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Das chuteiras para as pranchetas

A se avaliar pelos confrontos diretos travados na época em que ainda calçavam chuteiras, Diego Maradona e Dunga, atuais treinadores de Argentina e Brasil, apresentam números equilibrados. O ex-volante levou a melhor no primeiro embate entre eles, ocorrido na Copa América de 1989, quando o Brasil fez 2 a 0 no Maracanã e ficou com o título do torneio continental. Mas, na competição que realmente importava – o Mundial da Itália, em 1990 – a grande imagem da eliminação brasileira nas oitavas-de-final é, justamente, a do Pibe de Oro fazendo fila no miolo defensivo do Brasil, deixando para trás vários marcadores – entre eles, o próprio Dunga – até cavar o buraco de onde sai a assistência milimétrica para o cabeludo Caniggia sepultar a era Lazzaroni. O terceiro e derradeiro encontro entre os agora comandantes se daria em 1993, num amistoso que celebrava o aniversário secular da AFA (Associação de Futebol Argentino). O jogo terminou num empate por 1 a 1.

As comparações entre ambos têm se tornado inevitáveis porque, desde que foi oficializado no cargo de técnico da seleção argentina, o próprio Maradona, afeito a uma polêmica, alimenta a rixa. Questionado sobre as eventuais semelhanças com o trabalho do colega brasileiro, Diego foi definitivo: “Se minha equipe vai jogar como a de Dunga? Não: ele dava botinadas, eu me esquivava delas”. Mas o ídolo não ficou sem réplica. No início de novembro, na coletiva de imprensa em que anunciou os convocados do Brasil para o amistoso contra Portugal, Dunga também ironizou. “Sempre cuidei do meu corpo, pois, com ele, construí minha carreira e minha postura”. Naturalmente, a alfinetada foi em relação ao histórico de Maradona com o vício pelas drogas, problema que quase o levou à morte, há poucos anos. Por isso, já se cria uma expectativa grande pelo primeiro encontro entre os “professores”, marcado para o dia 6 de setembro de 2009, quando brasileiros e hermanos se pegam em partida das Eliminatórias. Isso, claro, se ambos resistirem nos cargos até lá.

As condições em que cada um assumiu os respectivos desafios foram bem distintas. Quando todos apostavam no retorno de Vanderlei Luxemburgo em lugar de Carlos Alberto Parreira, após a péssima campanha brasileira na Copa do Mundo de 2006 – cuja preparação foi chamada de “circo” em recente entrevista de Ronaldo ao programa Bem, Amigos, do SporTV – a CBF surpreendeu ao anunciar Dunga. O objetivo era fazer uma reformulação não só de peças, mas especialmente de “espírito”: instigar nos jogadores o velho sentimento da “pátria em chuteiras”, fazendo-os incorporar a idéia de que servir à seleção deve ser o ápice (e a prioridade) da carreira de qualquer boleiro. A inspiração era o recente caso alemão, em que o ex-jogador Jürgen Klinsmann detonou esse sentimento justamente no Mundial disputado na Alemanha, quando seus limitados comandados se superaram ao obter a terceira colocação do torneio.

O problema é que Dunga tem no Brasil o mesmo carisma de um DVD pirata, diferentemente do que acontece com Klinsmann na Alemanha e com Maradona na Argentina. Goste-se ou não do estilo do ex-rei de Nápoles, é preciso reconhecer que coragem não falta a Diego, um ídolo cujas dimensões épicas transcendem racionalidades – representativo disso é a existência da peculiar “Igreja Maradoniana”. Ou seja, ao aceitar ser o condutor do país rumo à Copa do Mundo de 2010, Maradona também aceita testar a religiosa devoção que criou junto aos seus seguidores nas últimas décadas, afinal, não há treinador no futebol que não seja exposto a julgamento público – e a eventual execração, em caso de fracasso. A favor de Maradona pesa o fato de chegar ao cargo com a Argentina numa condição razoável nas Eliminatórias – ocupa, atualmente, a terceira posição. Esse “laboratório” com Diego se dá, portanto, numa situação em que o país dificilmente corre riscos de ficar sem vaga no Mundial.

Mas Maradona terá que quebrar a maldição de ex-atletas sem (ou com pouca) experiência prévia na função de comando. À exceção dos alemães Franz Beckenbauer e Jürgen Klinsmann, a maioria dos casos similares se revelaram pouco marcantes. Relembre os episódios mais famosos:

Franz Beckenbauer

Quando se fala em ex-jogadores que assumiram seleções nacionais sem experiência anterior como técnico, o nome de Franz Beckenbauer é o primeiro a ser lembrado, naturalmente pelo trabalho marcante à frente da Nationalelf. Campeão do mundo como jogador em 1974 (além de ter participado das edições de 1966 e 1970 do Mundial), Beckenbauer assumiu o comando técnico da seleção em 1° de agosto de 1984, cercado por grandes expectativas. Afinal, a alcunha de “Kaiser” que carregava não era fortuita: além de uma carreira vitoriosa como boleiro (com seis títulos nacionais), também ficou conhecido pela personalidade empreendedora: ao lado de Pelé, ajudou a fazer florescer o soccer nos Estados Unidos e, depois de encerrar a carreira de técnico, ainda se tornaria dirigente e o responsável pela organização da Copa do Mundo de 2006.

Beckenbauer chegou para trazer novos ares após a “era Jupp Derwall”, marcada pela conquista da Eurocopa 1980 e o vice-campeonato mundial de 1982, quando os germânicos caíram na decisão frente à Itália de Dino Zoff e Paolo Rossi. Derwall perdeu crédito a partir da pífia campanha na Eurocopa 1984, quando a Alemanha, então Ocidental, acabou eliminada pela Espanha, num gol marcado por Antonio Maceda no último minuto (a Espanha seria a vice-campeã do torneio). Parte da imprensa chegou a contestar a indicação do Kaiser com o recorrente argumento da “inexperiência”. E o início dele, de fato, foi um tanto atribulado. Logo no segundo ano, após uma seqüência de três derrotas consecutivas – contra Inglaterra, México e a antiga União Soviética – Beckenbauer balançou.

Mas, com o êxito nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1986, no México, Beckenbauer ganhou sobrevida e se fortaleceu. Fez boa campanha, chegando à decisão do torneio após eliminar, nas semifinais, o carrasco do Brasil: a forte seleção francesa, da geração de Rocheteau, Tigana e Platini. O problema é que 1986 era o ano mágico da carreira de um certo Diego Armando Maradona. Mesmo assim, os comandados de Beckenbauer venderam caro a derrota na decisão: depois de abrirem 2 a 0, os argentinos cederam o empate em gols de Rummenigge e Völler, e só definiram o título a sete minutos do fim, em assistência de Diego e gol de Burruchaga. Perder para aquela Argentina não era demérito algum.

Até porque, quatro anos depois, no Mundial da Itália, Beckenbauer se redimiria. Aproveitando-se do baixo nível técnico da competição – é considerada a mais fraca edição das Copas do Mundo – a Alemanha acabou premiando, com o título, a talentosa geração derrotada no México, que incluía os meias Hässler e Lothar Matthäus e os atacantes Völler e Klinsmann, contra os mesmos argentinos na final. Naquela ocasião, nem mesmo o outrora imparável Maradona pôde resistir ao voluntarioso futebol germânico, que “achou” a vitória num pênalti a seis minutos do fim da partida. O ala Brehme não se intimidou diante de Goycoechea, o melhor goleiro da Copa, e converteu a cobrança. A Alemanha juntava-se, assim, a Brasil e Itália, como os únicos países tricampeões do mundo, encerrando com chave de ouro o ciclo de Beckenbauer. Ele tornou-se, ao lado do brasileiro Zagallo, o único a ser campeão mundial como jogador e técnico. Ao fim da Copa, o Kaiser aceitou convite para treinar o Olympique Marseille, da França, onde seria campeão da Liga nacional logo em sua primeira temporada.

