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Jimmy: “Podemos fazer história nessa LC”

Uma classificação inédita. Campeão da Moldávia por nove vezes consecutivas, o FC Sheriff avançou pela primeira vez da segunda preliminar da Liga dos Campeões. Na etapa seguinte, superou o adversário virtualmente mais forte, o Slavia Praga, com gol do brasileiro Nadson nos acréscimos do segundo tempo, o que fez com que o time comandado pelo técnico Leonid Kuchuk já fizesse história. Nesta terça-feira, o FC Sheriff enfrenta o campeão grego, Olympiacos, pelos playoffs do torneio europeu.

No elenco, a recente contratação: o atacante Jimmy França, que deu a sorte que muitos brasileiros gostariam de ter, de jogar na LC. O ex-jogador do América-RN aproveitou a primeira chance para ir para a Europa, e trocou no início do ano a Série B pelo Campeonato Eslovaco, pelo Spartak Trnava. Após meia temporada com o grupo, onde teve campanha satisfatória, aceitou outra proposta – desta vez por um clube que disputaria o principal campeonato continental.

Pelo campeão absoluto na Moldávia, Jimmy entrou no segundo tempo da partida que assegurou a classificação do time. Para o próximo desafio, as chances são mínimas, e uma vitória traria algo inédito para uma equipe moldávia.

Em entrevista à Trivela, Jimmy admite que o FC Sheriff conta com uma equipe jovem e inexperiente. “Por eu ter participado de outros campeonatos em outros países, isso ajuda um pouco na hora de passar tranquilidade ou exigir algo dentro de campo”, defendeu. Porém, o atacante é realista quanto à situação de brasileiros no exterior: time pequeno não leva, ninguém para a Seleção, é “impossível”, diz. “Aqui é apenas uma ponte para que eu possa alcançar voos maiores”.

Como foi a sua adaptação na Moldávia?
É sempre muito difícil a gente mudar de país, de cultura, de língua. Mas estou me adaptando bem, com a ajuda de mais dois brasileiros e um argentino a convivência fica mais fácil. Quanto ao futebol, é bem mais fácil, porque brasileiro sempre se dá bem em qualquer parte do mundo, e consegue mudar um pouco a rotina das outras pessoas com a nossa alegria e modo de vida.

E com relação ao clima, e distância da família?
O clima por enquanto está o melhor possível, bem parecido com o do Brasil por causa do verão. Mas com a chegada do inverno as coisas começam a mudar, porque o frio nunca é bem visto pra treinamento e para a própria rotina de jogos. Com relação à família, por enquanto vim só, até para me adaptar antes com a língua e a cultura do país, mas pretendo trazer sim minha noiva, que está no Espírito Santo.

O que você sente de maior diferença entre o futebol do Brasil, da Eslováquia e da Moldávia?
No Brasil o futebol é mais jogado, há dribles, jogadas de efeito, é mais cadenciado.
Já na Eslováquia é mais “pegado”, há mais contato físico e poucos dribles. Aqui na Moldávia, senti que há aquela pegada do futebol europeu, porém é bem mais jogado, com muitos dribles e jogadas bem trabalhadas. Há um misto de futebol europeu com o jogo do futebol latino, devido aos estrangeiros presentes na equipe.

Como estão as expectativas para a Liga dos Campeões, considerando que o próximo adversário, o Olympiacos, é teoricamente mais forte?
Verdade. Estamos muito confiantes para o decorrer da Champions. Porque o projeto do Sheriff é todo envolto em relação a esse campeonato, até pela nossa imensa superioridade no campeonato nacional. Conseguimos chegar numa fase que é muito importante para nossa carreira e até para a divulgação do clube. Eu acredito que podemos fazer história nessa Liga dos Campeões.

Como está a preparação de vocês, física ate psicológica, para o jogo, já que tem um elenco muito jovem?
A preparação da equipe vem sendo trabalhada ao longo do ano inteiro, com as realizações de várias inter-temporadas visando o campeonato principal, a Champions, e depois o Campeonato Nacional e a Copa da Moldávia. Já a preparação psicológica é a área em que mais peca nosso clube, devido à grande pressão exercida em cima de alguns jovens e bons talentos que há em nossa equipe, por causa da baixa idade do time, sendo uma equipe bastante jovem e inexperiente.

