Ele está perdoado

Todo mundo sabe o que Pelé fez enquanto jogador. E, diga-se de passagem, a maioria das vezes em que ele se arriscou nas artes também é conhecida por boa parte das pessoas. E, em meio às comemorações pelos 70 anos daquele que é, talvez, o brasileiro mais conhecido do planeta, convém também darmos boas risadas das tentativas bem-intencionadas de Pelé como artista de cinema, artista de TV, ou até mesmo cantor.
Primeiro, comecemos por uma rara aparição na televisão – talvez sua primeira incursão pelos campos artísticos. Em 1969, na novela “Os Estranhos”, exibida pela TV Excelsior, Pelé interpretou o papel de Plínio Pompeu, um advogado que ajudava extraterrestres do hipotético planeta Gama Y-12 a entrar em contato com os seres humanos. Inclusive, o papel fez com que ele se ausentasse dos campos por algum tempo, causando críticas da torcida do Santos – principalmente na campanha do Campeonato Paulista, que, aliás, o time de Antoninho acabou vencendo.
A segunda grande incursão de Pelé pelas telas foi no filme “Os Trombadinhas”, de 1979. Nele, Pelé encarnava… ele mesmo, ajudando um empresário a criar um projeto social para tirar crianças das ruas e iniciá-las no futebol. Aí embaixo, seguem algumas imagens de Pelé no filme de Anselmo Duarte.
E, depois, talvez o filme mais famoso em que Pelé atuou: “Fuga para a vitória”, de 1981. Na história, Pelé interpretava um prisioneiro de guerra, vindo de Trinidad e Tobago, que participava do time de detidos num campo de concentração na Alemanha, que enfrentava uma equipe alemã. Veja o que Pelé fez no filme:
Em 1985, veio “Pedro Mico”, no qual Pelé encarnava, exatamente ao contrário de “Os Trombadinhas”, um contraventor. Mas outro filme famoso em que o mais notável dos camisas 10 esteve foi “Os Trapalhões e o Rei do Futebol”, de 1986. Nele, o roupeiro Cardeal (claro, Renato Aragão), junto dos amigos Elvis (Dedé Sant'Anna), Fumê (Mussum) e Tremoço (Zacarias), é escolhido para treinar o time do Independência Futebol Clube, levando-o às vitórias com métodos, digamos, heterodoxos.
E, como o goleiro Nascimento, Pelé protagoniza cenas hilárias, como esta, em que defende um pênalti e faz um gol de tiro de meta (há que se destacar também o gol em que Cardeal cobra o escanteio e corre para cabecear, nos vídeos relacionados). Só para constar, as cenas no Maracanã foram gravadas no dia da final do Campeonato Carioca de 1986, entre Flamengo e Vasco. Confira e tente segurar as risadas se for capaz:
Mas Pelé é mais conhecido, nas artes, por suas incursões esporádicas pelo campo da música. Tendo aprendido a tocar violão com Tite, companheiro dos tempos de Santos, ele sempre gostou de cantar. E sua primeira tentativa foi em 1969: Elis Regina (com quem Pelé sempre teve uma relação cordial, até a morte da cantora) gravou com ele o compacto “Tabelinha Elis x Pelé”, no qual ambos cantavam duas músicas de autoria do jogador, “Perdão, não tem” e “Vexamão”. Ouça as duas:
“Perdão, não tem”
“Vexamão”
Coincidentemente, seria Jair Rodrigues (companheiro de Elis no programa “O Fino da Bossa”, muito famoso nos anos 1960) o próximo parceiro de Pelé. O Rei do Futebol comporia “Cidade grande (Abre a porteira)”, canção saudosista, que Jair gravaria em 1981, no disco “Alegria de um povo”. Veja o clip da canção, exibido no programa “Fantástico”, da TV Globo:
Ainda na década de 1980, para o disco “Clube da Criança”, Pelé gravaria “Recado à Criança”, junto de Patrícia e Luciano, integrantes do Trem da Alegria. Nada de se espantar, vindo do homem que disse que “o povo brasileiro precisa dar atenção às criancinhas”. Ouça aí:
Mas seria em 1999 que viria um “clássico” de Pelé, até hoje lembrado, feito para uma campanha do Ministério da Educação. Cante, empolgue-se, vibre com o mítico “ABC”:
Em 2002, viria “Em busca do penta”, marchinha que incentivava a Seleção Brasileira para o Mundial daquele ano. Três anos depois, haveria “Quem sou eu” a canção entoada para Maradona no “La Noche del Diez”, programa que Diego apresentava na TV argentina – e incluída em “Pelé Ginga”, CD lançado em 2006, no qual, junto do maestro Ruriá Duprat, o ex-jogador compilava alguns sucessos aqui mencionados, como as canções com Elis Regina e “Cidade Grande (Abre a porteira). Em “Quem sou eu”, havia um dueto, com Gilberto Gil.
O último “clássico” de Pelé veio no final de 2009. À guisa de homenagem à arquiteta portuguesa que projetou sua casa no Guarujá, Teresa Myre Dores, Pelé compôs “Teresa”. Desnecessário dizer que virou um clássico do YouTube, divulgado redes sociais afora. Relembre os versos “gol da Teresa, a minha casa é uma beleza”:
Evidentemente, nenhuma destas obras chega perto do brilhantismo que Pelé exibiu nos 22 anos em que esteve profissionalmente nos campos de futebol. E é exatamente por ter sido tão brilhante que o Rei está perdoado. Entende?



