Hearts of Oak: O outono da árvore de Accra

Se, um dia, alguém inventasse um prêmio para o clube de futebol com o nome mais extravagante do mundo, a África teria alguns concorrentes de peso. Certamente seriam indicados o Eleven Men in Flight (Suazilândia) e o Touch and Go (Namíbia), que disputariam o título páreo a páreo com o Hearts of Oak (“Corações do Carvalho”), time de Gana que, nos últimos dias, apareceu mais na mídia, e não apenas na africana. O motivo não foi um título importante, nem a alcunha esquisitona, já que ela existe há quase 100 anos – o clube foi fundado em 1911 e é o mais antigo do país em atividade. A verdadeira razão da exposição na imprensa foi uma batalha jurídica com a federação ganense, que rejeitou a inscrição dos reforços Charles Taylor e Ishmael Addo. Um torcedor do Hearts sentiu-se lesado e questionou os critérios da parafernália burocrática da entidade. Foi o suficiente para o campeonato ganense parar.

No dia 21 de outubro, o Phobia (sim, esse é o apelido do Hearts of Oak, decorrente do pavor que provoca nos adversários) não compareceu à partida contra o Tema Youth, que está pleiteando os pontos do W.O. Os outros jogos da rodada aconteceram normalmente, pois a federação alegou que ainda não havia recebido nenhuma orientação oficial acerca da interrupção do certame, decretada dias depois. Os pivôs do imbróglio – Taylor e Addo – estão retornando ao Hearts of Oak após giros pelo exterior. Na temporada de 2000, ambos eram titulares do time que conquistou a tríplice coroa: o título da liga nacional, a FA Cup de Gana e a Copa dos Campeões da África. Passada a euforia da virada de século, o Phobia está em crise. O conflito com a federação se soma aos problemas financeiros e ao mau desempenho nos gramados, montando um quadro bem diferente daquele que se viu seis anos atrás.

Anos 70: lema posto em prática

Imerso em dívidas, o Hearts criou recentemente uma campanha para arrecadar doações, chamada “Fertilize the Oak Tree”. Em campo, a equipe claudica – ocupa, no campeonato nacional, a 11a posição, modestíssima para quem, entre 1996 e 2002, foi hexacampeão. Ao todo, o clube da capital Accra – cidade que, para os padrões africanos, é bem desenvolvida – arrebatou 18 vezes o troféu da liga ganense, formada em 1956. Só perde para o Asante Kotoko, campeão em 20 ocasiões. Aliás, a última grande alegria do Hearts of Oak remonta a uma decisão contra o rival: em janeiro de 2005, uma vitória nos pênaltis sobre os “Porcupine Warriors”, na casa deles, fez a taça da primeira edição da Copa das Confederações da África ir para Accra. O êxito ajudou a cicatrizar feridas antigas. Na loteria das penalidades, o Phobia perdera a Copa dos Campeões de 1979, frente ao Union Douala, de Camarões.

Embora a década de 90 tenha culminado com o mágico ano 2000 e revelado jogadores como Stephen Appiah e Emmanuel Kuffour (artilheiro da Copa dos Campeões do citado ano), a época mais importante da trajetória do Hearts of Oak foi o fim da década de 70, na qual o então presidente do clube, Tommy Thompson, criou, para a própria instituição, uma denominação nem um pouco humilde: “Continental Club Masters”. A megalomania não era gratuita. Além dos triunfos no campeonato ganense (76, 78 e 79), o time bisou a chegada à final da principal competição africana (77 e 79). Houve duplo fracasso, é verdade, mas algumas páginas míticas da história do Phobia foram escritas nessas empreitadas. O “Milagre de El-Wak” é um exemplo. El-Wak é o nome de um estádio de Accra, onde se disputou o jogo de volta da semifinal da Copa dos Campeões de 1977, Hearts of Oak x Mufulira Wanderers, de Zâmbia. Na ida, 5 a 2 para o Mufulira. Em casa, o Phobia fez 3 a 0, todos os gols no segundo tempo, o último a dois minutos do fim. Foi uma jornada épica, em que o lema do clube – “Never say die!” – atingiu a plenitude.

