Febre de Bola

‘Febre de Bola’ foi o primeiro romance publicado do escritor inglês Nick Hornby. No fim dos anos 90, Hornby se popularizou dentro da cultura pop não por escrever sobre futebol mas sim por seus escritos ligados a música. Em meio a seus grandes momentos ou best sellers poderíamos citar ‘Alta Fidelidade’ (‘High Fidelity’ de 1995), que fez escola entre escritores iniciantes daquele período. O personagem principal de ‘Alta Fidelidade’ vive uma crise de meia idade e tenta entender seus relacionamentos que deram errado, através das canções que ouviu e dos discos que colecionou durante uma vida toda. O romance deu origem a uma adaptação cinematográfica homônima estrelada por John Cusack e que ainda revelou o comediante Jack Black.

No entanto, Nick Hornby é um bom londrino e como todo cidadão de Londres (na verdade nascido em Maidenhead, nos arredores da cidade) é aficionado por futebol. Hornby é torcedor fanático do Arsenal desde a infância vivida na década de 60, período em que a Inglaterra sediou um mundial e foi campeã no ano de 1966. A base daquele English Team pertencia ao West Ham United, um dos rivais locais do Arsenal. Estilisticamente, ‘Febre de Bola’ não se faz enquanto um romance tradicional onde a história se desdobra linearmente. Assemelha-se mais a uma coletânea de depoimentos, lembrando um diário que se apresenta ao leitor cronologicamente. Nos momentos onde a reflexão de Honrby se faz mais longa o estilo se assemelha ao da crônica, mais tradicional no Brasil de Armando Nogueira e Nelson Rodrigues.

Hornby faz constar datas exatas de partidas realizadas pelo Arsenal bem como os locais onde os jogos foram disputados e os adversários. Mais precisamente tem-se um relato do autor de todos os jogos importantes que o mesmo assistiu desde 1968 até 1992, ano de lançamento do livro. Não apenas relatos a respeito de partidas do Arsenal se fazem presentes. Também constam partidas da Seleção Inglesa, ou qualquer outra partida que tenha representado algum significado mais forte na vida do autor.

Num todo temos aquilo que o football representa para o cidadão urbano inglês nesta contemporaneidade. Aquilo que Hornby sente pelo Arsenal ainda com ouvidos de menino acompanhando os jogos por rádio, bem como suas neuras da juventude eclodem entrecortadas e amalgamadas às situações que ele percebe a respeito de seu time. Nick Hornby tornou-se torcedor do Arsenal e viveu boa parte de sua vida num período em que os gunners não eram exatamente um esquadrão memorável. Há momentos tediosos, como quando Hornby narra as derrotas de seu time em tempos de fase ruim. Entre outros impactantes, como um relato a respeito do terrível incidente ocorrido no jogo entre Liverpool e Juventus pela velha Copa dos Campeões da Europa no ano de 1985. Hooligans ingleses ocasionaram um entrevero na Bélgica (onde aconteceria a final) e a UEFA baniu os clubes ingleses de competições continentais por algum tempo. Hornby testemunhou o apogeu e a queda dos hooligans na velha Inglaterra de Margaret Tatcher.

‘Febre de Bola’ trás momentos típicos de Nick Hornby, como quando ele analisa a não presença de melodias em canções de ‘hip hop, indie guitar pop e thrash metal’ num dia de jogo entre Arsenal e Coventry. Ou quando Nick compara o ‘futebol bom e fluente’ do West Ham e do Tottenham do começo dos anos 80 ao rock progressivo do Emerson Lake and Palmer e do King Crimson. Isto em dia de clássico londrino entre West Ham e Arsenal onde ao final do relato, Nick compara uma falta agressiva cometida por Willie Young dos gunners no jovem Paul Allen dos hammers a um esporro punk dos Sex Pistols. “O Arsenal foi o pioneiro dos verdadeiros roqueiros punks: nossos cabeças-de-área já estavam satisfazendo a necessidade pública de delinquência gestual inofensiva muito antes de Johnny Rotten aparecer”. Aos desavisados, Johnny Rotten é o eterno vocalista dos polêmicos Pistols.

Há momentos impagáveis também como um relato de Hornby a respeito de um amigo que torcia de maneira fanática e desproporcional pelo pequeno Luton. A própria diretoria do clube se incomodava com as criticas frontais do cidadão. Hornby afirma que o jornal Independent chegou a dar destaque a um torcedor ‘falastrão’ dotado de voz de ‘alto-falante’ e que importunava a qualquer outro espectador próximo. Tratava-se do próprio torcedor do Luton a quem o autor se refere como o ‘Rei de Kenilworth Road’.

Assim como Nick Honrby testemunhou a época áurea do hooliganismo, ele também vivenciou o período grandioso do rock inglês entre os anos 70 e 80. Testemunhou também a explosão punk no fim dos anos 70 seguida do pós-punk/gótico que ecoou pelos anos 80. Também observou a extinção do ‘hooliganismo’ já adentrando os anos 90 em que o britpop e o indie rock do Oasis escalaram as tabelas das paradas musicais rumo ao mainstream. O hoje dissolvido Oasis dos brigões irmãos Gallagher torcedores fanáticos do Manchester City. E não eram punks travestidos de torcedores os malditos hooligans?

A tradução brasileira de ‘Febre de Bola’ se faz bem difícil de ser encontrada atualmente. E uma nova edição revisada e ampliada pelo próprio Hornby seria bastante oportuna. Podendo trazer os relatos do autor sobre o título invicto da Premier League conquistado pelo Arsenal em 2002. Sobre o título europeu perdido para o Barcelona em 2006, sobre a despedida do Highbury ou a sobre a despedida de Thierry Henry. E porque não um testemunho de Hornby sobre presenciar a força da natureza chamada Lionel Messi do Barcelona na goleada da última terça, onde agora os blaugrenas tem o Arsenal como ‘freguês’. Nada mais Nick Hornby do que isso, porque as derrotas também fazem parte da vida. Neste mundo onde houver uma bola nos pés de um homem, residirão as maiores histórias. Clássico!

‘Febre de Bola’
De: Nick Hornby
Rocco
1992

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Equipe Trivela

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