Falta futebol a Heleno, um grande filme

Destruído pela sífilis e mentalmente derrotado, à beira da loucura, sem falar com ninguém há meses, o paciente come os restos de sua história. Literalmente. Arranca da parede de seu quarto, no manicômio, jornais que contam sua gloriosa trajetória. Engole as notícias que contam sobre sua vida que não existe mais. O enfermeiro, único amigo que lhe resta, usa da força para que o frugal almoço não se concretize.

O ator é Rodrigo Santoro, espetacular. O personagem é Heleno de Freitas, um dos maiores jogadores brasileiros dos anos 40, com uma carreira de 249 gols em 304 jogos, pelo Botafogo – a grande maioria – Vasco, seleção brasileira e Boca Jrs. É Heleno, mas poderia ser um maestro, um cantor, um pintor, qualquer artista em fim de carreira, em fim de vida, transtornado e derrotado.

Este é o defeito de Heleno, o grande filme de José Henrique Fonseca. Tem pouco futebol. “Isso é normal, porque não fiz um filme sobre futebol. Fiz um filme sobre um personagem e me limitei a cenas de apenas um jogo, chuvoso, tenso, como tantos outros de Heleno”, disse o diretor, em entrevista coletiva após a sessão dedicada à crítica.

Filmado em preto e branco, com atuações muito boas de Rodrigo Santoro, Alinne Morais e a colombiana Angie Cepeda, o filme é triste e denso. O Heleno magérrimo –Santoro emagreceu 12 quilos para as cenas finais – com uma bermuda, chuteiras mal amarradas e que tenta bater um pênalti no jogo entre os loucos do sanatório é antológica. Há outras: quando tenta o suicido fumando dez cigarros de uma só vez, quando, solitário em Buenos Aires, coloca um fósforo entre dois dedos do pé e, deitado na cama, atira para tentar um pouco de luz, quando, ainda antes de se internar, apanha de um garoto de 11 anos na praia e tantas outras.

Vale a pena ver. Valeria mais se houvesse mais futebol. Porque não contar de seu sucesso no sul-americano de 1945?  Ou então, porque não contar da origem do apelido que tanto o atormentava. Foi em 1947, quando a torcida do Fluminense começou a gritar o nome da personagem de Rita Hayworth, no filme Gilda. Nunca houve uma mulher com Gilda, dizia o filme. Houve poucos jogadores como Heleno. Pena que ele apareça tão pouco no belo filme de José Henrique Fonseca.

Heleno, o jogador, foi derrotado por Heleno, o homem. O filme mostras isso. Mas poderia mostra um pouco dos gols do craque também.

Abaixo, o trailer do filme:

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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