Você se vê como alguém experiente para ajudar esses mais jovens? Quem seria a principal figura do elenco neste quesito?
Sinceramente sim. Por eu ter participado de outros campeonatos em outros países, isso ajuda um pouco na hora de passar tranquilidade ou exigir algo dentro de campo. A figura principal em relação a experiência seria a do capitão da nossa equipe (Vaja Tarkhnishvili), até por sua idade e função dentro do clube.

Como é seu relacionamento com os colegas do Sheriff?
Está sendo bom, pois estamos começando a nos conhecer. O problema maior é a comunicação, já que grande parte do grupo fala apenas o russo. Mas estou começando a aprender e estudar essa nova língua.

E você se comunica em inglês?
Comunico em inglês apenas com os diretores e dois ou três jogadores. Pra conversar em russo os outros brasileiros traduzem para mim.

Você acha que já está conseguindo assegurar o seu espaço no elenco? Como espera se firmar de vez entre os titulares?
Nessas poucas partidas que fiz, mesmo não estando bem fisicamente, consegui mostrar pra que vim. Fiz uma boa partida contra o Slavia Praga e no jogo seguinte pelo campeonato nacional fiz dois gols e um ótimo jogo. Comecei a ganhar espaço com o treinador e confiança com o elenco. Por ser brasileiro já há uma grande responsabilidade, pois esperam que você decida todas as partidas sempre.

Essa cobrança vem de dentro do time – colegas, treinador, diretoria – ou também da torcida?
Primeiro da parte da diretoria, pois fui contratado com status de ser o “homem gol” do grupo, e depois com o decorrer dos jogos virá também da parte da torcida, que quer sempre ver a vitória da equipe e com muitos gols.

Quando você chegou, a imprensa local anunciou sua contratação como a “grande aquisição da temporada”. Como você se sentiu com isso? E, ainda, como foi recebido pela torcida?
Isso eleva e muito a nossa auto-estima, e também me deixa um tanto ansioso para começar a fazer os gols e corresponder com as expectativas de todos, pois sei que todos estão confiantes e acreditando que posso ajudar e muito o FC Sheriff. A torcida ainda está num momento de auto-conhecimento, porém em minha última partida, quando fui substituído, saí bastante aplaudido, o que me deixa bastante feliz e confiante pra continuar o meu trabalho. A equipe ainda é bastante nova no mundo do futebol, mas pelo que percebi já adquiriu bastante torcedores e que adoram o esporte, e que apóiam o tempo todo o time. A tendência é aumentar ainda mais com essa hegemonia no futebol moldávio.

A média de público nos estádios é alta, ou o futebol ainda tem pouca tradição na Moldávia?
Nos jogos do Campeonato Nacional a média de público ainda é baixa, mas em jogos da Champions aumenta e muito. Por exemplo, nesta terça-feira (partida dos playoffs da LC) são esperados mais de 15 mil torcedores, o que é um público excelente para a tradição do futebol daqui.

Os seus colegas brasileiros são, de maneira geral, bem quistos pela torcida?
Sim. O (José) Nadson já está aqui há quase quatro anos, e faz gols nas partidas mais importantes, como o que nos classificou contra o Slavia nos acréscimos. Já o Serginho está há pouco tempo ainda, e está começando a ganhar espaço com o elenco e com a torcida.

Você acha que o futebol da Moldávia está ganhando espaço na Europa?
Ainda tem muito o que mostrar, devido à pouca tradição no futebol mundial. Mas já começa a percorrer o caminho com a presença da nossa equipe nessas fases da Champions League e da Liga Europa.

Você acredita que o time ainda é visto como “zebra” depois da classificação para os playoffs da LC?
Sim. Por nunca ter passado por essa fase e chegado aos playoffs da Champions League, e pelas poucas participações de equipes da Moldávia em Campeonatos Europeus.

Quais seus planos daqui pra frente?
Espero fazer um ótimo campeonato, tanto a Champions League quanto a Liga Europa, e poder ser bem visto por equipes maiores para poder mostrar meu trabalho e acertar um novo contrato em equipes de tradição no futebol europeu.

