de Adebayor e Fàbregas. Poderia ser ainda melhor se Arshavin estivesse inscrito na competição, mas os Gunners já têm força e moral suficiente para pelo menos fazer um duelo equilibrado com o Manchester United nas semifinais.

O desafio do Villarreal ficou mais difícil com o desfalque de Marcos Senna, que se juntou a Cazorla, outro jogador da seleção espanhola lesionado.

O Submarino Amarelo sentiu o forte ritmo imposto pelos donos da casa, que, mesmo beneficiados pelo empate sem gols, atacaram desde o primeiro minuto, com Van Persie ao lado de Adebayor no ataque, Walcott e Nasri apoiando pelos lados do campo. O placar de 3 a 0 foi construído sem dificuldade.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo