Edmundo, duas décadas de um animal ou Animal ingovernável

por Luciano Mello*

Maracanã. Tarde de sábado, 26 de fevereiro de 2000. Vasco e Palmeiras disputam o primeiro jogo da final do Rio-São Paulo, um torneio que pouco empolga os vascaínos um mês e meio depois da traumática derrota nos pênaltis na decisão do Mundial, contra o Corinthians. Vilão daquele 14 de janeiro, Edmundo não está em campo diante do Verdão. Ao perder a braçadeira de capitão para o desafeto Romário, ele simplesmente se recusou a jogar. A constante confusão entre os craques enche de apatia o time, que perde por 2 a 1. Pouco antes do fim do jogo, a torcida protesta e clama pelo ídolo: “Ah, é Edmundo”. Natural, era o grito mais entoado pelos vascaínos desde 1997, mesmo quando o atacante estava em Florença. Naquele dia, porém, a reação espantosa vem alguns segundos depois. Ali mesmo, na então recém-inaugurada arquibancada verde à direita das cabines de rádio, nasce um coro tímido, que se espalha por boa parte do estádio: “Ei, Edmundo, vai tomar no cu”. Na semana da despedida oficial do Animal, a história retrata bem os altos e baixos da relação mais intensa entre um jogador e uma torcida nos últimos 20 anos no futebol brasileiro.

Para evitar injustiças, é preciso deixar claro que o protesto da final do Rio-São Paulo constituiu uma exceção. Em 1997, o craque conquistou imunidade e perdão vitalícios perante os vascaínos. Aos que têm memória ou idade curta, não custa lembrar: pensem nas atuações de Neymar em 2011. Acreditem, Edmundo jogou ainda melhor naquele segundo semestre.

Antes daquele Brasileiro inesquecível, o atacante surgira na Colina de forma fulminante em 1992, quando foi decisivo na conquista do Carioca. Porém, o dinheiro da Parmalat logo o levou para o Palmeiras. Até o retorno a São Januário, o ponto alto (ou baixo) de sua ligação com os vascaínos aconteceu em 1995. Na época, ele vestia a camisa do Flamengo e, xingado antes de um clássico, criou a provocação peniana: com a mão direita, agarrou a própria genitália e balançou-a na direção da torcida do Vasco.

De volta ao clube do coração, em 1996, Edmundo descobriu o melhor jeito de ganhar o perdão dos vascaínos: marcar um gol atrás do outro em cima do arquirrival. Em sua segunda passagem pela Colina, o craque balançou a rede do Flamengo sete vezes em cinco jogos. Mas, verdade seja dita, o time só subiu de patamar com a chegada de Mauro Galvão, Evair e Válber (ok, vou incluir aqui Odvan e Nasa) no meio de 1997. Antes disso, Edmundo se destacara mais pela “dança da bundinha” na frente de Gonçalves (com a rebolada final pertencendo aos botafoguenses, depois do paradoxal “golaço de Dimba”) e pelos esporros homéricos nos jogadores do meio-campo vascaíno, fossem eles talentosos (Juninho, Ramon e Pedrinho) ou eméritos pernas de pau (Ranielli, Nélson Patola, Borçato e Fabrício-futuro-camelô-e-detento).

Na mesma época em que contratou Galvão, Evair e Válber (não vou citar de novo o zagueiro e o volante), a diretoria anunciou a venda de Edmundo para a Fiorentina, que só seria concretizada em dezembro. A torcida lamentou a perda iminente do principal jogador do time, mas, sejamos realistas, não houve qualquer comoção. Até que começou o Brasileiro. Bom, aquela competição merece um texto à parte. Segue uma pequena lista dos melhores (e piores) momentos do Animal naquele semestre: seis gols em um jogo só, com direito a pênalti perdido (você ainda lerá isso de novo muitas vezes); expulsão numa partida em Natal (“Paraíba”) e ofensa ao árbitro cearense (“paraíba”) Dacildo Mourão; cotovelada em Burgos (sim, era Supercopa, mas foi na mesma época e esse goleiro sempre merece lembrança por seu braço curto que tanto ajudaria o Vasco no gol “monumental” de 1998); quebra de recorde de gols em uma edição do Brasileiro numa noite apoteótica contra o Flamengo; expulsão forçada no primeiro jogo da final; e título depois de um jogo sofrido, no qual Carlos Germano, o goleiro introvertido, brilhou mais do que Edmundo, o atacante hiperativo.

Encerrado o ano mágico, a viagem a Florença ganhou contornos de enterro para a torcida e até para o Animal. Enquanto ele rapidamente encheu o saco da vida na Itália, os vascaínos não o esqueciam nem no ano do título mais importante da história do clube. Cada chance de gol desperdiçada por Luizão, Donizete e outros menos votados despertava o coro nas arquibancadas: “Ah, é Edmundo” (tratando-se do personagem em questão, uma adequada adaptação, vale lembrar, do funk “Ah, eu tô maluco”).

Em maio de 1999, ele voltou ao Vasco por US$ 15 milhões, maior valor pago até então por um clube brasileiro para contratar um jogador. Em sua reestreia, não seria exagero dizer que os vascaínos compraram 90% dos 74 mil ingressos vendidos para um clássico diante do Botafogo, que acabou 1 a 1, gols dos ‘possantes’ Chiquinho e Zé Carlos. O brilho de Edmundo na decisão da Taça Rio, com dois gols contra o Flamengo, foi apagado duas semanas depois, quando ele passou em branco no segundo jogo da final do Carioca, decidido por Rodrigo Mendes. No confronto com o Rubro-Negro no Brasileiro de 1999, o camisa 10 vascaíno deixou outra frase para a eternidade ao ser perguntado ao fim da partida se a vitória vascaína por 1 a 0 havia sido justa: “Foi muito pouco. Nosso time é dez vezes melhor do que essa merda”.

Em 2000, a contratação de Romário tirou Edmundo dos eixos. O golaço diante do Manchester United se tornou a única marca positiva de uma temporada desastrosa, com destaque para o pior momento da sua carreira: o pênalti para fora contra o Corinthians. Quem observava de fora concluía rapidamente quem perdera a razão na disputa entre os craques: “São genéticas as confusões e o ciúme de Edmundo, a genialidade de Romário”, escreveu o normalmente comedido Tostão em crônica de 13 de fevereiro de 2000, presente em seu livro ‘A perfeição não existe’. Porém, a torcida do Vasco enxergava a situação de maneira diferente. Mesmo enquanto fazia gols de todas as formas possíveis (foram 73 em 2000), o Baixinho recebia aplausos discretos. Já Edmundo, em baixa e emprestado ao Santos, continuava saudado como uma divindade.

A história ganhou contornos surrealistas em 2001, quando Romário havia declarado guerra à Força Jovem, e o Animal, defendendo o Cruzeiro, visitou São Januário. O camisa 11 fez todos os gols da vitória vascaína por 3 a 0, mas foi o então cruzeirense que saiu de campo ovacionado, ao perder um pênalti depois de dizer que não queria balançar a rede do ex-clube. A atitude provocou sua demissão da equipe mineira.

Mesmo os maiores fãs de Edmundo têm dificuldades para lembrar da curta passagem dele pelo Vasco em 2003. Foram sete gols em 21 jogos durante o Brasileiro. Ao fim do ano, depois de brigar publicamente com Marcelinho Carioca por causa de cultos evangélicos (???), o craque reclamou do atraso de salários e fez as malas.

Faltava o ato final. No caso de Edmundo, mesmo a torcida que tanto o ama gostaria de apagar da memória a última temporada do ídolo, em 2008. Já na reestreia, na semifinal da Taça Guanabara, contra o Flamengo, ele bateu um pênalti nas mãos de Bruno. Em maio, veio outra decepção, novamente numa semifinal, novamente a 11 metros do gol. Na Copa do Brasil, o craque marcou o gol que igualava o confronto aos 44 minutos do segundo tempo com São Januário lotado, mas foi o único jogador a desperdiçar sua cobrança na disputa de penalidades. Sport finalista. O maior golpe viria em dezembro, no rebaixamento. Aos 37 anos, o atacante só brilhou em um jogo do Brasileiro, contra o Goiás, e nada pôde fazer para evitar a queda. A diretoria logo deixou claro que não contava com o jogador para a campanha na Série B, e ele decidiu pendurar as chuteiras.

Dois anos e meio depois, Edmundo chorou em rede nacional quando o Vasco encerrou seu jejum de títulos e aceitou o convite para realizar uma despedida oficial. Em jogos desse tipo, normalmente a torcida agradece os serviços prestados pelo craque. Porém, nesse caso específico, mais do que nunca, a gratidão também deve partir do ídolo, que, mesmo nos piores momentos, jamais foi abandonado pelos seus súditos.

* Luciano é jornalista

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