Difícil é se manter

O Manchester United poderia ter se sagrado o primeiro bicampeão europeu desde a criação da Liga dos Campeões em 1992. Poderia, mas sucumbiu diante do Barcelona na final da última quarta-feira, em Roma, deixando escapar uma invencibilidade recorde de 25 partidas na competição. Uma derrota tão veemente quanto a última que havia sofrido até então: os 3 a 0 do Milan na semifinal de 2007, em San Siro.

O Barcelona terá, na próxima temporada, o desafio que todos os campeões tiveram na atual era do torneio – e nenhum conseguiu alcançar: manter-se no topo da Europa por mais um ano. É difícil não apenas pelo alto nível da concorrência e pelo fato de se tornar o time a ser batido, mas também pela exigência que cai sobre o elenco na campanha seguinte.

Na condição de vencedor da tríplice coroa (LC, Campeonato Espanhol e Copa do Rei), o Barça terá de encarar compromissos que não precisou cumprir nesta temporada. Em agosto, o time disputa dois títulos oficiais – as Supercopas espanhola, contra o Athletic Bilbao, e europeia, contra o Shakhtar Donetsk. Em dezembro, o time viaja a Dubai para buscar seu primeiro título mundial de clubes. Só aí são cinco partidas a mais, carregando o calendário da equipe.

Na era da Copa dos Campeões, não era tão impensável defender o título, já que a não havia uma representação massiva das ligas mais fortes, tornando a concorrência limitada. Agora, sempre podem ser apontados pelo menos dez candidatos sérios ao título no início da temporada.

Pelo menos até setembro, o Barcelona não precisa se preocupar com isso. Pode curtir seu terceiro título europeu, mais impressionante que os outros dois. Em 1992, vitória apertada na prorrogação sobre a Sampdoria. Em 2006, virada suada contra um Arsenal que jogava com um homem a menos desde o primeiro tempo. Desta vez, os blaugrana se impuseram sobre um Manchester United consideravelmente mais forte que os outros dois adversários nas finais.

A conquista se torna ainda mais saborosa pelo fato de sete jogadores dos onze titulares terem saído das categorias de base: Valdés, Puyol, Piqué, Busquets, Xavi, Iniesta e Messi. Além do treinador, Josep Guardiola, que conseguiu todos estes feitos logo em sua primeira temporada. Ele passará toda sua carreira, que promete ser longa, tentando repetir o que alcançou este ano, e é bem possível que não consiga.

Incontestável

Guardiola pode dizer que acertou em todas as suas decisões na final. Desfalcado de seus dois laterais titulares, Daniel Alves e Abidal, ele deslocou Puyol para a direita e fez o feijão-com-arroz na esquerda, optando por Sylvinho em vez da esperada improvisação de Keita. Defensivamente, os dois fizeram um trabalho bem mais importante que os donos das posições.

Recuado para a zaga para formar dupla com Piqué, Touré parecia um defensor nato. E seu substituto como volante, Busquets, atuou à altura, permitindo que Xavi e Iniesta tivessem o brilho habitual na manutenção da posse de bola e na distribuição de passes envolvente.

O posicionamento do ataque também foi uma medida certeira do treinador. O deslocamento de Messi para a faixa central (não exatamente como centroavante, mas partindo de trás) significou a passagem de Eto’o para a direita – justamente onde o camaronês construiu a jogada do primeiro gol, dando um drible desmoralizante em Vidic, um dos melhores zagueiros da temporada europeia.

O Barcelona valorizou a bola nos pés, mas o fez em uma zona do campo mais retraída, ao contrário do que esperavam os Red Devils, que esperaram em vão as oportunidades de contra-atacar. E quando Alex Ferguson, que perdia o meio-campo desde o primeiro minuto, decidiu arriscar tudo com cinco atacantes, no segundo tempo, ficou um vazio de homens de branco no setor onde se constrói o jogo, facilitando ainda mais a tarefa dos blaugranas.

O gol de cabeça de Messi, em outro apagão defensivo do United, no cruzamento preciso de Xavi, matou o jogo efetivamente aos 25 minutos do segundo tempo. E matou também a disputa pela Bola de Ouro e pelo prêmio de Melhor do Mundo da Fifa.

Então, a frustração inglesa se transformou em desespero, o que não justifica as três investidas de Cristiano Ronaldo em Puyol ou a entrada violenta de Scholes em Busquets, ambas punidas com cartão amarelo. Scholes merecia até expulsão, naquele que pode ser considerado o único senão do trabalho do árbitro suíço Massimo Busacca na final.

Pensar que a vaga na decisão esteve a um minuto de escapar, na dramática semifinal contra o Chelsea, agora só serve para valorizar ainda mais a conquista. Porque se sobrou drama antes da decisão, quando ela chegou não houve a menor dúvida sobre quem tinha mais direito a levantar o troféu das grandes orelhas: o Barcelona.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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