Ghiggia: O homem que fez o Brasil chorar

O futebol uruguaio está carente de grandes conquistas e de ídolos. Há muito tempo clubes e principalmente a seleção nacional não conquistam títulos de expressão. Em copas do mundo a última grande campanha da Celeste foi o quarto lugar no mundial do México 1970. Mas todo o país se recorda do Maracanazo de 1950 e um cidadão uruguaio em especial: Alcides Ghiggia.

Ghiggia nasceu em Montevidéu em 1926 e começou a carreira no Sud América, teve uma breve passagem pelo Atlanta de Buenos Aires e depois se transferiu para o Peñarol em 1948 onde viveu sua melhor fase e jogou até 1952. Sempre atuando como ponta-direita Ghiggia demonstrava muita velocidade. Esse momento especial o levou a seleção uruguaia para o mundial de 50. O curioso é o fato de Ghiggia ter feito apenas 12 jogos pela Celeste e anotado quatro gols, todos na copa.

Neste período conquistou dois títulos nacionais (49 e 51). Em 1953 se transferiu para a Roma onde ficou até 1960. Também jogou no Milan nos anos de 60 a 62 onde conquistou um ‘scudetto’. Quando esteve morando na Itália, Ghiggia obteve a cidadania italiana, isso deu a oportunidade de defender a ‘Azzurra’ nas eliminatórias da copa de 1958 (a FIFA permitia). Retornou ao Uruguai em 1963 para jogar pelo Danúbio e também no Sud América onde encerrou a carreira aos 42 anos.

Uma tragédia anunciada

Até a data da final, o Uruguai havia vencido a Bolívia por 8 a 0 em Belo Horizonte e Ghiggia marcara o último gol do massacre. Pela fase final do mundial, em jogos no estádio do Pacaembu, a ‘Celeste’ enfrentaria a Espanha e a Suécia. Contra a ‘Fúria’ espanhola o ataque uruguaio comandado por Julio Perez, Miguez, Schiaffino e Ghiggia já demonstrara a força das jogadas pelo lado direito.

No empate por 2 a 2 com a Espanha, o primeiro gol do Uruguai e o primeiro da partida saiu após Ghiggia recuar ao meio campo atraindo o seu marcador. Assim Julio Perez se aproximava com a bola e lançava em profundidade para Ghiggia que entrava em velocidade e chutava cruzado. Esses dois jogadores foram apelidados pela imprensa uruguaia de “o arco”, no caso Julio Perez, e “a flecha”, que era Ghiggia.

A vitória sobre a Suécia por 3 a 2 mais uma vez indicou os riscos que o Brasil ignorava. Ghiggia, que vivia a melhor fase da carreira, anotou o gol de empate aos 39 minutos do primeiro tempo, mas a Suécia terminaria em vantagem esta etapa ao fazer 2 a 1 no final. Na volta a seleção escandinava cansou e os lançamentos pela direita do ataque uruguaio foram favorecidos. A ‘Celeste ‘virou com dois gols de Miguez aos 32 e 39 minutos. Porém a imprensa paulista deixara um alerta que Ghiggia era muito perigoso se deixassem espaço a ele na direita.

A seleção brasileira havia feito três amistosos com a ‘Celeste’ em maio de 1950. Foram duas vitórias apertadas por 3 a 2, em 14 de maio, e 1 a 0 três dias depois, jogando em São Januário e uma derrota no dia seis no Pacaembu por 4 a 3. Nem mesmo esse retrospecto apertado alertou o Brasil.

16 de julho de 1950, o Maracanazo

O clima de euforia antes da decisão entre Brasil e Uruguai impediu a torcida brasileira e principalmente aos jogadores brasileiros de enxergar uma possível derrota. A imprensa daquela época estampara em suas manchetes que o Brasil era campeão do mundo e não tinham a preocupação em menosprezar o adversário.

Toda essa empolgação levou entre 200 a 220 mil pessoas ao Maracanã, pois os portões foram derrubados. O Brasil jogou de uniforme todo branco e poderia empatar para ser o campeão, no início do segundo tempo Friaça abriu o marcador. A festa estava pronta, mas a Celeste continuou fazendo o que tinha de melhor: os avanços pela direita.

Aos 21 minutos Ghiggia recebe a bola na intermediária brasileira, após o passe de Obdúlio Varela, e avança sobre o defensor brasileiro Bigode, o mesmo tenta um carrinho e não atinge o adversário. Ghiggia chega à linha de fundo e cruza rasteiro para Schiaffino empatar o jogo.

Faltando 11 minutos para o apito final Ghiggia troca passes com Julio Perez pelo lado direito e recebe a bola nas costas de Bigode, o goleiro brasileiro Barbosa se adianta prevendo um novo cruzamento para Schiaffino que entrava pelo meio, porém desta vez Ghiggia chutou direto e a bola passou entre Barbosa e a trave. Gol do Uruguai.

A partir daquele momento o Brasil não se encontrou e bastou a Celeste gastar o tempo para comemorar o bicampeonato mundial. Este foi o último jogo de Ghiggia pela seleção nacional e também foi o momento em que todo o país chorou a derrota mais sentida até hoje.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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