“Donos da bola”
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Em “Donos da Bola”, Eduardo Coelho, professor de literatura brasileira da UFRJ, se propôs a organizar uma antologia em que reúne diversos autores consagrados da língua portuguesa cujo denominador comum é o futebol como tema central.
De modo geral, o resultado final é um livro leve e agradável, que oferece uma leitura rápida fruto de uma seleção realmente eclética de autores e estilos. Boa parte do mérito de Coelho foi justamente ter navegado em campos como a música (Jorge Bem, Aldir Blanc, João Bosco), o verso (Drummond, Vinícius, João Cabral de Melo Neto) e a prosa (desde José Miguel Wisnik até Luis Fernando Veríssimo, passando por Chico Buarque). Além disso, buscou representantes de Moçambique (Mia Couto), Portugal (Gastão Cruz), femininas (Clarice Lispector) e da belle époque (Lima Barreto), o que impede a monotonia ou o samba de uma nota só. Mesmo assim existe uma concentração de autores nascidos ou radicados no Rio de Janeiro, o que de certa forma limita a abrangência dos textos.
Merecem destaque positivo os textos de Francisco Bosco sobre os apelidos no futebol; Armando Freitas Filho sobre o Maracanã; o de Mia Couto sobre o pebolim; Veríssimo falando de futebol de rua e a importância relativa das coisas, além dos textos de Lima Barreto, interessantes justamente pelo fato do escritor nunca ter gostado de futebol. O autor selecionou também alguns “clássicos”, como o texto de Drummond sobre o gol 1000 de Pelé.
Como em toda coletânea cuja elaboração é marcada por uma boa dose de subjetividade, há também textos questionáveis, como “Cicatrizes” de Luiz Ruffato; “Sexo e Futebol” de Veríssimo e “A procura de uma dignidade” de Clarice Lispector. Os fãs de Chico Buarque também correm o risco de ficar um pouco desapontados. Dentre os autores de destaque que ficaram de fora e poderiam ter enriquecido a obra vale citar Armando Nogueira, Xico Sá, Nelson Rodrigues e Tostão.
Em suma, apesar de básica e “arroz com feijão”, o livro entretém ao atender seu objetivo e ilustrar como o futebol fascinou e fascina mentes brilhantes e diversas da literatura e das artes em geral. Por fim, há incontáveis menções, em geral apaixonadas, à seleção brasileira na obra. Considerando o cenário atual e a tendência para o futuro, este tipo de texto pode estar em extinção e soar apenas como história ou relíquia para as próximas gerações. Seria uma pena, mas vale a pena refletir a respeito.