David Busst: vencido pela lesão

Um minuto e 20 segundos de jogo. A primeira chance de gol no Estádio Old Trafford é do Coventry City, em jogo com o Manchester United, pelo Campeonato Inglês, na ensolarada tarde de 8 de abril de 1996. Num escanteio, a bola viaja até a cabeça do atacante, e o goleiro Peter Schmeichel se estica para defender. Espalma para o outro lado. Ali, prestes a abrir o placar, estava David Busst, zagueiro, de 28 anos.

Ele – e quem assistia à partida – não imaginava que o lance tão banal seria forte o suficiente para sepultar uma carreira. Ao dar um carrinho em direção a goleira, colidiu contra dois adversários – o também zagueiro Dennis Irwin e o atacante Brian McClair. O resultado do choque não poderia ter sido mais trágico. A perna direita quase se separou em duas, com fratura entre o joelho e o tornozelo. Como na lesão do brasileiro Eduardo da Silva, do Arsenal, a televisão inglesa não aproximou as imagens do atleta caído no chão.

Em campo, enquanto Busst gritava e chorava de dor, os outros 21 jogadores se desesperaram. Schmeichel, por exemplo, saiu correndo com as mãos no rosto, incrédulo, não acreditando no que via. Passou tão mal, que chegou a vomitar.

Busst foi imediatamente atendido. Em poucos minutos, estava no hospital, onde os médicos tentavam encontrar uma maneira que evitasse a amputação. A cirurgia de três horas foi só a primeira. Na semana seguinte, mais catorze. No total, a fratura exposta na tíbia e no perônio lhe rendeu 26 operações.

Por alguns meses, ele imaginou que poderia voltar a jogar. Em novembro, os médicos, porém, deram o veredicto: não havia outra solução, a não ser a aposentadoria. E assim foi feito. Busst, atualmente, treina a equipe do Evesham United, da 6ª divisão, além de ser diretor do Programa de Futebol Comunitário do Coventry, clube que tentar voltar à Premier League.

Quanto ao jogo, o Manchester venceu por 1×0. A vitória tornou-se fundamental para o título dos diabos vermelhos na temporada 1995/96. O Coventry fez uma campanha ruim, se safando do rebaixamento apenas nos critérios desempate.

Tristeza no dia da festa do Manchester

Sobre o gol, marcado pelo francês Eric Cantona, David Busst só foi informado depois de acordar da anestesia. Pela TV e pelos jornais soube que após sua saída de campo, o jogo ficou paralisado por cerca de 15 minutos, para que o sangue fosse retirado do gramado de Old Trafford, numa tarde que prometia ser especial para o futebol britânico.

O Manchester brigava ponto a ponto com Newcastle e Liverpool pelo título. Depois das partidas do dia, faltariam apenas quatro rodadas para o campeão ser definido. E há tempos – mais precisamente nove anos – o torcedor inglês não comparecia em massa aos estádios. United x Coventry deixou claro que a violência nas torcidas começava, de vez, a ser combatida.

Old Trafford recebeu, portanto, naquele 8 de abril, mais de 50 mil pessoas. A multidão, após 80 segundos de euforia, murchou. Quando era carregado para fora do campo, Busst ouviu o silêncio agoniante e pasmo que vinha das cadeiras.

No hospital, foi visitado pelos jogadores do Manchester David Beckham, Ryan Giggs, Cantona e Peter Schmeichel. Alex Ferguson, o treinador, fez o mesmo. O elenco do Coventry, time popularmente conhecido como Sky Blues (em razão da cor do uniforme) compareceu em peso. Foi lá também que recebeu a notícia de que seria pai pela segunda vez. Ele já tinha uma filha de 10 anos de idade. O “presente” amenizou o que estava por vir.

Numa das muitas cirurgias, os médicos se viram obrigados a cortar parte da musculatura da perna, em novembro do mesmo ano. De fato, este foi o fator determinante para o encerramento da carreira. A lesão havia sido curada e a tíbia e o perônio, reconstruídos, já no primeiro procedimento cirúrgico. Entretanto, infecções no local machucado sucederam a fratura, de tal forma que os tendões ficaram comprometidos. Daí a explicação para tantas operações.

A cada incentivo vindo dos colegas de profissão, as esperanças de voltar a atuar renasciam na mente de Busst. Derrotado por dores e infecções, continuou recebendo apoio do Coventry. O clube fez questão de mantê-lo integrado ao grupo principal, apesar das impossobilidades físicas e deixou aos seus cuidados um programa comunitário. Talvez tenha servido de combustível para que o ex-zagueiro de 1m 85cm decidisse não abandonar o esporte.

A curta carreira

Com a carreira encerrada, David Busst foi agraciado pela direção do Coventry. Esta o nomeou diretor do Programa de Futebol Comunitário do clube, voltado a torcedores e ao público em geral da cidade, cujo nome é o mesmo do time. Busst continua tão próximo da bola que, inclusive, se aventura como técnico. Comanda o Evesham United, da inexpressiva 6ª divisão.

É a chance de obter algum sucesso na área, o que não aconteceu nos tempos de atleta. Não foi mais do que um jogador mediano. Jamais defendeu a seleção e nem sempre era titular. Nascido em Birmingham, no centro da Inglaterra, em 1967, começou a jogar futebol no ano de 1991 no antigo Moor Green, clube amador daquele país. Recentemente, o Green se uniu ao Solihull Borough, formando o Solihull Moors.

Em 1992, foi descoberto pelo Coventry, onde jogou até sofrer a fratura. Nos quatro anos seguintes, disputou 57 partidas na Premier League (apesar de nesse tempo, o Coventry ter estado sempre na primeira divisão; e em cada edição, os times jogam 38 vezes). Sequer comemorou um título. A única conquista do pequeno Coventry é a Copa da Inglaterra, de 1987, quando Busst torcia pelo Leeds United e ainda não havia se decidido pelo meio esportivo. Começou tarde, aos 24 anos. Da curta experiência de zagueiro, elegeu o atacante Alan Shearer, ex – Blackburn e Newcastle, como o mais difícil a ser marcado.
 

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Equipe Trivela

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