Gourcuff: Na sombra de Kaká
Enquanto a Juventus percorre a travessia da Serie B, o Milan será o grande opositor do Inter na temporada 2006/7. É, de facto, complicado negar o título aos nerazzurri, que, por exemplo, se reforçaram com Vieira e Ibrahimovic. O Milan mantém a estrutura do costume, mesmo sem Shevchenko. No entanto, o técnico Carlo Ancelotti, que em 2005/6 não utilizou na Serie A jogadores com menos de 23 anos, conta, desde este Verão, com um novíssimo activo no seu plantel. Tem 20 anos (feitos recentemente em Julho), joga como médio-ofensivo e é um dos jogadores mais promissores a longo prazo da actualidade – Yoann Gourcuff.
Por causa de Cruyff
Yoann Gourcuff nasceu em Ploemeur, uma localidade da Bretanha (França), situada a seis quilómetros de Lorient. Foi, precisamente, nas escolas do Lorient que deu os primeiros toques. Contudo, foi no Rennes que se desenvolveu como jogador. A razão é simples. O seu pai, Christian Gourcuff, era treinador no Lorient. Porém, em 2001, assinou pelo Rennes e levou o filho consigo, quando este tinha 15 anos. Gourcuff (filho) tinha uma proposta do Nantes, mas optou, quase naturalmente, pela proximidade do pai nos Rouge et Noir (cores do Rennes). Curiosamente, Christian Gourcuff, que actualmente até treina o Lorient, aparentemente deu ao filho o nome de Yoann por ser o equivalente bretão de Johan, o primeiro nome do seu grande ídolo, Cruijff.
Etapa “Rennes”, com Bölöni
Em Novembro de 2003, Gourcuff assinou o seu primeiro contrato profissional, tendo sido Lazslo Bölöni (actual técnico do Mónaco e que, por exemplo, trabalhou de perto na formação dos portugueses Quaresma e Cristiano Ronaldo enquanto esteve no Sporting) o técnico responsável pela sua estreia. Tinha Gourcuff 17 anos (Fevereiro de 2004, contra o Auxerre). Na temporada passada (2005/6), Gourcuff, vestindo a camisola 10 do Rennes, foi uma das principais revelações da liga francesa (anotou 6 golos, entre muitas jogadas sensacionais). No meio-campo de Bölöni, Gourcuff ocupava um lugar de destaque na construção e equilíbrio de jogo, entre a posição 10 e a de interior-direito ofensivo, com Kim Källström (recente reforço do Lyon) inclinado para o lado esquerdo, com bastante vocação atacante. Gourcuff e Källström eram, pois, os dois principais jogadores da equipa – os verdadeiros responsáveis pela elaboração das jogadas de ataque para Monterrubio e Utaka nesta última temporada em que Frei estava já “encostado”.
E no Milan de Kaká?
Rui Costa saiu para o Benfica, mas o ingresso de Gourcuff no Milan (contrato válido por 5 anos; custou aos italianos “apenas” 4.5M euros, uma vez que terminava o vínculo com o Rennes em Junho de 2007) projecta uma ambição que não se cinge a uma simples alternativa a Kaká. Gourcuff pode marcar, de forma muito positiva, a paulatina renovação do Milan. Clube que pretende manter, quase a todo o custo, a estrutura do 4-4-2 com praticamente os mesmos intérpretes. Assim, para Gourcuff ter mais hipóteses de contabilizar minutos jogados, teria de ser, em teoria, no lugar de Kaká. O brasileiro é aquele que cumpre uma posição que mais se assemelha à do francês. Coloca-se no eixo, mas, na maior parte das vezes, ligeiramente inclinado para o lado direito com funções de desmarcação/lançamento.
Já que pegamos em Kaká, talvez seja conveniente referir que Gourcuff aparenta ter mais facilidade em trabalhar em espaços curtos do que Kaká, devido ao tipo de drible e ao próprio jeito de atacar, com menor tendência para ganhar balanço em direcção a espaços vazios, como faz o ex-São Paulo, especialista nato na definição de progressão/contra-ataques. Gourcuff confronta mais o adversário no 1v1.
Nesta fase de pré-época em Milão, o suíço Vogel tem sido o elemento que mais tem ajudado Gourcuff na adaptação à nova realidade, uma vez que é o único que fala francês mais fluentemente e que certamente não deseja que este tenha um futuro no Milan como tiveram Vieira ou Dugarry. A grande questão é: terá Gourcuff saído muito cedo de França? Estará Ancelotti a pensar numa forma de enquadrar posteriormente Gourcuff com Kaká, com o francês no lugar de Seedorf no lado interior-esquerdo?
O jogador
Este era mesmo um daqueles craques que não podia escapar ao olho do “Trivela”. Remata forte, passa longo, em bolas paradas ou lances corridos. De pé direito. Gourcuff demarca-se da concorrência pela forma aguerrida em como defende a zona central nos movimentos de recuperação. É um médio criativo com características claras de organizador; com um drible e protecção de bola “de cabeça no chão” que faz mesmo lembrar a figura e técnica de Zidane. Pode actuar nas costas dos avançados, mas, dada a relativa capacidade de luta na recuperação da posse de bola, a sua presença possivelmente tornar-se-á mais útil numa linha mais recuada, conferindo mais versatilidade ao bloco. Mais encostado ao flanco, como interior, ou no centro.
Tem apenas 20 anos e vai precisar de tempo para se afirmar. É um jogador com inegáveis capacidades para vir a ser um dos melhores na Europa e é notório que tem de se desenvolver do ponto de vista da resistência física. Tem uma boa estrutura para ser um atleta forte, mas, na última temporada, notava-se que tinha dificuldades em aguentar um jogo inteiro. Desaparecia com o cansaço.
Pelas selecções francesas
Pudemos assistir a alguns bons momentos de Gourcuff no recente Europeu sub-21 disputado em Portugal (2006), competição que foi ganha pela Holanda com o pé quente de Huntelaar. Jogou no meio-campo, ao lado do canhoto Mavuba (Bordéus), de Toulalan (Nantes, agora no Lyon) e do médio-direito Faubert (também do Bordéus). Nesta configuração, Gourcuff era quem jogava ligeiramente mais adiantado. Na defesa e no ataque, os seus colegas do Rennes, Faty e Briand, respectivamente. Esse Euro sub-21 foi a última grande montra de Gourcuff que, todavia, já havia dado a conhecer o seu futebol algum tempo antes.
Na selecção sub-17 tinha como companheiros o lateral-esquerdo do Bordéus, Marange, o defesa/médio-defensivo Kaboul, do Auxerre, ou até N’Zogbia, o extremo do Newcastle que na altura defendia as cores do Le Havre. Kaboul e Marange foram alguns (também se destacava o muito promissor médio-defensivo Vassiriki Diaby, hoje no Arsenal) dos que estiveram com Gourcuff no Euro sub19 na Irlanda do Norte, onde se sagraram campeões na final frente à Inglaterra, em 2005.
A estreia/assiduidade de Gourcuff na selecção principal francesa de Domenech vai depender bastante da utilização dada por Ancelotti. Não temos dúvidas que a sua hora de consagração. Resta saber através de que clube e de que seleccionador.