Falcão

Foram poucas as saudades deixadas por Sebastião Lazzaroni em sua passagem pela seleção brasileira. Em 1990, o Brasil iniciara sua entrada na era da globalização, sobretudo com a chegada ao poder de Fernando Collor, que ficou conhecido por escancarar o país para as importações inconseqüentes. Nem o futebol brasileiro, então tricampeão do mundo, passou impune pelo oba-oba das supostas maravilhas do mundo exterior. Lazzaroni quis importar o conceito do suposto “futebol moderno”, tentando fazer de Mauro Galvão nosso líbero à la Baresi, numa geração de duvidosos talentos, como Alemão, Tita e Bismarck. O resultado, no Mundial, não poderia ser outro que não o da tragédia anunciada (na preparação, a seleção chegou a ser derrotada num jogo-treino contra um catadão de atletas amadores da Umbria, região central da Itália). A eliminação nas oitavas-de-final contra a rival Argentina significava o pior desempenho canarinho desde a Copa de 1966, na Inglaterra. Em busca de uma reformulação que voltasse a credenciar o Brasil como primeira potência do futebol mundial, em vistas à Copa de 1994, a CBF apostou em Paulo Roberto Falcão. Sua bela história como jogador, com direito ao título de Rei de Roma (quando de sua passagem pelo time grená), poderia suprir as eventuais inabilidades como técnico, função que jamais exercera. Era essa a aposta.

Ousadia, de fato, não faltou ao novo comandante. Falcão abdicou da maioria dos medalhões que fracassara na Itália, como Dunga, Silas, Valdo e Müller – embora alguns deles até voltassem a ser chamados a partir da queda de Falcão e da chegada de Carlos Alberto Parreira. O problema do ex-jogador do Internacional foi ter sido convocado para a missão numa época em que o futebol brasileiro se ressentia de uma boa safra de jogadores. Falcão teve o mérito de ter sido o primeiro a convocar Mauro Silva e Cafu, que se tornariam referências na conquista do tetracampeonato mundial, em 1994. Mas a maior parte dos atletas que formaram sua base não conseguiu desempenhar um futebol de alto nível, que legitimasse suas convocações. A imensa lista incluiu, entre outros, os goleiros Velloso e Sérgio; os zagueiros Paulão, Cléber e Wilson Gottardo, os laterais Gil Baiano, Cássio, Lira, Odair e Balu; os meio-campistas Valdir, Donizete Oliveira, Moacir, Luís Henrique, Neto, Cuca, Mazinho Oliveira, Márcio e Geovani; e os atacantes Valdeir, Charles, Paulo Egídio, Nilson, João Paulo, Dener e Silvio.

O primeiro sinal de que os escolhidos por Falcão não insinuavam dias melhores para o nosso futebol pôde ser visto logo na estréia. No dia 12 de setembro de 1990, em amistoso contra a Espanha, em Gijón, o Brasil não viu a cor da bola e a Fúria fez fáceis 3 a 0, com uma péssima atuação do goleiro Velloso, que comprometeria seu futuro na equipe. Até o final daquele ano, a seleção brasileira faria mais três amistosos oficiais, sem conseguir fazer um gol sequer. O consolo é que a equipe não perdeu: foram três heróicos empates sem gols, contra Chile (dois jogos) e México. O primeiro a marcar oficialmente na era Falcão foi o meia Neto, num amistoso contra o Paraguai, já no ano de 1991. A primeira vitória só viria na sétima apresentação, num amistoso contra a Romênia, em Londrina: um pálido 1 a 0, gol de Moacir.

Os desempenhos sofríveis perduraram durante a Copa América de 1991, disputada no Chile, na qual o Brasil defendia o título conquistado na edição anterior, sob a batuta de Lazzaroni. O time ficou com o vice-campeonato, depois de uma derrota por 3 a 2 para a Argentina. Falcão, aliás, não conseguiu vencer os hermanos como técnico: em outros dois confrontos contra eles, foram dois empates (3 a 3 e 1 a 1). Para quem chegava justamente para apagar a eliminação brasileira na última Copa (aquela do fatídico gol de Caniggia), três oportunidades perdidas não seriam facilmente assimiladas pela CBF, que demitiu Falcão. Sob seu comando, o Brasil fez 16 jogos, com 6 vitórias, 7 empates e 3 derrotas. Foi substituído interinamente por Ernesto Paulo e, em seguida, por Carlos Alberto Parreira.

Rudi Völler

Depois de vencer a Eurocopa 1996, com uma forte seleção que contava com nomes do quilate de Mathias Sammer, Jürgen Klinsmann e Olivier Bierhoff, a seleção alemã chegava à edição seguinte do torneio, co-sediado por Holanda e Bélgica em 2000, com um natural favoritismo.

Mas, sem uma vitória sequer diante de Portugal, Romênia e Inglaterra, o escrete germânico voltou mais cedo para casa, contribuindo para o calvário do então técnico Erich Ribbeck. Este, demitido, acabou substituído pelo ex-atacante Rudi Völler, a quem a DFB (Confederação Alemã de Futebol) apostava num trabalho de longo prazo – fecharam contrato até 2006, em vistas à Copa que o país sediaria. A intenção parecia evidente: repetir a bem-sucedida experiência de Franz Beckenbauer.

Foi na era Völler que se desenvolveu a geração de jogadores que formaria a base alemã nas conquistas do vice-campeonato mundial de 2002 e da terceira posição na edição seguinte, tendo como principais representantes Oliver Kahn, Torsten Frings, Michael Ballack, Oliver Neuville e Miroslav Klose. Os atletas se identificavam bastante com o estilo “boleirão” de Völler, além de o respeitarem por seu currículo decididamente vencedor: foi o parceiro de Klinsmann no ataque campeão do mundo em 1990 e fez história nos clubes que defendeu: Werder Bremen, Roma, Olympique Marseille e Bayer Leverkusen.

Völler chegou a balançar nas Eliminatórias da Copa de 2002, quando seu time tomou 5 a 1 da Inglaterra em plena Munique. Mas recuperou a confiança na repescagem, quando a Nationalelf não titubeou frente à Ucrânia e ficou com a vaga. Os germânicos chegaram ao Mundial, organizado por Japão e Coréia do Sul, com a ambição de se redimir das duas últimas participações, quando foram eliminados, em ambas, nas quartas-de-final. Era um histórico recente pobre para uma seleção que, entre 1982 e 1990, fora finalista em todas as edições (sendo campeã na última). Em 2002, se não chegou a mostrar um futebol inesquecível, conseguiu, ao menos, alguns insights de brilhantismo, notadamente na goleada por 8 a 0 sobre a Arábia Saudita, na primeira fase – maior vitória alemã na história das Copas. Kahn, no auge da forma física, fechava o gol – foi apontado como o melhor atleta do torneio, não só entre os goleiros. O problema é que aquele foi o ano do revival de um certo fenômeno, e os alemães não suportaram a superioridade do Brasil de Luiz Felipe Scolari, perdendo a decisão por 2 a 0. O revés não comprometeu a confiança da DBF no trabalho de Völler, que seguiu prestigiado no cargo.

Mas isso só até a Eurocopa 2004. Com campanha similar à que custou o emprego do antecessor Ribbeck, o selecionado alemão não conseguiu passar da primeira fase. Foram três jogos sem nem ao menos um triunfo, num grupo que contava com República Tcheca, Holanda e Letônia. Orgulhoso, Völler optou por não permanecer, apesar das tentativas da DBF de fazê-lo repensar a decisão, que se revelou irrevogável. Völler acumulou 29 vitórias, 11 empates e 13 derrotas. Seu substituto foi o ex-companheiro Jürgen Klinsmann.

