Grobbelaar: As lendárias pernas de espaguete

Era a final da Copa dos Campeões. O Liverpool disputava contra um time italiano nos pênaltis a vitória que tornaria os onze homens de Anfield heróis para sempre. Um dos craques do time adversário vai para a cobrança. Num arroubo de deboche, o goleiro do Liverpool começa a rebolar, como se suas pernas fossem de espaguete. O adversário se desconcentra e erra a cobrança. O Liverpool é campeão da Europa.

O goleiro debochado citado no primeiro parágrafo poderia ser Jerzy Dudek, que embaralhou com as pernas a cabeça dos milanistas e brilhou nos pênaltis que decidiram a Europa em 2005. Mas Dudek provavelmente se inspirou em Bruce Grobbelaar, arqueiro fanfarrão, excêntrico e extremamente ágil que defendeu o Liverpool na final da Copa dos Campeões de 1981, em Roma. A Roma era dona do scudetto e tinha tudo para ganhar a decisão da maior copa européia, que se daria em sua casa – mas o jogo foi para os pênaltis. O estádio Olímpico assistiu incrédulo a dança de Grobbelaar, que distraiu Francisco Graziani e o fez chutar para fora.

Este foi o episódio mais marcante da carreira do goleiro, nascido na África do Sul mas naturalizado pelo Zimbábue. Grobbelaar, quando adolescente, era muito bom no críquete e no beisebol e teve inclusive a oportunidade de jogar nos Estados Unidos. Porém, preferia o futebol – ingressou no Jomo Cosmos, no qual não foi aceito pelo fato do clube ser majoritariamente de negros. Logo depois, se inscreveu na Guarda Nacional da Rodésia, onde lutou na guerra civil de independência do país contra as forças de Robert Mugabe. O Zimbábue se tornou um país independente e Bruce tomou o rumo do Canadá, em 1979, quando olheiros do Vancouver Whitecaps o descobriram nas trincheiras.

Durante um ano, Grobbelaar foi treinado por Tony Waters, ex-goleiro do Blackpool, e se tornou uma figura querida em Vancouver. O W.B.A de Ron Atkinson se interessou pelo seu futebol, mas não conseguiu contratá-lo. O Crewe Alexandra foi mais feliz – Bruce disputou 24 jogos e marcou um gol de pênalti em Gresty Road. Chegou a voltar para Vancouver, mas desta vez não escapou do assédio inglês. Foi contratado pelo Liverpool, onde substituiria o lendário goleiro campeão europeu Ray Clemence.

Bruce se destacou debaixo das traves por sua extrema agilidade e excentricidade. Disputou 627 jogos pelo time de Anfield, entre 1981 e 1994, alternando defesas impossíveis e frangos históricos. Não se importava com as críticas ao seu estilo e argumentava – “Depois de enfrentar uma guerra civil no Zimbábue, não posso levar o futebol tão a sério”. Porém, esse comportamento despreocupado contrastava com o seu perfeccionismo. Detestava errar, e não raro brigava com seus companheiros por conta disso. Um dos episódios mais famosos foi a violenta discussão que teve com o zagueiro Jim Beglin na final da Copa da Inglaterra de 1986 – na qual o Liverpool saiu campeão. Fanfarrão, prepotente, contestado, porém um absoluto vencedor: na sua passagem por Anfield, levantou seis campeonatos ingleses, três copas da liga, três copas da Inglaterra e uma Copa dos Campeões, na noite mágica na qual chocou o estádio Olímpico de Roma com sua dança sobre a linha. “Eu mordi a rede logo antes e me pareceu espaguete. Daí resolvi fazer as pernas de espaguete”, disse ele numa entrevista posterior.

A decadência e a venda de resultados

A extrema auto-confiança de Bruce Grobbelaar lhe deu grandes vitórias e também algumas grandes quedas. Em 1992, o Liverpool contratou a estrela sub-21 inglesa David James. Grobbelaar o desafiou nos jornais a tomar o seu lugar. James não só o fez, aproveitando a insistência de Bruce em jogar pela seleção do Zimbábue, como se tornou titular, obrigando a direção do Liverpool a emprestá-lo para o Stoke City. Quando reclamou a sua volta, não foi ouvido. Não restou outra alternativa senão ir para o Southampton em 1994, encerrando uma gloriosa trajetória em Merseyside.

No mesmo ano, o tablóide The Sun investigou uma denúncia. Existia uma máfia de apostas em jogos de futebol na Inglaterra e jogadores estariam envolvidos. As câmeras de vídeo provaram: Bruce estava negociando resultados das partidas. Nos tribunais, Bruce argumentou que fora coagido e foi declarado inocente. Assim, pediu indenização de danos morais para o jornal. O The Sun entrou na justiça recorrendo da indenização e venceu, obrigando Bruce Grobbelaar a pagar 500 mil libras ao jornal. A justificativa foi clara: ainda que não existissem provas concretas que o goleiro entregou jogos para ganhar dinheiro, a simples negociação de resultados não era um comportamento decente para um futebolista. Bruce se declarou falido: “Tudo que eu ganhei na Inglaterra me tiraram.”, reclama ele, hoje morando na África do Sul, onde já treinou alguns times da liga local sem sucesso. Preserva a careca e o bigode indefectíveis, mas sem o mesmo brilho da camisa verde de número um com a qual conquistou a Europa.

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Equipe Trivela

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