Futebol Automático
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Local: São Paulo
Data: 13 de agosto de 2010
Dia da semana: sexta-feira
– O professor recomendou cama pra todo mundo, e bem cedo. É bom atendê-lo, vocês sabem, é paizão, mas sabe ser patrão também – recomendava o preparador físico, ocultando, no conselho, a sua própria gana de que todos caíssem no sono o quanto antes, a fim de preservar energias. – Amanhã, o jogo é muito sério, vale taça! Imagino que todos vão querer estar bem despertos, não é? – o argumento final parecia ter convencido a moçada. Julinho, garoto de 19 anos, promessa latente e jóia em pleno processo de lapidação, sentia-se com energia de sobra para se entregar a mais algumas horas no salão de jogos.
– Eu não estou com sono, sei que posso render muito amanhã, mesmo dormindo mais tarde… – com voz quase infantil, ele era o único que tentava convencer o especialista da forma física do contrário.
– Julinho – o preparador entrou no quarto e sentou-se ao lado da jovem revelação. – Você sabe que ele espera muito de você, e que acha que o seu grande jogo será amanhã. Você vai ter muito tempo para golear no Playstation, reserve um pouco das suas forças, que na sua idade eu sei que são muitas, e as concentre todas para amanhã. Você vai ganhar quantos videogames quiser depois disso, pode apostar! – um tanto a contragosto, mas com a mente domada, Julinho virou de lado e fez pose de sonolento. Ajeitou-se na cama e, sem mais a fazer por ali, o preparador retirou-se de cena, desligando a luz e fechando a porta.
Julinho abriu os olhos lentamente. A primeira sensação que veio a sua mente: relaxamento total. Sentia-se, de fato, novo em folha, pronto para qualquer zagueiro imprudente, violento ou brucutu. Seria, realmente, o seu dia aquele. Terminou de levantar as pálpebras. E daí, seus problemas começaram.
– Onde é que eu estou? – ele murmurou para si, vendo um ambiente completamente estranho às suas últimas lembranças. Visualizava uma cápsula transparente, e ao seu redor, uma espécie de fina fumaça, um tanto gelada. Esfregou os olhos, fechou-os novamente e os reabriu, imaginando estar num sonho ou, até mesmo, ter sido acometido de alguma ilusão de ótica qualquer. O que ele viu foi o mesmo que enxergara segundos antes. – O que é isso, quem me colocou aqui? – o seu tom de voz foi ganhando em potência e revolta. E das palavras, partiu para os atos: começou a esmurrar a abóboda cristalina que recobria o seu leito, ouvindo a sua voz ecoar naquele espaço pequeno onde se encontrava – uma cama ovalada coberta, de um estofado macio, envolvente, mas de cores metalizadas, de um aspecto espacial.
Do lado de fora, dois seguranças conversavam animadamente sobre a partida do dia anterior. O café esfumaçando das grandes xícaras que portavam por entre os dedos preenchia qualquer outro foco de atenção de ambos.
– Você viu como a cada dia eles estão melhores? Viu que golaço, viu de onde ele chutou?
– Como é que eles conseguem, não é? Ser tão perfeitos assim… – entre uma frase e outra, gritos abafados e barulho de batidas despertaram-nos para a vida real. O da esquerda detectou primeiro.
– Ei, olhe ali! – ele apontou em direção à cama enclausurada. O segundo reagiu de forma ainda mais inusitada: em pleno gole do aromático café, cuspiu-o de uma só vez, e numa bocarra desmedida, berrou:
– O morto-vivo! Ele acordou! Ele não é morto, ele é vivo! – levantou-se, elétrico, e agrediu o alarme, peça que nunca havia sido acionada, e que ninguém jamais havia cogitado recorrer. Flashes vermelhos coloriram o muito prata e azul metálico que pintavam a sala repleta de aparelhos, e em segundos, homens altos em aventais muito claros surgiram, como num truque ilusionista. O vigia mais sereno somente indicou com o dedo.
Os senhores altos voltaram-se para a atração principal, desperta, reclamando a plenos pulmões o direito de se ver livre daquela bolha.
– Abra-o – ordenou um dos trajados de branco. Imediatamente, a tampa transparente do leito oval levantou-se, liberando um jovem irritado e, ao mesmo tempo, assustado.
– O que é isso, onde é que eu estou? Quem me trouxe aqui?
– Nós fazemos as perguntas por aqui, mas obterá suas respostas. Venha conosco – com paciência, mas firmeza, outro do grupo dos quatro homens altos convocou Julinho, o qual, sem mais alternativas, preferiu não contrariar ninguém. Qualquer coisa seria melhor do que aquilo.
Com a guarda do quarteto trajado de avental, Julinho atravessou um corredor longo e frio, adornado por todos os lados por caixas metálicas dotadas de inúmeras luzes, num predomínio mortal de azul cobalto. Entrou numa sala ampla, onde ninguém os aguardava. Sem som, um dos guias indicou uma poltrona para que Julinho se acomodasse, e como se conhecesse de cor o ritual, ele obedeceu novamente.
– Parece que você atravessou uma longa jornada, rapaz – um deles comentou, saindo daquele protocolo impassível e gelado.
– Como assim? – Julinho não entendeu. – A minha grande jornada é hoje, tenho o maior compromisso da minha vida!
– Compromisso? Que tipo de tarefa seria? O que você teria de tão importante assim hoje? – ele frisou bem a palavra final da sua interrogativa.
– Ora, como o quê? O jogo, todo mundo sabe disso!
– Jogo? Que tipo de jogo? Você joga o quê?
– Ora, o que mais? Futebol! – inocentemente, Julinho exibia cara de incredulidade, um sentimento mais do que verdadeiro na sua situação. Mas, a seqüência seguinte seria trágica para ele. Os quatro sérios homens, metidos naquele avental tão alvo que quase cegava, de estatura tão elevada que causavam a impressão de serem ainda mais introvertidos do que o normal, adotaram a reação mais esdrúxula possível aos olhos do jovem boleiro. Desataram a rir como crianças brincando. Rir não: gargalhar, lágrimas corriam dos olhos, como se respirassem gás lacrimogênio.
– O que é tão engraçado? Do que estão rindo? – Julinho gritava, inconformado.
– Diga, diga de novo, o que você faz mesmo? – um deles pediu, dentre urros de comicidade.
– Ué, sou jogador de futebol! E daí – as palavras aumentaram ainda mais o coro de risadas. Subitamente, talvez atraídos pelo barulho ensurdecedor dos risos, dois homens enfiados num sobretudo negro, que cobria claramente alguma roupa do mesmo branco dos demais, adentraram a ampla sala, imersa na penumbra devido às cortinas cerradas quase em sua totalidade.
– Qual é o motivo de tanta graça aqui? – com ares de chefe, um dos recém-chegados questionou.
– Fala pra ele o que você disse que faz – um dos quatro gigantes de avental solicitou, com dificuldade, por não controlar a gargalhada. Julinho, encolhido, soltou a frase que tanto instigava os outros, num muxoxo débil, tímido.
– Sou jogador de futebol – a oração saiu num sussurro, quase para não ser ouvido.
– Cada vez fica melhor – o que mais ria comentou, gargalhando ainda mais. E daí, mais dois se renderam às risadas histéricas, incontroláveis, desta vez, sem o caráter de surpresa para Julinho. Enfadado, ele decidiu dar um basta:
– Por que é engraçado eu ser jogador de futebol? – ele berrou, irritado. As risadas não cessaram, de imediato, mas começaram a diminuir.
– Porque os homens não jogam futebol, ora essa! – contendo o riso, um dos de sobretudo respondeu prontamente.
– Ora, e quem joga então? Não vai me dizer que são só as mulheres… elas também jogam, mas tudo começou conosco!
– Não me faça acreditar em mais absurdos, por favor! – o outro de sobretudo pediu. – Não precisamos de mais motivos para rir por aqui.
– Que lugar é esse? Como ninguém joga futebol por aqui, eu fui seqüestrado para algum país que não conhece futebol? Aqui não é o Brasil?
– Claro que é o Brasil, como não poderia ser? Brasil, o país do futebol! Temos as melhores máquinas para esse esporte, como sempre!
– Máquinas? – Julinho ficou apreensivo. – Acho que vocês querem me pregar uma peça. Olhem, eu preciso ir embora, eu tenho um jogo hoje, meu técnico vai me matar…
– Garoto, em que mundo pensa que está? Jogador de futebol, seu técnico, jogo… Pelo jeito, o seu sono exagerado afetou bastante a sua cabeça…
– Sono exagerado? – ele se lembrou das palavras do preparador físico antes de se render aos prazeres da cama na noite anterior. – Bem que eu disse que eu poderia ter ido ao salão de jogos… Mas, enfim, eu quero sair, estão me esperando…
– Sair para onde, para lá? – num grito, e num arranque, o interlocutor mais falante de sobretudo abriu de vez a cortina, clareando o ambiente de supetão, revelando a paisagem do lado de fora de uma autêntica vidraça panorâmica. O que Julinho viu deixou-o assombrado de espanto.
– O que… o que é isso?
– Pelo jeito, você não acordou totalmente. Não percebe que passou tempo demais dormindo? – Julinho começou a dar conta do que realmente se passava.
Local: São Paulo
Data: 31 de outubro de 2228
Dia da semana: quarta-feira
– Como eu vim parar em 2228? – ele olhava abismado para a inacabável janela que o separava do mundo que ele nunca sonhara em ver. Do lado de fora, prédios metálicos enormes, vias suspensas e veículos em trânsito hipnótico por entre os prédios.
– Você teve um distúrbio de sono. Não sabemos desde quando você foi mantido naquela câmera de criogenia leve, mas ali você permaneceu desde…
– 2010! 13 de agosto de 2010!
– Puxa, mais de duzentos anos dormindo!
– E agora, o que eu faço aqui? Eu só sei jogar futebol – as risadas reapareceram, desta vez, mais contidas.
– Se você quiser dividir o gramado com os robôs… – um deles sugeriu, maliciosamente.
– Como assim?
– Homens não jogam futebol! Seres humanos não jogam futebol, robôs jogam futebol! Essa é a regra, norma básica. Sempre foi assim…
– Sempre uma ova, eu jogo futebol, sou prova viva disso! Não é possível que vocês não tenham nenhuma prova concreta disso…
– Você deve ter sofrido algum comprometimento mental durante o seu sono hipertrofiado… Agora, se você gosta tanto de futebol assim, nós vamos levá-lo para assistir a uma partida. Logo, você concluirá que temos razão, ao ver os melhores robôs do mundo gastando a bola. E vai tirar essa idéia inconcebível da cabeça. Acompanhe-nos, por gentileza.
A comitiva seguiu por um dos reluzentes veículos alados a uma arena de futebol. Uma mudança da água para o vinho em relação às últimas horas de Julinho: enfim, num ambiente familiar a si próprio, num estádio de futebol. E, mesmo séculos à frente, ele reconheceu o mesmo clima, a mesma paixão e envolvimento das pessoas. E, desta vez, não estaria lá embaixo, onde a bola rola, e sim contemplando o espetáculo.
Dali a alguns minutos, o inusitado aos olhos da revelação do passado desfilou em sua frente, ao vivo e em cores: robôs uniformizados, perfeitamente perfilados, entraram pelo campo com seus andares característicos, maquinais. Julinho procurou a massa: todos vibravam como se cada um deles estivesse no lugar de uma geringonça daquelas.
– Isso só pode ser um sonho…
– Sonho é o que você deve ter tido no seu sono anormal – comentou um dos acompanhantes de Julinho naquela jornada. – Homens jogando futebol… é cada uma que a gente escuta…
– O meu passado não pode ter sido um delírio… O que eu vivi até agora então foi uma miragem, uma enganação?
Alheio às questões retóricas do jogador, o público, inclusive os seis guarda-costas do recém-despertado, tinha os olhos voltados somente para o campo. O árbitro daria o apito inicial da partida. E, num passe de mágica, os desengonçados robôs ganharam em destreza e habilidade, correndo como homens, conduzindo a bola como atletas experientes, de carne e osso. Foi aí que o Julinho deu-se conta de um pequeno detalhe:
– Onde estão os gols?
– Ué, onde sempre estiveram, nas pontas do campo – um acompanhante apontou duas traves minúsculas, invisíveis a olho nu. Julinho arrancou o binóculo de um dos seus protetores e pôde enxergar o que a sua mente negava-se a admitir.
– Mas isso aí é a conta de passar uma única bola, sem mais nada junto, nem uma bolinha de gude!
– Naturalmente, se os robôs hoje são tão aperfeiçoados, eles não
poderiam ter um gol muito grande ao dispor deles. Ficaria tudo muito fácil!
– Cadê os goleiros?
– Goleiro? O que é isso? – um deles perguntou. Julinho encarou-o de forma pasma, atônita. Suprimiu muitas palavras de sua explicação. O suficiente para compreender. A resposta, outra ofensa. – Para quê alguém assim, com um gol desse tamanho? Os onze jogam com os pés, não podem entrar na área para defender o gol – ele apontou as demarcações. Julinho reconheceu o espaço que protegia o minigol, algo semelhante à metade de uma grande área convencional.
– O que foi que fizeram com o futebol?
– Aprecie o espetáculo, o jogo está fervendo! – empolgados, os protetores de Julinho tentavam chamar a sua atenção. De fato, o placar já indicava empate em dois gols, com pouco mais de dez minutos de jogo. Segundo eles, gols ali não faltariam, os placares saíam recheados com vinte, até mesmo mais de trinta tentos por partida.
Julinho olhava o gramado estarrecido. Robôs ordenadamente distribuídos em campo, numa disposição tática que causaria inveja a qualquer atleta do seu tempo. Todos faziam estritamente o seu papel dentro do esquema, sem desviar daquilo para o quê fora programado. Dribles rareavam, inexistiam: trocavam passes perfeitos de primeira, e as conclusões jamais eram bisonhas, sempre próximas à minúscula trave ou dentro da meta. E, coroando o show de horrores para as vistas do já estarrecido jovem boleiro, os dois únicos seres humanos que ficavam à grama eram… aquilo que seria o técnico em 2010, à beira do gramado, mas com uma espécie de minicomputador na mão… Não, era ele quem comandava os robôs dali? A confirmação veio instantaneamente, da boca de um dos vigilantes de Julinho: a programação dos robôs era mantida e revista por ali.
Julinho deixou o estádio chorando, após uma igualdade de 16 a 16. Qualquer um ali creditaria as lágrimas à emoção do grande show exibido. Mas, o jovem atleta órfão do seu esporte chorava exatamente pelo fim do futebol que ele conhecia.
De volta ao prédio onde passou séculos ressonando, ele não conseguia conter a sua ira:
– Vocês são uns monstros! Mecanizaram o futebol, destruíram toda a beleza do maior esporte do mundo!
– Você ainda insiste nessa idéia? – um integrante da dupla de roupa preta já começava a dar sinais de impaciência com a recorrência do assunto e a insistência.
– Você tem uma bola aí? Vou provar de uma vez por todas o que eu e muita gente pode e sabe fazer – decidido, Julinho exigiu uma bola ali mesmo, na sala. O que não tardou a surgir: a redonda apareceu do nada, quicando em progressão, parando, manhosa, nos pés de Julinho, num domínio perfeito.
– Boa matada – alguém comentou. Julinho começou a fazer embaixadinhas, malabarismos com a pelota. Evoluções que arrancavam suspiros e sons extasiados da pequena platéia. Ao fim, aplausos.
– Acreditam agora?
– Você poderia se vestir de robô e jogar com eles… Mas, duvido que conseguisse ser melhor do que qualquer um deles… – o que parecia ser o chefe de todos ali, o mais falante dentre os de sobretudo escuro, sugeriu. – Mostrar que sabe imitar bem um robô não significa que o homem pode jogar futebol, ou pior, não prova que em algum dia, um ser humano entrou no campo pisando pelo gramado!
Julinho desanimou. Sentou-se no chão e, olhando sem focalizar nada em especial, mergulhou nos seus pensamentos desordenados. Sentia-se triste, deslocado e desnorteado.
– Os homens são imperfeitos, jamais conseguiriam proporcionar um espetáculo tão brilhante e vibrante como as nossas máquinas produzem
– Julinho pouco ouvia o que lhe era dito a partir daquele instante. Ele, que tanto adorava as máquinas de 2010, aquelas que povoavam uma tela de televisão, oriundas de uma caixa fina e retangular, jamais poderia imaginar que um dia sentiria raiva delas. Os bonecos de videogame, de diversão e passatempo, subitamente, ganharam ares de vilões e monstros, desvirtuando o esporte que ele tanto amava e, ainda de quebra, rebaixando à segunda linha o seu único talento capaz de prover sustento à sua vida.
– Você não deve pensar mais nisso, já que acordou, viverá em 2228, sob nossas regras sociais. Aqui, por mais que consiga se aproximar um pouco da destreza de um robô-jogador de futebol, não poderá ser igual a um deles jamais. Terá que conseguir outra coisa para viver – sentenciou outro deles, sem qualquer piedade.
– Talvez, por você gostar e conhecer tanto o futebol, poderia tornar-se um técnico-programador… Não seria incrível? Pouca gente tem essa oportunidade, e pode acreditar, muitos adorariam estar no seu lugar…
– Eu sou jogador, sempre serei jogador! Pelo menos, até quando eu mantiver forças para continuar em alto nível, é no gramado que eu vou estar!
– Se não abandonar essa idéia ridícula e tentar adequar-se ao mundo em que está, nós seremos obrigados a aplicar todas as penalidades cabíveis ao seu caso, garoto. Reveja a sua postura, ou vamos tomar nossas providências! – agora, o tom de voz saiu ameaçador, sem brechas para alternativas. Mas, Julinho estava irredutível, encontrando a saída onde não havia. Ou, pelo menos, tentando forçar alguma porta para localizar uma:
– Façam o que quiser comigo, morrerei sendo jogador de futebol, quer vocês e os robôs queiram, quer não!
Não foi necessário uma palavra sequer a mais. Imediatamente, Julinho foi conduzido, a passos rápidos, a uma outra sala, semelhante a um júri, instantaneamente ocupada por jurados e um juiz. Ele estaria sob julgamento. Infringira alguma lei, provavelmente, algo relacionado a normas de conduta social daquele tempo.
– O senhor está sendo julgado por comportamento inadequado às regras éticas, morais e legais. Recusa-se à adequação social convencional, ao que todos os cidadãos atuais estão submetidos, e do que o senhor não seria exceção. Procedam com a varredura sensorial-cerebral de rotina no réu, para prosseguimento posterior do julgamento – ordenou o juiz, sem pausa para questionamentos ou desperdício de tempo.
Um capacete prontamente foi arranjado, e adornado na mesma hora à cabeça de Julinho. Não havia fios, somente uma estrutura redonda em metal, com algumas reentrâncias e luzes pequenas. Um grande telão transparente, muito fino, surgiu nas imediações do juiz, denotando que haveria reprodução de imagens. Mais, quais seriam elas?
Tão logo as luzes do capacete inserido em Julinho puseram-se a piscar, imagens passaram a ocupar a tela transparente da sala de julgamentos.
E, para a surpresa do jogador, ele reconheceu uma a uma cada passagem: eram as suas lembranças, expostas a todos, num processo qualquer de captação das suas memórias, possibilitado pelo capacete.
Esperançoso, Julinho concentrou-se nas lembranças da sua rotina como boleiro: os treinos, as viagens, e principalmente, os jogos, os grandes estádios, a presença calorosa da torcida. Tais imagens tomaram conta da tela, espantando a platéia presente, arrancando interjeições de surpresa e muito falatório.
– Eu não acredito, ele jogava futebol mesmo! – o homem que designou o julgamento a Julinho dobrou-se.
– Os homens jogaram futebol um dia! – o outro senhor de sobretudo estendeu ainda mais a descoberta. Astuto, o magistrado maior sabia o que fazer a partir de então:
– Julgamento suspenso, o encargo de inseri-lo novamente à rotina social fica por conta dos senhores – ele indicou o par de homens de preto, dos quais, finalmente, Julinho havia descoberto um pouco mais: eram responsáveis pelo relacionamento das pessoas naquela cidade.
Mais uma vez, percorreram aquele corredor gelado e mecanizado, e de volta à sala onde tudo ganhara forma, o diálogo, dessa vez, ganhou novo tom:
– Como isso é possível? Homens no gramado, jogando futebol…
– Ora, é muito lógico, os robôs nem sempre existiram… Como vocês não podem ter nenhuma prova concreta disso? Gravações, memórias, relatos das pessoas…
– Uma guerra destruiu praticamente tudo que se conhecia no final do século XXI. O que se conhece daí em diante vem, praticamente, desta época. Os relatos dos poucos sobreviventes, com o tempo, foram se perdendo, pela morte dessas pessoas. E ninguém deu prosseguimento a eles…
– Vocês viram, os homens podem jogar futebol… Aliás, eu posso ensinar a vocês e a qualquer um como fazê-lo. Não preciso de uma ocupação? Poderia bem ser essa.
– Você não compreende, nunca admitiriam algo assim, o homem jamais se equivalerá a um andróide num gramado. Nunca aceitariam trocar a perfeição deles somente pela nossa presença.
Julinho pensou um pouco. Refletiu que, dali, não sairia. Teria que se adaptar a 2228. Mas, faria as suas mudanças, e viver daquilo que escolheu como sua profissão tornara-se uma obsessão. Tentaria tudo nesse sentido até as suas possibilidades se esvaírem. E, diante do impasse, uma idéia louca, ousada, arriscada, brotou nas profundezas da sua mente. Sempre pensou algo assim, enquanto dava seus shows no videogame. Como seria um duelo entre aqueles bonecos da tela e os seus correlatos reais, de carne e osso?
– Vou provar que somos melhores. Vamos marcar um jogo entre um time de robôs e um de homens. Será uma atração! Espalhem a notícia para todo mundo, selecionem onze homens em boa condição física, eu me encarrego de treiná-los.
– Você é corajoso, jovem, sabe que se falhar, será eternamente lembrado por isso… Nossa sociedade, mais do que repelir, condena fracassados…
– Julinho deu de ombros, estava confiante. Mas, na verdade, temia pelo que viu no estádio. Aqueles robôs fizeram trinta e dois gols em quadros milimétricos de trave, e sem entrar na área! Como bater tamanha eficiência e precisão? Isso, realmente, ele desconhecia até então.
No dia seguinte, Julinho recebeu os onze jovens que solicitara. Meninos, como ele, uns poucos anos mais velhos, alguns um tanto mais novos. E, começou os trabalhos imediatamente. O grande jogo, o acontecimento do século, havia sido agendado para dali a um mês. Teria trinta dias para transformar leigos da prática da bola em profissionais capazes de passar por aqueles robôs gélidos e implacáveis.
Julinho esforçou-se, no início, em conceitos de postura tática e posicionamento. Surpreendeu-se com o conhecimento dos seus selecionados, que conheciam muito dessa área. Julinho entendera: os robôs seguiam rígidas normas nesse quesito. E ficava muito fácil distinguir e compreender essa tática aplicada no campo.
Partiu, então, para a porção mais prática: o treinamento com bola. Desajeitados, não tinham domínio, não sabiam passar, não tinham idéia de como finalizar. A intimidade deles com o esporte terminava no limite do observar. Conhecimento da teoria, não da prática.
Julinho passou o mês inteiro investindo na arte de conduzir e progredir com a bola. Ensinou, o quanto pôde, o toque, os diferentes tipos de chute, cabeçadas, e também reservou alguns dias para lecionar drible. Explicou os principais, e ao cabo dos trinta dias, deu-se por satisfeito com o seu trabalho. Havia montado, sim, um time.
Dia do jogo: arena lotada, tomada. Mais do que nunca, o clima de êxtase pairava no ar. A curiosidade materializara-se durante todo aquele mês, e os ingressos esgotaram-se em segundos.
Em campo, os dois times: o robótico e o humano. Julinho escolhera um uniforme em amarelo e azul para o time que dirigiria naquela tarde. Inspirou-se num próprio sonho particular.
E a bola rolou. Julinho sabia que jogaria o futebol praticado pelos robôs, sem os goleiros e com as traves diminutas. Treinou seus comandados sob tais regras. Estes, por sua vez, nervosos, encolheram-se na defesa, e não seguraram um início avassalador das máquinas. Três gols em cinco minutos.
– Saíam de trás, ataquem também, vocês podem! – ele incentivava, vendo uma pressão extraordinária do adversário. Mas, a cada investida, um desarme perfeito de um robô, sem qualquer menção de falta.
– Façam como eles, troquem passes, não carreguem muito a bola – instruía Julinho, aos berros, à beira do gramado. Mas, o grande problema era que os robôs, programados para todas aquelas táticas, sabiam também como coibi-las. E não caíam no próprio jogo que impunham.
O primeiro tempo encerrou-se com uma sacolada de dez gols a zero contra os humanos. Julinho saiu cabisbaixo, sob o som de estridentes vaias. Os jogadores entraram desanimados no vestiário, e com tom inquisidor, enquadraram o seu jovem técnico:
– Como pudemos aceitar algo assim? Uma humilhação em público! O que você tinha na cabeça, como ficaremos agora depois desse vexame?
– Nunca vamos vencê-los! São perfeitos, o que nós tentamos, eles põem em prática, e muito melhor do que nós.
– E agora, cansados, com dez gols contra, seremos presas ainda mais fáceis! – os questionamentos choviam. Julinho trancara-se em si. Sabia que havia uma chave para derrotar aqueles robôs calculistas. Alheio à revolta ao seu redor, rememorou cenas da partida que vira de cima, do estádio, no dia em que acordara novamente para a vida. Ele também havia assistido a alguns outros jogos, para ter noção do que enfrentaria.
Buscava aquele algo mais nas suas lembranças, o diferencial, o que diferenciava o seu time de homens do clube de andróides. E de repente, a luz cortou a sua cabeça, enquanto os seus onze jogadores iniciavam uma debandada do vestiário.
– Esperem, eu tenho a solução! – Julinho sorria, ciente do que descobrira. A mesma observação que os seus discípulos possuíam ajudou-o nesta hora, em que a análise impôs-se como fundamental. – O que os robôs não fazem?
– Ora, como não fazem? São perfeitos, fazem tudo! – um dos atletas reclamou.
– Aí é que você se engana. Estou tentando, há um mês, provar que os robôs não são tão infalíveis assim, e que podemos se melhores do que eles, mesmo porque, somos nós quem o inventamos, nós que demos vida a eles. A criatura não pode ser mais capacitada que o criador.
– E aí, onde somos melhores do que eles?
– Na inventividade. Na ginga. No inesperado. Vocês não driblaram no primeiro tempo. Não saíram do esquema tático, ninguém agiu como elemento surpresa. Jogaram como robôs, com tudo no computador, no script. Não saíram do roteiro, e aí sim, ficou fácil para eles, porque jogaram de acordo com o que eles esperavam. Eu quero que, para este segundo tempo, vocês abusem do drible, e que sempre suba um ou dois da defesa, alternadamente, para auxiliar o ataque. Esses robôs não estão preparados para isso. Verão, no final, como eu tenho razão.
Os jogadores, desconfiados, mas um tanto mais alegres, voltaram para a etapa final de jogo. Tinham a dura missão de reverter dez gols. A estratégia era ousada, mas impensada para eles até então. Mas, fizera sentido em suas mentes: eles viam o futebol como os robôs. Julinho tinha a visão humana. E eles teriam que jogar como homens naquela tarde.
A saída era do time humano. A bola rolou, e automaticamente, os meninos foram para o ataque. Na lateral, no primeiro lance do jogo, um lindo lençol deixou um robô literalmente torto próximo à linha de fundo.
– Lindo chapéu! – alguém gritou da arquibancada. O cruzamento perfeito saiu, e um dos jogadores de defesa dos humanos chegou ao limite da área, totalmente desmarcado, matou no peito e fuzilou de primeira, num sem pulo sensacional.
– Golaço! – a torcida delirava, e em um lance, havia sido conquistada. Passaria a torcer pelos seus: os homens.
A tônica do jogo mudara: a pressão era toda dos meninos de Julinho. Dribles desconcertantes choviam, lances de efeito: bola entre as pernas, meia-lua, elásticos, passes de letra… E as infiltrações de zagueiros, laterais e volantes no ataque deixaram os robôs aturdidos, sem reação. Os meninos chegavam sem nenhum marcador ao limite da área dos gols, e a diferença de dez gols foi caindo vertiginosamente.
Faltavam dois minutos, e o empate havia sido decretado. A torcida cantava feliz, maravilhada com um espetáculo ainda melhor e mais rico.
– Falta você ali dentro de campo – um dos homens de sobretudo surgiu ao lado de Julinho, sem ele perceber.
– Teria que tirar alguém de lá para isso… – ele não escondeu a sua vontade de estar ali.
– Cara, você estava certo, nós podemos! – um dos jogadores veio à lateral, e ofereceu-se para dar o seu lugar a Julinho. De uniforme, ele não pensou duas vezes: adentrou em campo ovacionado pela torcida. E foi ele quem começou o lance na lateral: de calcanhar, rolou de lado e recebeu de volta, na frente, já pelo meio. No domínio, com um toque, deixou o marcador para trás, sentado, após bela finta, e em seguida, uma bola por entre as pernas de um dos robôs, que entortou diante da habilidade que eles, decididamente, não possuíam. Em frente à risca da área, ele e o gol: preparou a chapa do pé esquerdo, e rolou ela mansamente, que ainda tocou caprichosamente em uma das traves, e morreu lá dentro no instante em que o final do jogo era decretado.
11 a 10 para o time humano, delírio completo nas arquibancadas. Os robôs foram sumariamente recolhidos, e uma invasão humana abateu-se na arena. Nunca tanta gente havia pisado em um gramado de uma vez só. Julinho e os seus heróicos comandados foram carregados como vencedores de guerra, e num instante, a volta olímpica foi recriada.
Julinho sentia-se em êxtase, realizado. Provara para o mundo o seu talento, e de quebra, a capacidade do próprio homem de se melhorar e de se adequar a um ambiente adverso. Ele, naquele momento, entrara para a história.
Os rumos do futebol de 2228, a partir dali, estavam traçados. Muitas mudanças ocorreriam a partir de então. E, com certeza, para melhor.