2001: uma odisséia cancelada

Mama Acquah, Anas Seidu, Peter Lamptey, Bobby Hammond e Mohammed Polo: eram esses os componentes do “Fearsome Five”, como ficou conhecido o quinteto ofensivo do Hearts naqueles memoráveis anos 70. Vinte anos depois, o goleiro Sammmy Adjei, o zagueiro Jacob Nettey, o meia Charles Taylor e os atacantes Ishmael Addo e Emmanuel Kuffour formariam uma espinha dorsal que receberia o mesmo epíteto. Eles alcançariam, em 2000, o prêmio maior do continente, que por pouco havia escapado em 77 e 79. Pena que o Mundial da FIFA de 2001 tenha melado, em virtude da quebra da ISL. Teria sido a oportunidade de enfrentar gigantes como o Real Madrid, que ia fazer parte da chave do campeão africano. Pena, também, que o visionário Tommy Thompson já tivesse morrido em 2000, sem poder ver seus “Masters” dominarem a África.

Hoje, o Phobia está muito mais distante do Mundial Interclubes. Enquanto Al Ahly, do Egito, e Sfaxien, da Tunísia, decidiam a African Champions League 2006 (e, conseqüentemente, o passaporte para o Japão), o clube de Accra lamenta ter cumprido pífia campanha na competição. As causas da má fase passam pela falta de dinheiro, que, por sua vez, está associada à dificuldade de vender jogadores a preço razoável para o mercado europeu. Os bons negócios minguaram, e os melhores jogadores de Gana deixam cada vez mais cedo a terra natal. Da seleção que participou da Copa do Mundo, apenas o defensor reserva Daniel Quaye pertence ao Hearts of Oak. Em 2000, três integrantes dos Black Stars na Copa Africana de Nações defendiam o Hearts.

Tradição, paixão e rivalidade

Apesar das mazelas, o Phobia continua sendo um dos emblemas mais queridos do continente africano, ao lado de Esperance, Al Ahly (Egito) e Raja Casablanca (Marrocos). O glamour e o imenso espaço midiático das ligas européias têm esfriado um pouco a relação dos clubes africanos com os torcedores, principalmente os mais jovens. Esses clubes africanos mais tradicionais, porém, resistem a isso com maior vigor. Nas ruas de Accra, a exclamação “Phobia!”, espécie de senha que identifica os adeptos da paixão, é respondida com a frase “The boys are good!”, sempre acompanhada de um sorriso aberto. As cores do uniforme – que são, digamos, bastante diversificadas – têm presença maciça nas esquinas, nas árvores, nas roupas e nos carros, sob a forma de pinturas, bandeirolas, escudos etc.

Na seqüência do campeonato ganense, veremos se o Hearts of Oak conseguirá sair da incômoda situação na tabela. Caso esse objetivo mais imediato seja alcançado, outros vêm logo a seguir: a recuperação financeira, a construção de um estádio próprio (já existe o projeto) e o retorno à elite do continente. O torcedor aguarda ansiosamente o dia em que o Phobia arrebatará o título africano pela segunda vez, igualando o feito do Asante Kotoko, vencedor em 1970 e 83. A rixa entre os dois clubes não é leve e já incitou atos de selvageria. Em 2001, 126 pessoas morreram num clássico disputado em Accra. A ação destrambelhada da polícia foi parcialmente responsável pela tragédia.

Onze motivos para ficar apreensivo

Arbitragens ruins, recursos exíguos, estádios precários, falta de segurança: tudo isso atrapalha o futebol africano. O Hearts of Oak, no entanto, persiste na luta, iniciada em 1911. Alguns jovens amigos do bairro Ussher Town, liderados por Ackom Duncan (primeiro capitão da equipe), resolveram encarar o Invincible Eleven, único time das redondezas. Pronto: estava fundado o clube, que fincaria raízes no futebol de Accra, vencendo vários torneios na cidade. Depois, seus galhos tomariam o país, sua folhagem se espalharia pelo continente.

A semente do clube foi lançada num dia 11, do mês 11, do ano 11, às 11 da manhã. Numa casa de número 11, segundo dizem. “Hearts of Oak” tem 11 letras. O povo de Gana, muito religioso, não fica adubando muito essas superstições, mas, por via das dúvidas, os adeptos do Phobia torcem para que, antes de 2011, o carvalho de Accra volte a florescer.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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