Invasão de Campo

Na última Copa do Mundo, uma história, que há muito tempo passou despercebida, veio à tona, a saga de uma família que se rompeu e deu origem a duas das maiores empresas de material esportivo do mundo: Adidas e Puma.

É essa intricada história, marcada por traições, muito dinheiro e interesses, que Bárbara Smit conta em Invasão de Campo – Adidas, Puma e os bastidores do esporte moderno, 359 páginas e publicado pela Jorge Zahar editor. Mais do que falar sobre futebol, esse livro remonta, com uma grande gama de detalhes, como o esporte moderno se tornou um dos negócios mais rentáveis do mundo.

Tudo começou na longínqua década de 1920, em que os dois irmãos, Rudolf e Adolf Dassler fundaram uma pequena fábrica de calçados em Herzogenaurach, Alemanha. A peculiaridade ficou evidente pela especialidade dos irmãos – os sapatos esportivos – um nicho não muito explorado naquela época, para não dizer nada explorado. Desde a obstinação de Adi (apelido de Adolf) como sapateiro e esportista, às habilidades do irmão mais velho, Rudolf, nos relacionamentos e vendas, até a briga dos dois, que motivou o rompimento definitivo dos dois núcleos familiares – que originou as duas empresas – o livro mostra como o mercado esportivo como conhecemos começou a se formar, há mais de 60 anos.

A Olimpíada de 1936 e o paradoxal apoio, simultâneo, ao regime nazista e ao fenômeno negro norte-americano, Jesse Owens, mostravam que a parte que cabia a Adi Dassler (daí o nome Adidas) foi considerado o ponto inicial da história de sucesso da marca das três listras. O relacionamento de Adi com os atletas, principalmente os de futebol, também contribuíam para a expansão da empresa. Outra vitória historicamente conhecida foi o famoso “Milagre de Berna”, quando a seleção alemã – calçando as chuteiras de atarraxar, supostamente inventadas por Adi – bateu os, então, invencíveis húngaros por 3 x 2, em um campo enlameado.

Daí, para começar a dominar o mercado, foi uma questão de tempo e de um determinado personagem, o lendário Horst Dassler, filho de Adolf. Horst é, talvez, o personagem mais importante do mundo esportivo-político de todos os tempos, pelo simples fato de ser um habilidoso lobista e ter “apoiado” pessoas como João Havelange, para a presidência da FIFA, e Juan Antonio Samaranch, para o principal posto do COI (Comitê Olímpico Internacional).

Brigas e intrigas não faltam neste livro recheado de informações – o que pode deixar o leitor muitas vezes perdido, pela quantidade de personagens e tramas. Outras passagens bem interessantes são aquelas referentes ao caso denominado “pacto Pelé”, em que os primos Horst e Armin não disputariam o melhor jogador de todos os tempos, Pelé; e também o desdém que viram na criação de uma pequena concorrente, uma tal de Nike.

O livro, no entanto, contempla, na maior parte, apenas o lado Adidas da história, mostrando a obstinação e a trajetória de Horst, alijando a Puma a poucas páginas no terço final da publicação. Mesmo assim, esse trabalho de mais de cinco anos da jornalista holandesa Bárbara Smit é entretenimento garantido para quem gosta de histórias que poderiam ser ficção, mas que aconteceram de fato; e nos explica como – mais do que o futebol – o esporte é regido hoje, um grande mercado em que circulam muito dinheiro, pessoas poderosas e também atletas, que fomentam as vendas e a paixão de milhões de pessoas em todo o planeta.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo