Ficarão na memória
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2009 marca o penúltimo ano da primeira década do século XXI. E, como as outras, esta década teve, entre o sem-número de jogos de futebol que nelas aconteceram, algumas partidas destinadas a serem lembradas por muito tempo. Por vários motivos: a tensão que envolvia o jogo, viradas históricas, resultados impressionantes… enfim, por todas as razões pelas quais partidas de futebol ficam na memória das pessoas, geralmente.
Mas foi uma lista do site Eurosport, elencando os cem maiores jogos de todos os tempos (clique aqui para conferi-la), que deu a motivação definitiva para que a Trivela pensasse em uma iniciativa semelhante. Feitas algumas adequações, chegou-se à forma final: uma relação dos vinte jogos que mais atraíram atenções nesta década. Além disso, a lista incluiria mais partidas envolvendo clubes brasileiros.
E está aí a primeira parte do Top 10 – excepcionalmente transformado em Top 20. Nesta semana, a Trivela divulga os dez últimos jogos, do 20º ao 11º lugar. Sentiu falta das barbadas da lista? Semana que vem, os dez primeiros. E não se esqueça de comentar nossas escolhas!
20) Grêmio 1×1 Corinthians – Campeonato Brasileiro (2007)
São Paulo com o quinto título brasileiro já garantido, a principal atração da Série A de 2007 era a luta corintiana para evitar o rebaixamento à Série B. Luta que, cada vez mais, revelava-se inglória e destinada ao insucesso. Ainda mais após a derrota para o Vasco, em pleno Pacaembu, na penúltima rodada. Mesmo assim, ninguém queria deixar de ver a partida decisiva, contra o Grêmio. Tanto os corintianos, insistindo em se fiar na mais remota esperança, quanto os adversários, sedentos pela queda.
O gol de Jonas, no primeiro minuto de jogo, atordoou os corintianos. Que, no entanto, trataram de arrumar ânimo para empatar, com Clodoaldo. Porém, não se dependia somente do jogo no Olímpico: havia Goiânia. E, lá, num jogo igualmente desgastante no aspecto emocional, o Goiás conseguiu a vitória salvadora sobre o Internacional. O que dilapidou ainda mais o já alquebrado time corintiano. Bem ou mal, ainda que outros clubes grandes já houvessem caído, era fato: nunca um rebaixamento havia sido tão comentado.
19) Espanha 1×0 Alemanha – Final da Eurocopa 2008
“Espanha e Alemanha? Fácil, Alemanha.” Compreensível que esta aposta fosse feita, antes da final da Euro 2008. Afinal de contas, decidiriam o título europeu, em Viena, uma equipe três vezes campeã do torneio, cuja tradição é absolutamente indiscutível, contra uma equipe tida e havida como fraca em instantes decisivos – além de só ter um título de Eurocopa, em 1964.
Os 90 minutos mostraram exatamente o contrário. No início, a zaga espanhola até pareceu temerosa, de fato. Porém, aos poucos, o dinâmico meio-campo da equipe de Luis Aragonés foi se impondo. E o ataque goleador se fez presente, com o gol decisivo de Fernando Torres. No fim, o que se via em campo era exatamente o inverso de todos os clichês: uma Alemanha cansada e derrotada, uma Espanha vibrante e insistente. Daí, a razão deste jogo figurar na lista. Ele ensinou a todos: a Espanha tinha uma geração vencedora, sim, senhor.
18) Bayer Leverkusen 1×2 Real Madrid – Final da Liga dos Campeões (2001/2002)
Poucas pessoas se lembram da abertura do placar daquela decisão de LC, em 15 de maio de 2002, no Hampden Park de Glasgow, com Raúl colocando o Real Madrid na frente, aos oito minutos. E poucos também hão de se lembrar rapidamente do empate do Bayer Leverkusen, com Lúcio, de cabeça, aos 13 minutos.
E é justo que poucos se lembrem desses lances. Pois eles foram importantes, mas não tiveram magia, frieza, beleza. Tudo o que houve naquele lance, no minuto final do primeiro tempo, tantas vezes reprisado. O lançamento alto de Santiago Solari, pela esquerda, a Roberto Carlos. O cruzamento do brasileiro. E, finalmente, o voleio tão inimaginável quanto maravilhoso de Zinedine Zidane, que mandou a bola no ângulo direito de Hans-Jörg Butt.
O Bayer Leverkusen atacou em busca do empate, mas parou no goleiro Cesar – e, depois, num tal Casillas, que provou, com uma defesa milagrosa, ter condições para ser a lenda madridista que hoje é. Mas aquele jogo, aquela Liga dos Campeões, aquele título do Real, pareceram até insignificantes, diante do gol de Zidane.
17) Grêmio 0 x 2 Boca Juniors – Final da Copa Libertadores (2007)
Juan Román Riquelme já havia decepcionado a alguns, na Copa de 2006. Não foi, na seleção da Argentina, o que era no Boca Juniors, durante aquela época: o centro de tudo, o jogador que podia definir qual o ritmo que a partida seguiria, só com a maneira como dominava a bola. Mas Riquelme voltara a ser tudo isso, no Boca Juniors que disputou a Copa Libertadores de 2007. E sempre com o auxílio luxuoso do artilheiro Martín Palermo – cuja calma para finalizar era contrabalançada com a vitalidade de Rodrigo Palacio.
Porém, mesmo com o 3 a 0 sofrido no jogo de ida, a torcida do Grêmio acreditava na virada, no Olímpico – como episódios anteriores haviam ensinado a ela. Mas não adiantaria se apegar a crenças históricas, contra um Riquelme inspiradíssimo. Que fez, nos 2 a 0 que deram o sexto título da Libertadores aos Xeneizes, exatamente o que mais sabia fazer: mudar um jogo, ditar o ritmo de uma partida, somente com seus passes e toques. E ainda foi decisivo no ataque… realmente, o Grêmio não podia com Román.
16) Manchester United 1×1 Chelsea (Manchester 6 a 5 nos pênaltis) – Final da Liga dos Campeões (2007/08)
Um jogo de futebol. Uma luta de boxe. Entre dois boxeadores de carteis bastante respeitáveis – ou melhor, entre dois times reconhecidos como os melhores da Europa, talvez do mundo, à época. E foi exatamente isso que aquele Manchester x Chelsea pareceu: uma luta de boxe onde os dois times jogariam, em 120 minutos, mais a disputa de chutes da marca do pênalti, com toda a volúpia esperada em um ringue, como se estivessem disputando os tais doze assaltos regulamentares.
No primeiro tempo, foi o United que conseguiu dar os golpes mais fortes, até abrindo o placar, com Cristiano Ronaldo. Porém, um lance de sorte permitiu a Lampard empatar o jogo. Daí para a frente – e, pode-se dizer, na maior parte do jogo -, foi o Chelsea que quase fez o adversário de Manchester beijar a lona. Mas não houve decisão, e os pênaltis teriam de definir. Não seriam permitidos chutes errados, golpes errados.
Cristiano Ronaldo errou o dele. O Chelsea venceria? Não, pois Terry errou o golpe decisivo. E, numa batalha chuvosa, cheia de chutes, foram as mãos de Van der Sar, como um pugilista escolado, que socaram a bola. E o Manchester United pôde, enfim, levantar o cinturão, isto é, a taça. Como nos duelos dos velhos tempos: exausto, à beira de um ataque, mas enfim vencedor.
15) França 2×1 Itália – Final da Eurocopa (2000)
Após duas semifinais algo históricas, pela dramaticidade que as envolveu, Itália e França chegavam para definir o campeão europeu de seleções em situações históricas distintas. Os Bleus de Roger Lemerre procuravam o segundo título da Eurocopa, para poderem se afirmar, de fato e de direito, como a melhor seleção do mundo à época. A Azzurra de Dino Zoff, por sua vez, procurava apenas um título de vulto, que já lhe faltava havia 18 anos.
O primeiro tempo da decisão, no De Kuip de Roterdã, foi tão morno quanto o segundo foi palpitante. Primeiro, porque Marco Delvecchio abriu o placar para a Itália – surpreendendo, de certo modo, já que os franceses eram os favoritos. Depois, porque a pressão francesa parava em ótima atuação de Francesco Toldo. E, enfim, porque, quando a equipe de Zidane já parecia ter cansado de tentar, a Itália relaxou. Nos acréscimos. E Sylvain Wiltord marcou, aos 49, o empate esperado.
Na prorrogação, ainda com o “Gol de Ouro”, os italianos já entraram de espírito abalado, pelo título tão próximo, que escapara num lapso de atenção. Foi a hora de a imponência da França se fazer sentir. E, aos 13 minutos do primeiro tempo, Trezeguet marcou o gol que deu o segundo título europeu aos Bleus. O que era uma reação italiana havia se transformado no apogeu sonhado – e merecido – pela França.
14) Cruzeiro 2×2 São Paulo – Campeonato Brasileiro (2006)
18ª rodada do Campeonato Brasileiro, 20 de agosto de 2006. O São Paulo vinha com o espírito ainda machucado, pela perda da Copa Libertadores, havia apenas quatro dias. Tão desalentado estava o time do Morumbi que o Cruzeiro fez 2 a 0, com Francismar e Michael, sem tanta dificuldade assim. Pouco depois, o time mineiro ainda teve um pênalti marcado a seu favor. Wagner iria para a cobrança. Um terceiro gol pareceria o tiro de misericórdia. Até nas esperanças são-paulinas de título nacional.
Mas havia Rogério Ceni. E o capitão são-paulino disse não a todos os pensamentos negativos, defendendo o penal. Mais: aos 42 minutos, cobrando falta, diminuiu a vantagem cruzeirense, e passou Jose Luis Chilavert como o goleiro com mais gols na história do futebol. E mais ainda: no segundo tempo, aos 16 minutos, empatou, cobrando pênalti. O São Paulo havia, definitivamente, recobrado o ânimo para seguir em frente. Porque seu capitão provara a todos: apesar dos pesares, a vida, e o Campeonato Brasileiro, continuavam.
13) Manchester United 4×3 Real Madrid – Quartas de Final da Liga dos Campeões 2002/2003
Não se pode dizer que o jogo em Old Trafford, em 23 de abril de 2003, começou dando a impressão de que teria emoção. Afinal de contas, os Merengues, então defendendo o título, haviam feito 3 a 1 na ida, no Bernabéu. E também abriram o placar na casa do adversário, com Ronaldo, aos 12 minutos.
Entretanto, o que se viu, desde o fim do primeiro tempo, desmentiu a impressão. Começou com Van Nistelrooy empatando o jogo para os Red Devils, aos 43. Nem bem o segundo tempo começou, e Ronaldo já pôs os visitantes de novo na frente, aos cinco minutos. Para, aos sete, Helguera marcar um gol contra. Tudo bem: Ronaldo fez 3 a 2, aos 14.
Precisando ganhar por três gols de diferença, o United foi atrás do que lhe faltava. Foi a hora de aparecer Beckham, que quase fez o milagre, marcando aos 26 e 40 minutos. No entanto, a classificação não veio. Nem precisava tanto, pois um jogo tão cheio de alternâncias ficou marcado por vários simbolismos: as últimas grandes atuações de Beckham, pelo Manchester United, e Ronaldo, pelo Real; o fim de uma fase do trabalho de Alex Ferguson, que fez algumas reformulações; o último jogo em que o Real Madrid da primeira fase dos “Galácticos” fez jus ao apelido…
12) Internacional 2×2 São Paulo – Final da Copa Libertadores (2006)
A torcida do São Paulo já estava livre de qualquer trauma, após o título continental de 2005. E o otimismo era quase palpável para a decisão da Libertadores, em 2006. Porém, o Internacional chegava como uma equipe absolutamente determinada a apagar lembranças amargas anteriores, como a derrota na final de 1980, ou nas semifinais de 1989. E provou isso no jogo de ida, no Morumbi, quando foi aguerrido e frio para fazer 2 a 1.
Com resultado tão categórico, a torcida colorada lotou o Beira-Rio, em 16 de agosto de 2006. E parecia que só veria festa, a julgar pelo gol de Fernandão que abriu o placar. Todavia, o São Paulo empatou, com Fabão. Bastava um gol para levar a decisão do título aos pênaltis. Mas o temor de uma nova tragédia foi apagado quando Tinga recolocou o time de Abel Braga na frente. Para reaparecer, quando Lenílson empatou, já no final do jogo.
No final, Horacio Elizondo apitou, e o Internacional pôde, finalmente, celebrar o seu primeiro título sul-americano. Mas, naquela noite no Beira-Rio, houve tensão, equilíbrio, momentos de maior pressão para um lado e para outro… enfim, uma decisão de Libertadores como se espera.
11) São Paulo 1 x 0 Liverpool — Final do Mundial Interclubes (2005)
Caso Internacional x Barcelona, a decisão do Mundial de 2006, estivesse no lugar deste jogo, não seria algo injusto. Afinal de contas, as decisões que voltaram a dar títulos mundiais a clubes brasileiros tiveram um componente em comum: os times tinham boa qualidade, mas acabaram se impondo sobre os poderosos europeus pela raça.
Foi o que se viu em Yokohama, naquele 18 de dezembro de 2005. O São Paulo teve eficiência invejável para vencer o Liverpool: bastou um lançamento de Aloísio, um toque colocado de Mineiro para vencer Pepe Reina, e o time de Paulo Autuori estava em vantagem.
Depois, o que se viu foi a abnegação inesgotável para repelir os ataques dos Reds – e a sorte, no caso dos três gols corretamente anulados por impedimento, ou da defesa belíssima de Rogério Ceni, em chute de Gerrard. E a festa. Inesquecível, por marcar novo título mundial de um clube brasileiro. E por sinalizar: a difícil recuperação da auto-estima são-paulina estava completa.