Gilberto Silva: “Não me arrependo de deixar o Arsenal”
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Nascido em Lagoa da Prata, interior de Minas Gerais, Gilberto Aparecido Silva já está na história como um dos brasileiros mais bem-sucedidos no futebol inglês, atualmente a liga mais forte do mundo.
O volante jogou no Arsenal de 2002 a 2008, onde chegou a ser capitão do time. Participou dos últimos títulos dos Gunners, inclusive a Premier League de 2003/04, quando o time levantou a taça invicto.
Desde 2008, joga no Panathinaikos, da Grécia, onde foi recebido como ídolo desde o desembarque no aeroporto. Com contrato até o meio do próximo ano, o volante contou que jogar no Brasil depois disso é uma possibilidade. Falou ainda com carinho do América-MG e do Atlético Mineiro, os dois clubes que defendeu no Brasil e que acompanha de perto a situação.
Com jeito tranquilo e boa conversa, Gilberto Silva concedeu entrevista exclusiva à Trivela. Confira:
No ano passado o Panathinaikos venceu a Copa e o Campeonato Grego. A expectativa nesse ano é manter os títulos?
A expectativa é manter, mas tivemos um início diferente esse ano e temos que correr atrás agora.
Você já viveu grandes clássicos, como Atlético Mineiro e Cruzeiro, Arsenal e Tottenham. Como é jogar o clássico entre Panathinaikos e Olympiakos?
É um pouco diferente, o clássico tem sempre uma torcida só, algo inédito para mim. No começo é estranho, mas depois você se acostuma. E tem todo o clima durante a semana que a imprensa e a torcida criam.
Se adaptar à vida na Grécia foi difícil?
Se adaptar foi tranquilo, até porque estava dentro do que eu queria, estava dentro de tudo que era meu objetivo aqui na Grécia. Eu estava de saída do Arsenal, tive a oportunidade aqui. Eu sabia que seria diferente, mas eu estava preparado. Eu queria estar jogando e aqui eu teria essa chance.
Você é um dos poucos brasileiros que conseguiu ter sucesso na Inglaterra por muito tempo. Qual é o segredo do seu sucesso? Por que é tão difícil para brasileiros jogarem lá?
Talvez pelo meu estilo de jogo, e na Inglaterra focam mais a defesa. Talvez eu tenha essa vantagem para jogar, já que esperam muito do jogador brasileiro. Com isso, minha posição, na defesa, ajuda muito. Tem o trabalho também, que acho que fiz bem na Inglaterra.
O que te incomodou na Inglaterra para você querer deixar o Arsenal, já que você poderia continuar lá, se quisesse?
Eu queria manter o nível. Passei a temporada toda como capitão, já que o [Thierry] Henry estava machucado. Era a situação que eu estava vivendo. Logo após a Copa América [em 2007], depois que o Dunga assumiu a Seleção Brasileira, eu não consegui jogar a pré-temporada, porque eu tinha chegado um pouco mais tarde. Assim o Arsène Wenger decidiu usar a equipe que tinha jogado a pré-temporada. Eu fiquei sem jogar, o que me incomodou bastante, pela sequência que eu tinha tido até aquele momento. Depois de uma temporada com poucos jogos, sem atuar, se eu continuasse lá por mais uma ano eu poderia ficar mais uma vez no banco, sem jogar. E eu precisava de novos ares e foi bom para mim.
Você sente algum arrependimento de deixar o Arsenal?
Arrependimento algum. Era mais fácil arriscar sair do que passar mais uma temporada no banco. Eu achei melhor sair, ir para outro lugar e foi bom para mim, poder jogar mais, respirar novos ares.
Você esteve muito tempo no Arsenal. O que você acha da política do clube de gastar pouco, contratar jovens jogadores e não gastar com grandes contratações?
Quando você fala em gastar menos, é bom para os clubes, por economizar. O problema é que não está ganhando, né? A pressão é por títulos. Não sei se construir o novo estádio [o clube demoliu o Highbury e construiu o Emirates e conseguiu aumentar a receita do clube] atrapalhou na contratação de jogadores também.
Você já fez mais de 90 jogos pela Seleção, participou de três Copas do Mundo, ganhou Copa América e Copa das Confederações. Você ainda pensa em jogar pela Seleção?
Enquanto eu me sentir bem no meu clube, lógico que continuo pensando, mas, hoje, de uma forma muito mais tranqüila também. Tem um novo treinador, o Mano [Menezes], às vezes há também uma certa pressão por renovação. A melhor forma é continuar trabalhando, como eu tenho feito, no meu clube.
Você era um dos líderes do time da Copa e o Brasil fez uma boa campanha até o jogo contra a Holanda. O que você acha que faltou para ir mais longe?
Olha, aquele jogo é até difícil de explicar. Foi um jogo que aconteceu de tudo. Foi desatenção nossa, tomamos dois gols muito rápidos. Ficou uma dor muito grande.
Como você tem visto essa Seleção nova com o Mano Menezes?
É um treinador experiente, vem convocando alguns jogadores com frequência desde o início. Quem está na Seleção tem que suar muito a camisa para manter o seu lugar.
Alguns dirigentes do Flamengo chegaram a te anunciar como reforço. Aconteceu alguma coisa, chegaram a ligar para você, tentaram mesmo te contratar?
Houve contato sim, mas não houve acerto. A notícia saiu quando eu ainda estava aqui no Brasil, nem tinha voltado para a Grécia. Ligaram para mim, mas não chegamos a acertar. Quando cheguei na Grécia, o clube disse que não tinha interesse em me liberar e eu quis ficar.
Falando de Liga dos Campeões, qual a pretensão de vocês? Ainda pensam em se classificar?
Ainda dá para classificar, mas sabemos que é muito difícil. Temos que pensar em um jogo por vez, nós perdemos pontos que devíamos ter conquistado e precisamos buscar esses pontos fora. Ainda temos um jogo contra o Barcelona em casa, que sabemos que é difícil, mas vamos tentar.
Você está com 34 anos e na Europa costuma se valorizar o jogador com experiência. Você acha que teria o mesmo reconhecimento que tem na Europa jogando no Brasil?
É difícil dizer se no Brasil seria mais valorizado. Alguns jogadores tiveram dificuldade com isso, mas há casos de outros que jogaram em alto nível durante muito tempo, como o Mauro Galvão no Vasco, que jogou até quase 40 anos. Se mantiver um bom padrão de jogo, é possível sim.