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Estevão: Um passeio pela Tunísia

O zagueiro Estevão Toniato, natural de Vila Velha, passou suas férias no Espirito Santo e retornou para a Tunísia, onde defende o Stade Tunisien. Neste bate-papo o ex-jogador de Rio Branco e Estrela fala sobre como é jogar no emergente futebol tunisiano. Fala também sobre a seleção do país, contato com o islamismo e sobre uma possível transferência para o Esperance ou o Club Africain, os clubes mais populares e vitoriosos da Tunísia.

Como foi sua primeira temporada na Liga Tunisiana, que é uma das mais conceituadas na África?
Foi muito boa, foi minha temporada de estréia e as coisas saíram muito bem. Tenho contrato com o Stade Tunisien por mais 3 anos, mas tenho propostas do Esperance e do Club Africain. Num jogo do returno contra o Esperance, o Marcos Roberto, que também é brasileiro e joga no Esperance, me disse que quando nos enfrentamos no 1º turno, um diretor do clube perguntou por mim. Pode acontecer alguma coisa quando eu voltar para lá.

Como foi o contato com a religião islâmica e as dificuldades com o idioma?
O árabe é complicado, eu me comunico com os companheiros em francês, que é mais fácil. Aprendi bem o francês desde que cheguei. Quanto a religião, eles acham o máximo o islamismo, exaltam bastante Maomé (profeta) e tem muita vontade em falar e te ensinar sobre o islamismo. Eu sempre demonstrei interesse, procurei ser simpático, mas não quero nem saber em fazer parte.

O Stade Tunisien não ganha um titulo nacional há mais de 30 anos. A pressão é grande?
O meu clube é como se fosse um Fluminense ou um Botafogo. Tem um passado glorioso, mas não ganha um titulo importante há muito tempo. O presidente da república é torcedor do time e existe muita pressão sim. Os torcedores cobram, xingam, mas não chegam a ser violentos. O nosso técnico é o Robertinho (ex-Fluminense 2002/03), que é um grande treinador, inclusive sempre falo para ele que a Tunísia é muito pequena para ele. Pelo currículo que ele tem, deveria estar numa equipe de um país mais expressivo. Mas nosso elenco era fraco e mesmo assim ele botou o time para jogar bonito, o problema é que não fazíamos gols. Terminamos em 7º lugar. Falava-se muito que os brasileiros (o próprio Estevão, Cardoso e Gilson da Silva) carregavam o time nas costas e isso incomodava os jogadores locais. Eu comecei a marcar alguns gols de cabeça e eles perceberam, então, nos escanteios eles pediam para eu ficar no 1º pau e jogavam a bola no 2º pau para evitar que eu continuasse a marcar gols.

O Alex (ex-Palmeiras e Cruzeiro) disse numa entrevista que a diferença nos clássicos no Brasil e na Turquia é que aqui tem futebol e lá eles levam muito em conta a garra e a luta, e ai o jogo fica feio. Os clássicos entre Esperance, Etoile e Club Africain são assim também?
Sim, eles levam muito para o coração, querem ganhar na força e geralmente são os estrangeiros que desequilibram porque não levam para o lado emocional, não se preocupam em dar pontapés e sim em jogar futebol.

Como é o comportamento dos torcedores, especialmente nos clássicos?
São barulhentos, amam futebol. O Club Africain tem a maior torcida e é o maior rival do Esperance. O único caso de violência que eu ouvi falar foi quando aconteceu o clássico entre Esperance e Etoile. As duas torcidas se cruzaram num ponto de conveniência e quebraram o pau, machucaram até crianças.

Dos últimos nove campeonatos, o Esperance ganhou oito. Existe muita perseguição e inveja em relação ao Esperance?
Todo mundo quer trabalhar no Esperance. Os caras tem hotel 5 estrelas para se concentrar, tem uma capacidade financeira excelente. Tudo bem que só podem jogar 3 estrangeiros, mas os caras tem 9 estrangeiros no plantel, todos de qualidade.

Existem tunisianos que atuam no próprio país que teriam potencial de jogar no Brasil?
Tecnicamente sim, tem bons jogadores lá, mas acho que eles não suportariam a carga de treinos daqui. A pré-temporada aqui é dureza, não agüentariam. Pelo que ouço falar por lá, os preparadores físicos das outras equipes não se aperfeiçoaram. No nosso time (Stade Tunisien) o Robertinho sempre passava as coordenadas para o preparador físico que executava exatamente o que ele pedia. Tínhamos uma boa preparação em relação aos outros times.

Como se comportam a maioria das equipes tunisianas taticamente?
Eles não são muito disciplinados nesse sentido. No papel fica tudo definido mas na prática é um ´bolo´ defendendo e um ´bolo´ atacando (risos). Os times mais fortes jogam num 4-4-2 básico. Mas a maioria joga com uma linha de 4 defensores, sendo que os laterais não avançam, 5 no meio e 1 atacante. Eles gostam de colocar um atacante grande e forte jogando fixo na área. O meu time joga no 3-5-2 e eu jogo de libero, uma posição que eu gostei muito de atuar e se pudesse jogaria nesta posição até o final da minha carreira.

O Gilson, meia do Etoile du Sahel, fez um grande campeonato. Ele é de Cabo Verde, um país de língua portuguesa. Você chegou a conversar com ele?
Tive um contato com ele, mas não foi muito amigável não (risos). Nos chocamos e ele me xingou em português, então disse para ele: “Você fala minha língua, não é? Então você sabe o que é quebrar, não é? Pois é, vou te quebrar!”. Mas é um grande jogador.

Considera o campeonato tunisiano o melhor da África?
Sem dúvida. O melhor lugar para se jogar na África é a Tunísia, porque tem boa estrutura e paga melhor. Todo mundo vai ver jogador na Tunísia, especialmente o pessoal do oriente médio. O Campeonato tunisiano é melhor até do que o egípcio a nível de áfrica.

O goleiro Tizié (Esperance) da Costa do Marfim fez misérias na final da Copa da Tunísia e o zagueiro Badra chamou a atenção de muita gente na Copa de 98 e ainda é muito respeitado por lá. Que jogadores se destacaram nesta temporada na Tunísia?
O Tizié é muito bom. Fui ver esse jogo (Esperance x Club Africain, final da Copa da Tunisia) e ele arrebentou. Esse jogo terminou 2×2 e o Esperance venceu nos pênaltis. O Club Africain por pouco não ganhou, mas sua defesa é muita fraca. Os tunisianos agora estão querendo barrar goleiros estrangeiros no país para dar espaço para os jovens. O goleiro da Tunísia, o Ali Boumnijel já tem 40 anos, eles estão preocupados. O Badra é um veterano, já passou dos 30 e ainda joga demais. Tem também o Ali Zitouni do Esperance, um centroavante alto, rápido e que protege bem a bola.

Você foi assistir algum jogo da Tunísia pelas eliminatórias africanas para Copa do Mundo?
Assisti Tunísia x Marrocos em Tunis. Marrocos foi bem superior e acho até que é uma seleção melhor que a Tunísia. São os grandes rivais do continente.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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