Grã-Bretanha: Além da Inglaterra

Por Junior Lourenço
Futebol e Olimpíadas nunca foi a mais incrível das combinações. Enquanto para a maioria dos esportes os Jogos são o auge, o futebol tem a Copa do Mundo como evento principal. O regulamento que só permite a convocação de atletas até vinte e três anos dá ao torneio olímpico um status de categoria de base com requinte.
Apesar desse aparente desdém, a próxima edição terá um interessante ingrediente. Não pegaria bem para Londres, cidade sede em 2012, ficar sem nenhum representante no mais popular dos esportes. Sendo assim, a Grã-Bretanha terá uma seleção na disputa.
Mas isso não seria óbvio? Não, nem sempre foi assim.
Passado dourado
Como explicar que Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte participam juntos em quase todos os esportes, mas não no futebol? A resposta está no berço.
A origem do jogo deu-se na Grã-Bretanha – sim, existem outras versões, mas acatemos à deles para melhor compreensão desta história. Com o surgimento da Federação Inglesa (FA), seus vizinhos próximos fizeram o mesmo. Os duelos entre eles, nos primórdios do futebol, criaram enorme rivalidade. Isso só aumentou com o passar do tempo, tornando muito difícil uma unificação de seleções.
Curiosamente, a pedido da FA, o Comitê Olímpico Internacional incluiu o futebol nos jogos em 1908, também em Londres. Jogando como Grã-Bretanha, foram medalhistas de ouro, com uma equipe formada apenas por ingleses. O feito se repetiu em 1912.
Lembremos que este era um período pré-Copa do Mundo. Logo, os primeiros torneios olímpicos tinham prestígio muito maior do que nos dias atuais. E nesse nível, duas medalhas de ouro são grandes conquistas para uma seleção recém-formada, até então.
Extinção e retorno
As equipes britânicas não venceram mais nenhuma edição. Depois dos jogos de 1960, nem se classificaram. Chegaram ao fim em 1972, com o início de uma distinção entre jogadores profissionais e amadores, promovida pela FA. De lá para cá, as seleções participam separadamente dos campeonatos qualificatórios, mas não ganham vaga nas Olimpíadas caso classifiquem-se.
Com o anúncio da candidatura vitoriosa de Londres, as discussões começaram a percorrer os quatro países envolvidos. Afinal, valeria manter o orgulho de independência para se abster de uma competição tão importante? Claramente, a Federação mais interessada na resolução do impasse era a inglesa. Até políticos deram seus pitacos, favoráveis ou não à tal junção.
A Fifa se posicionou, informando às nações que um eventual combinado não prejudicaria seu relacionamento com a entidade e não resultaria em detrimento de qualquer direito. Mesmo assim, depois de muitos protestos e debates, chegou-se à conclusão que as Federações de Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte não aceitariam misturar seus jogadores para uma equipe olímpica. Entretanto, não seriam empecilhos à criação de uma seleção com o nome de Grã-Bretanha formada apenas por ingleses.
E assim será em 2012. Prova que a rivalidade iniciada na metade do século passado ainda persiste e prova do orgulho que essas nações tem de si mesmas. Caberá aos ingleses representar bem a si e a seus vizinhos. Em 1908, também foi assim. E também em 1908, os jogos foram em Londres. Resta saber se o resultado será mais uma vez dourado.



