Duelo de Campeões

Houve uma certa divulgação na imprensa brasileira o fato de uma equipe de produção ir ao Rio de Janeiro para gravar cenas de um filme sobre o jogo Estados Unidos x Inglaterra da Copa de 1950, até hoje considerada a maior zebra da história dos Mundiais. Pois a produção foi finalizada e lançada, mas ninguém por aqui se interessou em colocá-la em cartaz. Menos mal que o filme, batizado em português com o ultraclichê nome de “Duelo de Campeões”, já pode ser encontrado nas locadoras.

A primeira coisa que é importante dizer a respeito do filme é que é norte-americano. Por isso, não adianta o cinéfilo ou torcedor se iludir achando que não haverá algumas patriotadas pró-Estados Unidos durante a história. A estrutura é a de sempre. Mostra um bando de apaixonados por um esporte que recebem algum incentivo para disputar um torneio importante contra times incomparavelmente mais preparados e experientes. Depois de algumas rusgas iniciais, o grupo se une e, com muita determinação e talento, vence os obstáculos (e o adversário mais forte). No meio do caminho, mensagens de incentivo e filosofia superficial.

Os casos mais graves nesse aspecto são frases como “sou descendente de alemães, mas sou americano acima de tudo” (argh), que esocndem o fato de que muitos jogadores daquele time norte-americano não eram filhos de imigrantes, mas imigrantes. Além disso, é completamente dispensável a participação de Patrick Stewart (o Professor Xavier de “X-Men” e o comandante Jean-Luc Piccard de “Jornada nas Estrelas – A Nova Geração) como jornalista do presente que conta a história para um jovem que não conhece a história. Só serve para acrescentar momentos dispensáveis e tolos (leia-se “piegas”) ao filme.

De qualquer forma, pode-se dizer que “Duelo de Campeões” (o nome original, “The Game of Their Lives”, ou “O Jogo de Suas (Deles) Vidas” seria muito mais adequado) escapa de algumas armadilhas comuns em filmes de esportes. Por mais que tenha os elementos de roteiro tradicionais para filmes desse gênero, esse aparecem em doses muito menores do que o normal. Por exemplo, não há o papel do técnico renegado que redescobre sua razão de viver ao treinar aquele grupo, tampouco gestos heróicos por parte dos jogadores. Além disso, não se sataniza o adversário (apenas de um jogador, Stanley Mortensen, interpretado por Gavin Rossdale, o vocalista da banda Bush), outro chavão comum nessas produções.

Isso ocorre porque o diretor David Anspaugh pareceu razoavelmente comprometido em ser fiel à realidade. Convenhamos, o filme fala de uma seleção mambembe que os norte-americanos montaram para jogar no Brasil e que venceu a Inglaterra, favorita à conquista do título. Isso é verdade, não é glorificação barata dos Estados Unidos. Por isso, tratar a vitória no estádio Independência como façanha histórica em nível mundial não é exagero. Claro que o fato só foi ao cinema porque envolveu os Estados Unidos (não se imagina Hollywood produzindo algo sobre Coréia do Norte 1×0 Itália em 1966), mas não se pode exigir tamanha pureza ideológica.

Outro ponto positivo do filme está nas cenas de futebol. As jogadas não são boas como em “Milagre de Berna”, mas convencem. Ainda mais se for levado em conta que os atores são norte-americanos, por mais que os produtores tenham buscado atores que tivessem praticado o soccer na infância. Nesse aspecto, um brasileiro pode até ficar corado ao comparar as cenas de bola rolando de “Duelo de Campeões” com o nacional “Garrincha – Estrela Solitária”.

Se ainda for considerado que o filme tem bom padrão de reconstituição de época e teve o cuidado de mostrar o Rio de Janeiro de 1950, com botecos da Lapa tocando um sambinha mais ingênuo, ao invés de estereotipadas mulatas em trajes mínimos dançando pela rua como se o país inteiro fosse um desfile de escola de samba, é possível se sentir satisfeito com o cuidado histórico de Anspaugh. Nem o fato de filmarem o Estados Unidos x Inglaterra nas Laranjeiras ao invés do Independência atrapalha.

Alguns poderiam exigir que o filme deixasse claro que, depois daquele jogo, os norte-americanos coletaram duas derrotas e ficaram em último lugar no grupo. Mas seria forçar um pouco. O papel histórico daquela seleção dos Estados Unidos foi ter vencido a Inglaterra. E é isso que o filme tenta resgatar. Falar das partidas contra Chile e Espanha seria apenas estragar uma história interessante. Até porque o roteiro em nenhum momento insinua que o futuro da seleção norte-americana foi brilhante naquele torneio.

O pecado do filme não é factual, mas a falta de emoção. Não precisava ser piegas, exagerando no americanismo ou nos chavões típicos em filmes de esportes, mas poderia haver mais contextualização. Algo que ajudasse o espectador – sobretudo o norte-americano – que não conhece tanto a história daquele jogo a entender o que o gol de Gaetjens significou. Isso já ajudaria a dar uma “aura” em torno da partida, que, do jeito que ficou no filme, parece simplesmente um jogo solto e perdido na tabela do campeonato. Faltou o molho que torna qualquer história interessante.

Um detalhezinho que faz uma enorme diferença. Afinal, o esporte vive de emoção e um filme de esporte não pode fugir disso. O cuidado técnico foi grande a ponto de passar por cima dessa regra. Como resultado, sobrou um filme interessante por possibilitar a visualização relativamente fiel de um momento histórico do qual não se tem muitas imagens. Mas não vai muito além disso.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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