Györgi Sárosi: Existiu vida antes de Puskas

Futebol húngaro? O primeiro nome que vem a cabeça é o de Ferenc Puskas, um dos maiores craques da história do futebol mundial e que se tornou o grande símbolo da Seleção Húngara que encantou o mundo, mas acabou derrotada pela Alemanha na final da Copa de 1954. Em um segundo momento podem ser lembrados nomes como Kocsis, Czibor, Hideguti, que, assim como Puskas, fizeram parte daquele time. Mas apesar de toda a reverência ao futebol húngaro, o nome de György Sárosi costuma passar batido. Obscuridade injustificável se pensarmos que ele foi o responsável pela primeira grande aparição da Hungria em nível mundial, 16 anos antes de 1954.

György Sárosi nasceu em 1912, no então Império Austro-Húngaro. Aos 18 anos, o centro-avante estreou na equipe profissional do Ferencvaros, clube da Hungria que defendeu por toda a sua carreira – 18 anos no total. Em 1931 foi convocado pela primeira vez para a Seleção Húngara, participando da derrota de 3 a 2 para a Iugoslávia. O primeiro tento pela Hungria veio apenas 15 jogos depois, em mais uma derrota, dessa vez para a Suécia (1933). Se o começo não parecia promissor na seleção, no Ferencvaros o início não poderia ser melhor: títulos nacionais em 1931 e 1934, que credenciaram Sárosi a ser convocado para a sua primeira Copa do Mundo.

Gols, recordes e uma frustração

Em 1934, na Itália, depois de passar pelo inexpressivo Egito, a Hungria deu de cara com a forte Áustria, uma das melhores equipes da Europa na época e que ficou conhecida como “Wunderteam”. No confronto cercado de rivalidade, até o fim da Primeira Guerra Mundial as duas nações haviam convivido unificadas sob a bandeira do Império Austro-Húngaro, a Áustria levou a melhor (2 a 1). Mas Sárosi deixou sua marca anotando o único gol húngaro na partida – meses antes ele já havia feito um dos gols da vitória sobre a Bulgária que ajudou a classificar a Hungria para a Copa.

Com um estilo de jogo elegante e objetivo ao mesmo tempo, o centro-avante – dono de grande versatilidade, com freqüência recuava até o meio-campo para participar da armação de jogadas – logo se notabilizou pela habilidade e visão de jogo, além, é claro, de marcar muitos gols. Tantas qualidades, aliadas ao fato de Sárosi possuir diploma de curso superior em Direito, lhe renderam o apelido de “Doutor” – a própria página da RSSSF, destinada a estatísticas sobre futebol, o trata como “Doutor György Sárosi”

O jogador viveu seu auge em 1938. Campeão nacional com Ferencvaros e da Copa Mitropa (Copa da Europa Central) um ano antes, Sarosi chegou ao mundial da França como grande aposta da Hungria. Ainda em 1937 havia batido o recorde de gols com a camisa húngara ao marcar sete vezes contra a Tchecoslováquia. E se em 1934 o sorteio não ajudou os húngaros, quatro anos mais tarde a sorte esteve ao lado da seleção magiar. Até a final, a equipe passou sem dificuldades por Índias Holandesas, Suíça e Suécia, enquanto favoritos como Itália, Brasil e Tchecoslováquia guerreavam do outro lado da chave.

Sárosi conduziu os húngaros à final e chegou a decisão brigando pela artilharia da Copa junto com Leônidas do Brasil e Silvio Piola da Itália. Mas já na decisão do terceiro lugar o brasileiro marcou mais dois praticamente sacramentando a artilharia. Restava a Sárosi brigar pelo título. Na final contra os favoritos italianos, que lutavam pelo bicampeonato, a Hungria saiu perdendo, empatou, mas viu os italianos abrirem 3 a 1. Sárosi ainda marcou o segundo gol, mas a oito minutos do fim, Piola anotou mais um, seu segundo gol na partida, e sacramentou o bicampeonato.

No duelo particular o italiano levou a melhor e terminou como o destaque da Copa, enquanto Leônidas acabou como artilheiro. Apesar de marcar gols em todos os jogos e do vice-campeonato, Sárosi e a Seleção Húngara foram relegados ao segundo plano e ainda mais esquecidos após os feitos de Puskas e companhia. Uma das poucas lembranças que restaram do mundial mostra o capitão da Hungria apertando a mão do outro capitão, o italiano Giuseppe Meazza, minutos antes do início da partida.

Devido a Segunda Guerra Mundial, aquela foi a última Copa de Sárosi, já que o campeonato não ocorreu em 1942 e 1946. Depois da derrota frente à Itália, o jogador atuou por mais cinco anos pela seleção de seu país. Encerrou sua participação pela Hungria com 42 gols em 62 jogos, como quinto maior artilheiro da seleção na história, fazendo parte do seleto grupo de jogadores a ultrapassar a marca de 40 gols por seleções nacionais.

Pelo Ferencvaros, viveu ainda bons momentos na década de 1940, quando conquistou dois títulos nacionais e três Copas da Hungria. Encerrou a carreira no clube em 1948, aos 36 anos, com mais de uma dezena de títulos e uma incrível marca de 351 gols em 383 jogos, uma média superior a 0,9 gols por partida, isso contando apenas os tentos marcados no Campeonato Húngaro.
 

Sucesso na Velha Bota

Depois de parar de jogar, fugiu do comunismo que tomou conta da Hungria após a Segunda Guerra e foi tentar a sorte como treinador na Itália, país que lhe impôs a maior frustração na carreira. Passou por Bologna, Roma, Genoa, Bari e Juventus. Quando a Hungria encantou o mundo em 1954, Sárosi já havia conquistado um Campeonato Italiano com a Vecchia Signora dois anos antes. Treinou ainda outras equipes, entre elas a Seleção Iraniana, e adotou a Itália como seu país, lugar onde viveu até a morte, em 1993, aos 80 anos, de causas naturais. Seis anos após falecer, foi um dos três jogadores húngaros a aparecer na lista dos “100 maiores jogadores da história”, em votação realizada pela revista inglesa “World Soccer” – os outros dois foram Puskas e Kubala. Apesar do tempo, este ano se completam 70 anos da final de 1938, os números e os feitos de Sárosi não negam um fato: existiu vida inteligente no futebol húngaro antes de Puskas.
 

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Equipe Trivela

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