Hapoel Tel Aviv: Futebol, política e tolerância em Israel

Por Guilherme Amorozo

No Brasil, quando futebol e política aparecem juntos no noticiário, já se sabe o que vem pela frente: escândalos das mais variadas espécies, o esporte como pretexto para mal uso do dinheiro público, benesses concedidas a clubes e entidades com a ficha suja, etc. Em Israel, as coisas são diferentes. Lá, futebol e política mantêm uma ligação umbilical, sem, no entanto, ocupar as páginas policiais.

A questão política está no DNA do Hapoel Tel Aviv, time israelense que disputa pela primeira vez a fase de grupos da Liga dos Campeões da Europa na temporada 2010/2011. Freqüentador regular da Copa da Uefa (Liga Europa), o clube vermelho chegou ao principal palco do futebol europeu após 83 anos de existência, ao vencer neste ano o Campeonato Israelense e a Copa do Estado de Israel, as duas principais competições do país.

Sua história começa em 1927, ano em que, depois de encarnações prévias, o Hapoel se estabelece na efervescente Tel Aviv. A cidade nascera apenas 18 anos antes, pelas mãos de imigrantes judeus de diversas partes, encaminhados à Palestina (então sob controle britânico) nas ondas migratórias estimuladas pelo Movimento Sionista. Faltavam ainda mais de duas décadas para a criação do estado de Israel, mas Tel Aviv transformava-se rapidamente num dos centros de articulação desse processo.

Da discussão participava a Histadrut, a federação geral dos trabalhadores judeus, que anos antes criara a associação esportiva Hapoel – “Trabalhador”, em hebraico –, voltada a difundir o esporte entre as massas proletárias. Em cada cidade judaica importante, a federação implantou um clube Hapoel, com o objetivo de atrair trabalhadores e jovens para o chamado Sionismo Socialista, por meio da prática esportiva.

Rivalidade partidária

A origem de muitos dos grandes clubes de Israel, na verdade, traz uma carga política parecida. Os times de nome Beitar, como o Beitar Jerusalém, estão associados aos nacionalistas de direita. E os times Maccabi, como o Maccabi Haifa, têm ligação histórica com o Movimento Sionista, liberal.

Antes mesmo de entrar em campo pela primeira vez, o Hapoel Tel Aviv já tinha, portanto, um grande rival: o Maccabi Tel Aviv. O clube mais antigo da cidade era visto pelos associados do Hapoel como uma entidade burguesa, meros perseguidores de vitórias e recordes. Os hapoelistas, por sua vez, tinham propósitos supostamente mais dignos: a defesa da coletividade solidária e da honra da classe trabalhadora, acima da vocação competitiva.

Mas o fato de o Hapoel começar ele mesmo a escrever uma trajetória bem sucedida nas competições palestinas durante as décadas de 1930 e 40 relegou suas ambições socialistas ao segundo plano. Afinal, depois de vencer seis Copas Palestinas e cinco Ligas Palestinas antes de completar vinte anos, não dava para negar que o time vermelho competia ferozmente pelas mesmas conquistas de seu rival “burguês”. Em 1934, ano em que ganhou a copa derrotando o Maccabi Tel Aviv na final, o Hapoel venceu simplesmente todas as partidas da liga nacional, feito jamais igualado por nenhum outro clube.

Depois da criação de Israel, foram mais oito copas e oito campeonatos nacionais conquistados pelo Hapoel Tel Aviv até 2010. A consagração internacional veio com o título da Copa de Clubes da Ásia de 1967 (primeira versão da atual Liga dos Campeões da Ásia), quando o time venceu um único jogo (a final) em cima do Selangor, da Malásia. Mais recentemente, o Hapoel fez bonito na Copa da Uefa 2001/2002, ao alcançar as quartas-de-final do torneio eliminando adversários do porte de Lokomotiv Moscou, Chelsea e Parma. A campanha mágica só terminou no San Siro, diante do Milan, que suou para reverter uma derrota sofrida no jogo de ida. Nunca um time israelense foi tão longe na Copa da Uefa.

Àquela altura, os laços do Hapoel Tel Aviv com a Histadrut já não existiam mais. A exemplo do que aconteceu em todo o futebol israelense, o clube fora vendido para gestores esportivos mais afinados com o futebol moderno. Mas os auto-intitulados demônios vermelhos foram os últimos a se desligarem de uma entidade política – demoraram até 1997.

Ultra tolerantes

O caráter politizado das origens do time sobrevive hoje nas ações de sua torcida organizada mais fanática, os Hapoel Ultras. Em lugar da tradicional truculência (muitas vezes racista) dos ultras de muitos times europeus, a Hapoel Ultra é conhecida por realizar uma série de trabalhos sociais voltados aos desfavorecidos de Tel Aviv. A torcida recolhe doações para refugiados, participa ativamente das campanhas anti-racismo da Uefa, e, ao contrário dos nacionalistas mais radicais (dos quais a torcida do Beitar Jerusalém é o maior exemplo), apóia abertamente um entendimento com os árabes palestinos.

Não à toa, o Hapoel foi o clube onde surgiu o primeiro jogador de origem árabe a defender a seleção israelense, Rifat Turk. Ídolo dos hapoelistas judeus e árabes, o meio-campista foi eleito o jogador do ano de 1980 em Israel. Na temporada seguinte, levou o time à conquista do título nacional.

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