Estudiantes: Sucesso no exterior
No dia 19 de julho, o São Paulo derrotou um clube que carrega uma particularidade, poucas vezes repetida na história do futebol. O Estudiantes de La Plata tem mais títulos internacionais do que nacionais. Foram quatro conquistas internacionais e três nacionais, em toda a história. No pênalti perdido por ´Chelo´ Carrusca estava o sonho de uma torcida que não só apoiava a priorização da Libertadores como ignorava as derrotas no campeonato argentino, em detrimento da participação na Copa.
Este clube, que encarnou nas suas linhas o espírito ´copeiro´ largamente designado para descrever os clubes que fazem de suas partidas uma batalha, iniciou suas atividades em 4 de agosto de 1905. Nasceu de uma dissidência do Gimnasia de La Plata, seu arquirrival desde então. Os fundadores eram associados do Gimnasia incomodados com a falta de espaço dado ao futebol nas prioridades do clube, mais interessado em promover atividades sociais e esportes de salão. A perda do campo de futebol do clube foi a gota d´água para os integrantes da equipe do Gimnasia. Tomás Shendden, um egresso da English High School (berço do primeiro grande time de futebol argentino, o Alumni) liderou o movimento de fundação do Club Atlético Estudiantes, assim denominado por conta da atividade básica dos seus vinte fundadores. Adotou as cores da English High School – a malha listada em vermelho e branco, calções e botas pretas.
No ano seguinte o clube se inscreveu na Federação Argentina de Futebol, onde disputou campeonatos até 1931. A ascensão para a Liga Mayor envolveu triunfos sobre River Plate e Independiente nas divisões inferiores. Venceria a Liga em 1913. Três anos depois, um recuperado Gimnasia de La Plata chegaria à primeira divisão, iniciando a disputa do maior clássico da cidade. Ao final da década de 20, o Estudiantes apresenta uma linha atacante mítica, denominada ´Los Profesores´: Lauri, Scopelli, Zozaya, Ferreira e Guaita. Tal formação, porém, não foi campeã.
O profissionalismo
Em 1931, primeiro ano do campeonato profissional, o Estudiantes e sua linha de ataque criaram um recorde histórico: 103 gols em 34 jogos. No final desta década, surge uma dupla de ataque que também escreveu seu nome no futebol argentino: Ricardo Infante, o habilidoso; Manuel Pelegrina, o goleador. Pelegrina é o recordista de gols pelo clube – 234. Infante atuou com a camisa pincharrata por 18 anos. Os anos 50 foi complicado, com a primeira queda à segunda divisão, a volta no ano seguinte e a intervenção no clube por razões extra-desportivas. Não diferente foi o início dos anos 60, com o perigo do descenso e a queda para a segunda divisão em 1963. Beneficiado por uma virada de mesa que suspendeu o descenso por três anos, o Estudiantes ficou na primeira. O clube aproveitou o indulto para investir profundamente nas categorias de base.
Em 1967 o Estudiantes conquistaria o campeonato Metropolitano, dando início a uma sequência de feitos gloriosos. Foi o primeiro clube ´pequeno´ a vencer um torneio oficial na era profissional. Foi vice-campeão no torneio Nacional, conseguindo assim a classificação para a Copa Libertadores de 1968. Neste ano os dois representantes argentinos dividiram o grupo com dois times da Colômbia. O Estudiantes se classificou em primeiro e foi à segunda fase, jogando um triangular contra Independiente e Universitário do Peru. Foi novamente primeiro colocado, indo às semifinais jogar contra o campeão do torneio anterior, Racing. Venceu o Racing no saldo de gols e jogou a final contra o Palmeiras de Valdir, Dudu, Ademir da Guia e Tupãzinho. Venceu por 2×1 em La Plata, perdeu por 3×1 em São Paulo e venceu o jogo desempate em Montevidéu, 2×0, gols de Ribaudo e Verón. O trabalho de Ignomiriello (diretor das categorias de base), Zubeldía (treinador), Kistenmacher (preparador físico) e Mangano (presidente) mostrava sua eficácia.
A hegemonia
Como campeões da América, estavam credenciados para a disputa do mundial contra o campeão europeu, o Manchester United de Matt Busby, Bobby Charlton e George Best. O primeiro jogo foi no caldeirão da Bombonera, com a receptividade que todos os times estrangeiros sempre tiveram na Argentina. O resultado foi 1×0, gol de Conigliaro. Para conquistar o título, porém, era preciso viajar até Manchester e empatar no Old Trafford. Enojados pelo fiasco do argentino Ubaldo Rattín na Copa de 66 (que ao protestar por sua expulsão, amassou uma bandeira britânica), os torcedores ingleses receberam os jogadores argentinos com hostilidade semelhante à vista no jogo de ida. “Animals, animals”, gritaram para os platinos na sua entrada em campo. Aos sete minutos, La Bruja Verón calaria a torcida britânica – uma cabeçada, 1×0. Morgan empataria no último minuto, mas o mundial pertencia ao clube pincharrata.
Outras duas vezes consecutivas o Estudiantes de La Plata seria campeão da Libertadores. Em 1969, num torneio que não teve a participação de brasileiros, foram necessários apenas dois jogos. Na época, o campeão se classificava direto à semifinal: o clube de La Plata derrotou a Universidad Católica e depois o Nacional, do Uruguai, onde jogavam Manga e Ancheta. Cinco meses antes, fora campeão da Copa InterAmericana vencendo o Toluca do México. Em outubro, jogaram o mundial contra o Milan: levaram 3×0 na Itália e tentaram vencer na base da força em La Bombonera. O 2×1 não foi suficiente, o Milan foi campeão e as agressões desmedidas no campo de jogo levaram três dos jogadores – Poletti, Manera e Suárez – para a delegacia.
Em 1970, mais uma vez classificado direto às semifinais, o Estudiantes venceu o River Plate e depois o Peñarol de Figueroa. Só foi preciso um gol – de Togneri, no primeiro jogo – e depois segurar um empate em 0 no Centenário para o tricampeonato. Jogaram a intercontinental contra o Feyenoord, empatando em 2×2 na Bombonera e perdendo por 1×0 no De Kuip, em Roterdã. Em 1971, mais uma vez o Estudiantes chegaria à final, mais uma vez contra o Nacional de Montevidéu. Perderia por 2×0 num jogo desempate em Lima, após vitórias de 1×0 como locais de ambos os times.
Aquele ano encerraria um ciclo de glórias para o Estudiantes. Glórias contestadas por aqueles que consideram o futebol praticado pelos comandados de Osvaldo Zubeldía uma síntese do “anti-futebol”: jogo duro, condicionamentos extra-campo, virilidade. Inegável dizer porém que o Estudiantes conquistou seu espaço baseado numa escola de planejamento e extrema disciplina.
O brilho tímido dos anos 80
Os anos 70 passaram praticamente em branco. A não ser pela semifinal do campeonato argentino em 1977, o Estudiantes não almejou nada além das posições de meio da tabela. Nos anos 80, porém, uma nova geração levaria novamente a La Plata o título argentino.
Por pouco não foi a Libertadores. Segundo colocado no campeonato nacional de 1982 (derrotado pelo Ferro Carril) chegou às semifinais da copa de 1983. Protagonizou uma jornada heróica contra o Grêmio, onde a derrota por 3×1 eliminava o clube na penúltima rodada do triangular. Com sete jogadores em campo e uma torcida inflamada, conseguiu o empate jogando os 45 minutos finais sem quatro jogadores. Os desfalques, porém, foram decisivos na partida seguinte: um empate em zero contra o eliminado América de Cáli eliminou o clube platense. No mesmo ano, um mês antes, o Estudiantes seria campeão argentino pela última vez, vencendo o Independiente nas finais. A geração de Ponce, Brown, Gottardi e Trobbiani, liderada por Carlos Bilardo (campeão como jogador, pelo clube) escrevia seu nome na história.
Nos anos 90, a única jornada que marcou o clube foi o ascenso à primeira divisão em 1995. No torneio Apertura, o clube caiu para a segunda divisão. A promoção foi conquistada com um recorde de pontos ainda não alcançado. O time tinha Juan Sebastián Verón (o filho), Carlos Bossio, José Luís Calderón e Ruben Cápria.
Na atualidade, o clube briga para reformar seu estádio, que ainda conta com arquibancadas de madeira e instalações antiquadas. Voltou às competições internacionais (como a Sul Americana de 2005 e a Libertadores deste ano) depois de boas campanhas no campeonato argentino, lideradas pelos gols de Pavone e Farías. A campanha deste ano trouxe vitórias inesquecíveis, como os 4×3 sobre o Sporting Cristal na primeira fase, e reviveu nos seus torcedores a esperança de viver novamente os tempos de glória. Tempos estes que, segundo o Juan Verón pai na preleção de Old Trafford, não vieram acompanhados de rosas. O pênalti perdido pro Chelo Carrusca, entretanto, adiou o sonho do tetracampeonato. Cabe ao Verón filho resgatar o orgulho ferido.