Zico

Depois de atuar como diretor-técnico do Kashima Antlers, Zico foi convidado, em agosto de 2002, para ser o treinador da seleção japonesa, logo após a participação da equipe na Copa do Mundo que o próprio Japão co-organizou com a Coréia do Sul. Os nipônicos tiveram um desempenho razoável no Mundial em casa, sob o comando de Philippe Troussier, classificando-se em primeiro lugar na primeira fase, mas caindo já nas oitavas-de-final frente à Turquia. O nome de Zico foi uma indicação direta de Saburo Kawabuchi, vice-presidente da JFA (a federação local), que queria um profissional que conhecesse a fundo o futebol japonês, de modo a preparar um selecionado competitivo para o Mundial da Alemanha – no Japão, o brasileiro é chamado de “Kami Sama” (Deus) desde que aportou por lá em 1991, para popularizar o futebol.

Aliás, evitar a adoração dos atletas em relação à sua figura de ídolo-mor foi o primeiro desafio do trabalho de Zico. Com ele, os japoneses, aos poucos, aprenderam que a derrota e os erros fazem parte do processo de aprendizagem – que perder uma penalidade máxima, por exemplo, não pode ser motivo de vergonha. Assim, Zico “humanizou” seus comandados e também instituiu um estilo de jogo mais ofensivo em relação aos tempos de Troussier.

Assim, embalado pela conquista da Copa da Ásia, em 2004, o Japão não teve problemas nas Eliminatórias da Copa de 2006, terminando a terceira (e última) fase na liderança do grupo 2, com 15 pontos, à frente de Irã (que também se classificou), Bahrein e Coréia do Norte. Até por essa boa campanha prévia, a participação na Copa acabou sendo decepcionante: o Japão não conseguiu uma vitória sequer, no grupo contra Brasil, Austrália e Croácia, encerrando o sonho de melhorar o desempenho de quatro anos antes. Assim, o próprio Zico optou por encerrar seu ciclo à frente da equipe, transferindo-se, pouco depois, para o Fenerbahçe, da Turquia. Em seu lugar, a JFA colocou o bósnio Ivica Osim.

Marco van Basten

Os entusiastas do bom futebol sempre lamentaram a aposentadoria precoce, por problemas de lesão, do atacante Marco van Basten, grande personagem na maior (única?) conquista da seleção holandesa: a Eurocopa 1988. Por isso, não foi sem entusiasmo que público e crítica saudaram a chegada do ex-atacante do Milan ao cargo de treinador da Laranja, em julho de 2004, para substituir Dick Advocaat. Na ocasião, Van Basten tinha apenas 39 anos e vinha atuando como assistente-técnico do Ajax, clube onde também fizera história como jogador.

Advocaat pediu demissão após a Eurocopa 2004. A Holanda fizera campanha regular na primeira fase, classificando-se em segundo lugar, no grupo em que contava também com República Tcheca (que terminou em primeiro), Alemanha e Letônia. Nas quartas, superou a Suécia, mas acabou eliminada por Portugal de Felipão nas semifinais. Em busca de uma campanha digna na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, Van Basten optou em deixar de fora velhos medalhões – como Stam, Seedorf, Davids, Kluivert e Hasselbaink – para apostar em outros nomes. Entre eles, estavam Van Persie, Van Nistelrooy e Robben.

Com essa renovação, a Holanda chegou à Copa credenciada com o favoritismo trazido das Eliminatórias, quando fez, de longe, a melhor campanha: em 12 jogos, a Laranja não perdeu nenhuma partida e sofreu apenas três gols. No Mundial, havia o temor por ter caído naquele que era considerado o “grupo da morte”, com a bicampeã Argentina; a melhor seleção africana, Costa do Marfim; além da Sérvia e Montenegro. Passou em segundo lugar, com a mesma pontuação dos argentinos, mas teve pela frente, nas oitavas, a mesma pedra no sapato da Eurocopa: a seleção portuguesa. As equipes fizeram o melhor confronto do Mundial (só comparável à semifinal entre Alemanha e Itália), com muito equilíbrio e, especialmente, virilidade (com direito a Cristiano Ronaldo saindo contundido a quatro minutos de jogo). Mas a estrela de Felipão novamente brilhou e, com gol de Maniche, Portugal seguiu e a Holanda voltou para casa.