O que o fez deixar o Spartak Trnava pelo FC Sheriff?
O desafio de poder disputar a Champions, e também pela estrutura que o FC Sheriff me dispôs, pois fiquei muito impressionado com toda a estrutura e com o projeto de chegar às principais Ligas do futebol europeu.

Como foi sua passagem pelo Spartak?
Fiz uma meia temporada boa, pelo pouco tempo de adaptação, e sendo a minha primeira experiência no futebol europeu. Mas consegui realizar um bom futebol, onde fui procurado por equipes eslovacas e da República Tcheca, tanto que a diretoria se dispôs a renovar meu contrato por mais um ano, porém não chegamos a um acordo. Aceitei a proposta do FC Sheriff porque foi melhor para mim, por me oferecerem um contrato um tanto maior, de três anos, e também em termos financeiros, assim como pelo desafio de disputar a Champions, o que será a vitrine que eu queria no futebol europeu.

O Spartak, você aparecia como referência no ataque. Como era a sua relação com a torcida de lá?
Eu tinha um ótimo relacionamento com os fãs do Spartak, tanto que saía na rua e era sempre chamado para tirar fotos e dar autógrafos. Foi uma experiência ótima para mim, porque vi que meu trabalho estava sendo admirado tanto pela torcida, como também pela mídia eslovaca. Tanto que compus a seleção da rodada em três oportunidades.

Agora falando do Brasil, como foi sua experiência nas passagens por equipes daqui, até a transferência pra Eslováquia?
Foram passagens pequenas, porém importantes em minha vida. No Americano-RJ, foi onde compus o elenco do Campeonato Carioca, e estiva presente em algumas partidas. No Friburguense-RJ, participei da Série C do Brasileiro. No Jaguaré-ES atuei no Campeonato Capixaba e na Copa do Brasil. E, no América-RN, participei efetivamente do Campeonato Brasileiro da Série B, que foi quando apareceu a oportunidade de transferência para o futebol da Eslováquia.

Você acha que foi o momento certo para sair? Por que não esperou espaço em um clube da Série A no Brasil?
Acho que foi o momento certo sim, pois estava precisando de mais espaço para poder mostrar meu trabalho. Após minha passagem pelo Spartak, até apareceu especulação sobre um clube da Série A, porém não se concretizou realmente. Mas tenho certeza que oportunidades na Série A aparecerão a seu tempo. Por enquanto, estou muito feliz em poder realizar meu trabalho. E agora é a hora da temporada no futebol europeu.

Que clube da Série A lhe procurou?
Foi na verdade especulação (risos). O Coritiba.

O você achou da sua experiência na Série B em 2008, pelo América-RN?
Foi uma ótima experiência. Foi o campeonato que começou realmente a abrir meus caminhos. Só tenho a agradecer ao América-RN pela confiança depositada, fui bastante feliz no pouco tempo que tive em Natal, e continuo a acompanhar sempre a equipe na Série B.

Como foi disputar a Série B com um time grande como o Corinthians?
Uma experiência muito importante, porque vi de perto a força e a paixão da torcida. Em relação ao time, foi importantíssimo como experiência para o restante da minha carreira.

Você acha que jogar na Moldávia te dá alguma visibilidade para eventualmente chegar à Seleção?
Sinceramente? Impossível. Aqui é apenas uma ponte para que eu possa alcançar voos maiores; clubes que aí sim poderiam me dar visibilidade para alcançar esse posto, e ser visto para a Seleção.

Aos 25 anos, como vê sua situação atual e como projeta seu futuro na Europa?
Estou com um projeto em que, entre um ou dois anos eu possa aparecer no cenário do futebol europeu. Hoje vejo como possibilidades o Campeonato Russo, Alemão e Italiano, onde eu poderia render acima da média e calcar um lugar num clube importante da Europa.

Você recomendaria aos seus colegas brasileiros a seguir esse caminho: trocar o Brasil por algum time pequeno de fora, buscando visibilidade europeia?
Acima de tudo, tem que se estar feliz onde quer que esteja. Porque, caso contrário dificilmente se vai render o esperado. Mas eu recomendo sim a busca por clubes europeus menores onde jogadores brasileiros são muito valorizados, diferentemente do Brasil, e realizando bem seu trabalho com certeza será encaminhado para um clube de maior expressão.

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Equipe Trivela

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