Gil Vicente: O teatro e o galo

Gil Vicente foi um dos maiores teatrólogos de todos os tempos, Autor de ´´Auto da Barca do Inferno´´ (1517), entre outras obras. Suas peças são encenadas até hoje em palcos espalhados mundo afora e no Brasil.

O mais curioso é que em Portugal, terra natal do famoso autor, há um time que foi buscar no dramaturgo a inspiração para seu nome. Mas, se Gil Vicente é um dos grandes da literatura portuguesa, o time homônimo está longe de figurar entre os grandes do futebol do país.

O Gil Vicente FC hoje luta para não cair da primeira divisão do futebol português. Ele é um clube modesto, que nunca obteve êxitos triunfantes, mas que revelou ao mundo grandes jogadores. Atualmente, com o apoio da torcida de sua pequena cidade, luta para se manter entre os grandes lusitanos.

O primeiro ato da história do clube é 1924, quando um grupo de amigos da cidade de Barcelos, pertencente ao distrito de Braga, junto ao rio Cávado, em Portugal, decidiu fundar um clube de futebol.

Os jovens se reuniam todas as tarde no Largo do Teatro da cidade. Como inspiração para o nome da equipe, nada mais justo do que o próprio nome do teatro: Gil Vicente. Outros clubes surgiram anteriormente na cidade, porém nenhum resistiu ao longo dos anos. Com isso, Barcelos recebia um novo clube: Gil Vicente Foot-ball Barcelense.

Mas, antes de iniciarmos o segundo ato, é preciso inserir um interlúdio na narrativa, uma história tradicional de Barcelos, que será importante no futuro da equipe.

Galo de Barcelos

Há muitos anos, um peregrino galego passou em Portugal a caminho de Santiago de Compostela para pagar uma promessa e hospedou-se numa pequena pousada. Como levava um grande farnel e fazia pouca despesa, o hospedeiro, que era muito ganancioso, entregou o honrado peregrino à policia acusando-o de roubo.

O pobre chefe de família, sem ter ninguém para defendê-lo, foi condenado à morte por enforcamento. Como última vontade, pediu que o levassem até ao juiz que o tinha condenado. Quando ele chegou à casa do juiz, este estava com amigos num grande banquete. O peregrino voltou a afirmar sua inocência, e mais uma vez ninguém acreditou nele. Já desesperado, reparou num galo assado que estava numa travessa em cima da mesa, pronto a ser comido, e disse: ´´É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem´´. Todos riram da afirmação do homem, mas resolveram não comer o galo.

Quando chegou a hora do enforcamento, o galo assado, como num milagre, levantou e cantou. O juiz correu até o sítio onde o peregrino estava prestes a ser enforcado e mandou soltá-lo imediatamente.

Atualmente, o Galo de Barcelos, de barro colorido, é conhecido no mundo todo e é um dos símbolos portugueses.

História em seis atos

O segundo ato começa com as dificuldades impostas aos fundadores do clube. Os problemas em encontrar um ´relvado´ adequado para a prática do futebol eram enormes, a equipe era obrigada a jogar no emprestado Campo da Estação, que pertencia ao Triunfo Sport Club. Depois, passou a jogar no Campo da Granja, que antes pertencera a outra equipe extinta de Barcelos, o União Foot-ball Club.

Posteriormente, o estádio, com capacidade para 5 mil pessoas, teve seu nome mudado para Adelino Ribeiro Novo, nome escolhido em homenagem a um ex-atleta do clube, que faleceu após um choque em campo, num jogo realizado em 16 de setembro de 1946.

Um entreatos foi a escolha das cores da equipe: inicialmente o vermelho foi o escolhido, mas ao longo dos anos seguiu o verde e branco de riscas horizontais, o amarelo e vermelho, em sintonia com as cores da cidade e depois o azul. Para então, finalmente, o time optar pelo vermelho e azul.

O terceiro ato dessa história narra os anos subseqüentes, sombrios, de poucas glórias e muitas histórias. Durante certo período, os gilistas, como são conhecidos os torcedores e jogadores do Gil Vicente, foram comandados por sacerdotes.

Os anos se passavam e nem com a ´ajuda divina´ o clube conseguia se erguer. Foram décadas nos escalões secundários.

Finalmente, o quarto ato resgata a alegria dos gilistas. Em 1990, o Gil Vicente subiu para a primeira divisão do futebol português, sob o comando do heróico treinador Rodolfo Reis. Com atuações sempre medianas, nunca ocupando postos altos na tabela de classificação, os gilistas permanecem na elite portuguesa até 1997, quando novamente a equipe foi rebaixada.

Porém, os anos de tristeza foram poucos e, novamente, em 1999, o Gil Vicente retornou à primeira divisão, dessa vez com o técnico Álvaro Magalhães, e conquistou o primeiro título profissional da história do clube: campeão da divisão de honra, a segunda divisão portuguesa. na temporada 1998/9.

O quinto ato registra a história recente do Gil Vicente, com atores famosos, dos quais muitos também atuaram no quarto ato, como Paulo Alves (que depois se transferiria para o Sporting), Nuno Capucho (ídolo no Porto, que começou nas categorias de base gilistas) e Drulovic (que também foi ser ídolo no Porto), além de treinadores do porte de Antônio Oliveira, ex-treinador do Porto e da seleção portuguesa.

Até mesmo um novo palco foi inaugurado. O antigo Estádio Adelino Ribeiro Novo foi substituído por um mais moderno, construído pela prefeitura de Barcelos. No dia 30 de maio de 2004, o Gil Vicente enfrentou e perdeu para o Nacional de Montevidéu, por 2 a 1, e inaugurou oficialmente o Estádio Cidade de Barcelos, com capacidade para até 12.504 torcedores. Porém, como em qualquer tragédia, o último ato guarda os piores acontecimentos.

O que vamos classificar agora de sexto e último ato, e que ainda está em andamento, pode terminar em tragédia para o Gil Vicente. A equipe, que conta no atual elenco com cinco jogadores brasileiros, luta para fugir do rebaixamento nesta temporada, após cinco anos de sobrevivência na primeira divisão. E espera, assim como na principal lenda da cidade, ser salva da forca, ou seja, que o Galo de Barcelos cante mais uma vez.

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