Demorô, São Paulo!

Admito: meu julgamento de Muricy Ramalho oscila pra burro – já cheguei a dizer que ele tinha de deixar o São Paulo no meio do ano passado, só para terminar o ano dizendo que tinha falado bobagem, e que Muricy tinha, além das qualidades que sempre reconheci, outras que enxerguei depois. É da nossa profissão: o momento e os resultados influenciam muito o julgamento. Algumas coisas, porém, venho repetindo desde o início do trabalho do treinador. E elas se repetem neste começo de temporada.

A mais importante, neste momento, é a seguinte: Muricy demora para acertar o São Paulo – embora, nos dois últimos anos, tenha acabado por acertá-lo, e muito bem. Só que isso tem custado ao Tricolor a Libertadores. Se o São Paulo que enfrentou o Inter em 2006 e o Grêmio em 2007 fosse o time que chegou ao final do ano, talvez fosse pentacampeão continental – certamente teria feito a final com o Boca em 2007.

Em 2008, parece haver mais um fator para complicar a vida de Muricy: a diretoria do clube resolveu ajudar a atrapalhar. Contratou e vendeu de maneira duvidosa e ajudou a bagunçar um time que era arrumado. Se o elenco são-paulino é hoje o melhor do Brasil individualmente falando, a química que levou a equipe adiante nos últimos anos parece ter pedido licença. Além disso, não é um elenco que vá ter tempo para se integrar, já que será desfeito em poucos meses.

Toda essa reflexão não nasceu do Paulistinha, uma pré-temporada de luxo que só pode servir para entrosar as equipes grandes, mas sim pelo péssimo começo de partida do São Paulo diante do Nacional em Medellín. Para começar, foi bastante estranha a escalação da equipe. Lá atrás, revela-se um problema que parece instalado na equipe: Muricy não decidiu se vai jogar com três ou com quatro zagueiros. A grande questão é a seguinte: a equipe não tem três zagueiros bons, pelo menos não enquanto Alex Silva estiver contundido e Juninho desentrosado. Não tem também, entretanto, laterais. Joílson também não se encontrou, se é que tem no que se encontrar, Reasco, que já atuou pelos dois lados do campo em sua carreira, por algum motivo não agrada ao treinador, e não há no elenco são-paulino nenhum lateral esquerdo – Junior ainda pode ser muito bom, mas não agüenta jogar todas as partidas.

A escalação da equipe na estréia da Libertadores trouxe, portanto, uma formação estranha, na qual não ficou claro, parece que nem para os jogadores, se ou Zé Luis ou Richarlyson deveriam jogar como terceiro zagueiro – e nenhum dos dois jogou. Como nenhum dos supostos laterais resolveu ficar, o São Paulo começou o jogo simplesmente com dois zagueiros, Hernanes de volante e o resto do time voltado ao ataque – inclusive com três atacantes em campo. Para dar mais uma ajuda ao atrapalho geral, Muricy escalou Eder Luis, que treinou uma vez só com o resto do time. O time acabou minimamente se encontrando, no que ajudou a baixa qualidade do adversário, mas não dá para dizer que a partida como um todo convenceu a todos de que o São Paulo vai bombar em 2008.

Imperador

A principal diferença entre o São Paulo e o Flamengo – e o Cruzeiro – é que, embora os três tenham muitas peças coincidentes nos elencos do ano passado e no deste ano, só o São Paulo mudou profundamente sua maneira de jogar. O motivo foi a chegada de Adriano, e não se pode conceber que qualquer equipe brasileira não fosse fazer o mesmo. O São Paulo, que não tinha um atacante como referência do ataque desde 2006, passou a ter, e teve que mudar seu jeito de jogar. Talvez o trauma tivesse sido menor se: 1- Muricy não tivesse mexido também na espinha dorsal da equipe, a dupla Hernanes e Richarlyson, que foi deslocado do meio-campo para atuar em todas as posições do campo; e 2- se a equipe não tivesse perdido seus dois polivalentes, Leandro e Souza, jogadores medianos, mas que atuavam junto com esse time há tempos, e que tinham o que alguns dos jogadores que chegaram não têm: versatilidade.

O passado, porém, sugere que não se critique Muricy por sacrificar o começo da temporada – e o estadual especificamente – em nome de um ano bom. O São Paulo, economicamente, ganhou com a venda dos jogadores citados, e conseguiu integrar a seu grupo jogadores que já mostraram qualidade, e por custo quase sempre zero.
As experiências que vêm sendo feitas são válidas, uma vez que nada impede que se volte minimamente, principalmente no setor defensivo, ao esquema anterior se nenhum dos novos funcionar. E podem servir para que o Tricolor encontre a melhor maneira de pôr tanta gente boa para jogar.

A questão para o São Paulo é o tempo que vai demorar para que a equipe se encontre. Primeiro porque sua torcida, como disse Muricy à Trivela no ano passado, já “cansou”de novo do Brasileirão, e em 2008 vai querer pelo menos beliscar de novo a Libertadores. Segundo porque não vai adiantar montar um time para Adriano jogar que comece a funcionar em maio, quando o Imperador já vai estar arrumando as malas para voltar.
A chave para o problema pode ser uma característica dos times de Muricy, muito forte em seu São Paulo: a união e a perfeita harmonia dentro do grupo. Se o treinador estiver conseguindo isto em um elenco com Adriano, Carlos Alberto e Fábio Santos, é questão de tempo antes de o São Paulo estourar. Caso contrário, a aposta elevada da diretoria do Tricolor em 2008 pode, pela primeira vez desde 2005, acabar não dando nenhum retorno.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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