Hooligans

O memorialismo é um traço presente na produção de muitos artistas. Não raro, eles exploram situações que vivenciaram na infância ou na adolescência. Alguns chegam a vasculhá-las em mais de uma obra, tamanha é a força do passado. Essas experiências autobiográficas seduzem escritores, compositores, pintores. E também cineastas. A diretora alemã Lexi Alexander, por exemplo, recorreu a lembranças não muito remotas – ela tem apenas 30 anos – para elaborar o roteiro de ‘Hooligans’, filme que, no Brasil, chegou às prateleiras das locadoras sem ter visitado os cinemas.

Então a moça era uma hooligan? Quase isso. Ela e o irmão integravam a torcida organizada do SV Waldhof Mannheim, numa época em que o time ainda disputava a Bundesliga. A condição de única menina do grupo lhe reservava a benesse de ficar fora dos embates corporais, embora talvez isso não fosse necessário – Lexi Alexander era campeã e instrutora de artes marciais. Alguns de seus alunos de caratê pertenciam à torcida e se encarregaram de enturmá-la. Filha de pais divorciados, a garota encontraria no futebol “uma distração fantástica para a vida cotidiana” e, naquele clã de rapazes, a proteção, a cumplicidade e a lealdade que não observava em casa.

Há semelhanças entre a história de Lexi Alexander e a do personagem Matt Buckner – interpretado por Elijah ‘Frodo’ Wood –, e elas não são meras coincidências. Buckner estuda em Harvard e, dois meses antes de se formar, é injustamente expulso. Em vão, tenta entrar em contato com o pai ausente, um jornalista workaholic. Decide viajar para Londres, onde conhece Pete, cunhado de sua irmã e líder de uma torcida (fictícia) do West Ham, chamada GSE – Green Street Elite. Americano e ruim de briga, Matt é um peixe fora d’água que acaba amando o novo habitat. Seu ‘tutor’ também tem algo de Lexi Alexander: quando não está em sangrentos confrontos, transforma-se no professor Pete. Aquele tipo de mestre legal que, em dia de sorteio da FA Cup, torce junto com os alunos por uma chave boa para o West Ham.

Para escrever o roteiro, Lexi Alexander foi auxiliada por Dougie Brimson, autor de livros sobre hooliganismo. Contou também com os depoimentos de Cass Pennant, cabeça da antiga ICF (Inter City Firm), violenta torcida do West Ham, bastante famosa nos anos 70 e 80. O clube londrino ficou inicialmente receoso quanto ao conteúdo do filme, julgando que sua imagem poderia ficar associada a cenas de selvageria que já não são tão freqüentes nos dias atuais. Depois, concluiu que seria uma oportunidade ímpar de divulgar a instituição em todo o mundo e até permitiu que um jogo de verdade fosse filmado. Antes disso, a equipe técnica e os atores de ‘Hooligans’ acompanharam vários jogos em Upton Park e estiveram diversas vezes nos pubs das redondezas, tudo com o intuito de construir a atmosfera mais realista possível no longa-metragem.

Uma das preocupações do roteiro foi fazer o público não-britânico, especialmente o americano, entender a relação visceral entre torcida e time na Inglaterra. O personagem ianque funciona como o pretexto perfeito para as explicações necessárias. Ao mesmo tempo em que ensina a Matt os dogmas do hooliganismo, Pete os esclarece para os espectadores. Coisas do tipo “O que acontece no futebol, morre no futebol” ou “Você não pode correr, não quando estiver conosco… Tem de ficar e lutar”. Tal espécie de doutrina ressalta valores como o companheirismo e a fidelidade. Só esquece de justificar os murros e pontapés nos rivais, que afinal de contas são igualmente seres humanos.

Aí reside um dos pontos polêmicos da película: a mensagem transmitida. Falar em apologia à violência talvez seja exagero, mas não dá para negar que existe um certo glamour na forma como os hooligans são apresentados. Depois de aderir à barbárie, Matt se torna um cara seguro e confiante, passa a se sentir mais vivo e atraente. Será que o ideal teria sido mostrá-lo de outro jeito? Depende. Se o objetivo do filme era levar um recado edificante às massas, sim. Se era (e parece ter sido) contar uma história verossímil, com leve teor documental, não. Porque a verdade às vezes difícil de aceitar é que muitas pessoas espalhadas pelo planeta acham que fazer parte de uma torcida violenta é realmente glamour puro. Pesquisas sociológicas e antropológicas ligadas ao futebol já investigaram esse estranho prazer de arrebentar as amarras civilizatórias e partir para a porrada com pessoas desconhecidas, mas esses aprofundamentos não caberiam num filme.

No que diz respeito ao enredo, ‘Hooligans’ é simples e eficaz. Garante algum entretenimento, principalmente para os que adoram futebol. No entanto, confesso que prefiro algo na linha de ‘Febre de Bola’ (‘Fever Pitch’), aquele filme (baseado num livro de Nick Hornby) que trata do amor de um torcedor pelo Arsenal. Questão de identificação, já que, assim como o protagonista, tenho fissura pelo meu time, e não pela torcida organizada dele. Algo que sempre me incomoda em estádios de futebol é o grito que exalta uma facção, e não o time. Os rapazes de ‘Hooligans’ às vezes também parecem mais apegados à GSE do que ao West Ham. E isso acontece, mesmo.

Durante as filmagens, Lexi Alexander tornou-se uma autêntica torcedora do West Ham e, perto de Los Angeles, acompanhou num bar o jogo que, no finzinho da temporada 2004/5, assegurou aos Hammers o retorno à Premier League. O velho SV Waldhof Mannheim, que indiretamente forneceu um ótimo tema para o primeiro longa da promissora cineasta, hoje perambula por divisões regionais da Alemanha.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo