Estônia: onde futebol e país se reconstroem juntos

Um país onde o futebol é jogado desde o início do século passado deveria ter ao menos um pouco de tradição no esporte, certo? A resposta é óbvia, mas deve ser dada junto com uma ressalva: sim, desde que este país não tenha sido invadido e reconquistado a independência somente depois de 51 anos.

É o caso da Estônia, nação localizada no nordeste da Europa – ou região dos países bálticos. Com apenas 45,2 mil km² de área territorial e população estimada em 1,3 milhão de habitantes, a Estônia tem sua história entrecortada por duas independências, (uma em 1918 e em 1991), ambas em relação à União Soviética/Rússia.

Nas atuais eliminatórias para a Eurocopa 2012, a Estônia ainda sonha com a classificação para a repescagem. Com campanha bastante irregular, a seleção ocupa o terceiro lugar do grupo C, com 13 pontos ganhos – apenas um a menos que a Sérvia, vice-líder. O problema é que tem apenas mais uma partida a realizar (contra a Irlanda do Norte, fora, dia 7 de outubro), enquanto os sérvios jogam mais duas vezes (recebem a Itália no mesmo dia e vão à Eslovênia em 11 de outubro).

Os estonianos nunca viram sua seleção numa fase final de Euro ou de Copa do Mundo. Por isso, houve empolgação no início das atuais eliminatórias, quando o time dirigido pelo técnico Tarmo Rüütli venceu as Ilhas Faroe por 2 a 1 em casa e a Sérvia, por 3 a 1, fora. Entre os jogos, houve a derrota esperada para a Itália, mesmo jogando em Tallinn (2 a 1).

Mas aí vieram resultados irregulares, que serviram para mostrar que o futebol do país – apesar de estar em franca evolução – ainda precisa se firmar para adquirir confiança e jogar de igual para igual com adversários de porte semelhante. Contra a Eslovênia, por exemplo, a Estônia foi derrotada em seus domínios (1 a 0) e venceu como visitante (2 a 1). Também caiu ante Ilhas Faroe, por 2 a 0, fora de casa, na única vitória do adversário, que está em último lugar na chave – justamente o resultado que pode custar a desclassificação à Estônia.

Mas, apesar da campanha irregular e da possível eliminação, os torcedores já ganharam um motivo histórico para comemorar: a Estônia alcançou sua melhor posição no ranking da Fifa em todos os tempos: 58.º lugar na lista de setembro.

Conhecendo a grama

Assim como ocorreu em inúmeros países, o futebol foi introduzido na Estônia por marinheiros ingleses no início do século XX, antes mesmo da primeira declaração de independência.

Em 1920, com o fim da guerra e o reconhecimento de que a Estônia era uma nação livre, a seleção nacional foi formada. Naquele mesmo ano, em 17 de outubro, o time jogou pela primeira vez e foi goleado pela Finlândia por 6 a 0, em Helsinki.

A curiosidade na época foi que maior novidade para os estonianos não esteve no primeiro jogo do selecionado nacional ou na consequente primeira derrota. Ocorre que, ao jogarem na Finlândia, eles viram um campo de grama pela primeira vez.

No ano seguinte, em 14 de dezembro, foi fundada a federação nacional de futebol, que se associou à Fifa dois anos depois.

Em 1924, a Estônia participou pela primeira e única vez de uma competição de grande porte: os Jogos Olímpicos de Paris. Na única partida que disputou, foi derrotada pelos Estados Unidos por 1 a 0.

Naquele início de século, a equipe nacional ainda conquistou a Copa dos Bálticos (jogada entre Estônia, Lituânia e Letônia), em 1938. E disputou sem sucesso as eliminatórias para as Copas do Mundo de 1934 e 1938.

Ocupação soviética

Com a ocupação soviética em 1940, o futebol – que começava a ganhar força no país – passou a ser artigo de menor importância para os estonianos. A seleção foi desfeita e os principais jogadores foram recrutados para outras funções ou fugiram.

Nessa época, o futebol interno do país também foi desmantelado. Os clubes precisaram trocar de nomes e jogar o campeonato soviético. Uma seleção refeita (então denominada de República Socialista Soviética da Estônia), chegou a ganhar a Copa dos Bálticos cinco vezes, mas nada que empolgasse.

A partir dos anos 70, porém, o esporte passou a ser utilizado pelos nacionalistas como uma ferramenta para retomar o orgulho estoniano e lutar pela independência. Houve a formação de times somente de estonianos e alguns atletas (casos de Ott Mötsnik e Toomas Kröm) chegaram a ser convocados para a seleção de juniores da Rússia.

A estratégia deu certo. Em 1990, no ano anterior à redeclaração de independência, um amistoso entre Estônia e Letônia relembrou os 50 anos da última partida entre eles como nações independentes.

País livre, de novo

A partir de 1991, com a vida política refeita e estabilizada, a Estônia pôde, enfim, voltar a pensar em montar uma seleção de futebol competitiva. Em 1996, a contratação do técnico islandês Teitur Thordarson ajudou a começar dar novo status ao time. Ele ficou no cargo por três anos e levou a seleção da 102.ª para a 70.ª posição no ranking da Fifa.

Desde então, a Estônia vem alternando bons e maus momentos, numa campanha histórica que pode ser comparada à da atual eliminatória da Euro. Chegou a se afundar em outubro de 2008, quando caiu para 137.º lugar no ranking (o pior de toda a história), mas vem se erguendo desde então.

Em 2009, o acanhado estádio A. Le Coq, onde a seleção manda a maioria dos seus jogos, recebeu um amistoso entre Estônia e Brasil, que se preparava para a Copa do Mundo da Àfrica do Sul – os brasileiros venceram por 1 a 0.

Agora, ainda que a vaga para a repescagem das eliminatórias da Euro não seja conquistada, fica a esperança de que os estonianos possam continuar vendo a evolução da sua seleção e que o futebol, mais uma vez, ajude um povo sofrido a sorrir.

FICHA

Associação de Futebol da Estônia (Eesti Jalgpalli Liit)
Confederação: UEFA
Estádio Principal: A. Le Coq (Tallinn)
Principais títulos: não tem
Participações em Copa: nenhuma
Site oficial: http://jalgpall-ee.sn13.zone.eu

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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