Em 2008, Van Basten sonhava em repetir, como treinador, o mesmo feito obtido como atleta há 20 anos, quando, com um inacreditável sem-pulo, vazou a muralha soviética Dasaev, decretando a vitória e o título da Euro para a Laranja. Na primeira fase, não teve problemas para vencer os três confrontos contra Itália, Romênia e França. Mas, como a vingança é um prato que se come frio, a Rússia cruzou o caminho dos holandeses nas quartas e impôs 3 a 1, revelando ao mundo o talento de Pavlyuchenko e Arshavin. Se Van Basten já havia anunciado com antecedência que deixaria o comando da seleção após a Euro, a eliminação precoce, naturalmente, não o fez mudar de idéia. Seus números foram de 52 partidas, com 35 vitórias, 11 empates e 6 derrotas. Seu sucessor foi Bert van Marwijk.

Jürgen Klinsmann

Mesmo sem nunca ter atuado como treinador, o bom moço Jürgen Klinsmann, campeão mundial como jogador na Copa de 1990, na Itália, assumiu o comando da Nationalelf em 26 de julho de 2004. Há 20 anos, quando topara o mesmo desafio, Franz Beckenbauer contava com uma geração extremamente talentosa, liderada pelos meias Rummenigge e Matthaus. Mas, no caso de Klinsmann, o buraco era bem mais embaixo. A Alemanha vivia uma verdadeira entressafra de craques, que fazia com que os principais veículos da imprensa local temessem por uma humilhante participação alemã na Copa do Mundo que o próprio país sediaria dali a dois anos. A Klinsmann foi dada a mesma orientação feita por Stanley Kubrick a Jack Nicholson na rodagem de O Iluminado: “faça algo brilhante”.

E, mesmo cercado por desconfianças, ele fez. Boa parcela da onda de críticas que recebeu no início do trabalho tinha a ver com o fato do ex-jogador sequer residir em solo alemão. Desde que encerrara a carreira como atleta, Klinsmann se radicara nos Estados Unidos, onde tocava uma empresa de consultoria de marketing esportivo, com participação nos Los Angeles Galaxy – muito antes, portanto, de Beckham dar ao clube evidência internacional. A aposta era que sua personalidade vibrante pudesse, de alguma maneira, instigar a necessidade da superação como forma de minimizar as limitações técnicas do elenco, formado essencialmente por promessas como Schweinsteiger e Podolski.

Para ajudá-lo na missão, Klinsmann colocou caras novas em posições de confiança em sua comissão, como o também ex-jogador Olivier Bierhoff, que injetou frescor numa estrutura tradicionalmente conservadora e traumatizada pela indigna performance na Eurocopa 2004 (quando não passou da primeira fase). Apropriando-se do estilo Felipão, Klinsmann conseguiu, em pouco tempo, recuperar a auto-estima da seleção, disseminando por todo o povo germânico aquele pegajoso sentimento de “eu acredito” para o Mundial 2006, especialmente após obter um decente terceiro lugar na Copa das Confederações, um ano antes.

As boas vibrações emanadas por Klinsmann tomaram conta do país e ficaram simbolizadas num gesto do sempre arrogante Oliver Kahn. Considerado o melhor jogador da Copa de 2002, o arqueiro não se conformava em ser reserva de Jens Lehman no Mundial em casa. Disse que a única coisa que o titular fazia melhor que ele era bater tiro de meta. No entanto, com as atuações impecáveis do concorrente, Kahn se rendeu e chegou a ser flagrado pelas câmeras de TV com palavras de incentivo a Lehman antes da disputa de pênaltis contra a Argentina, pelas quartas-de-final.

Antes, na primeira fase, a Alemanha já tinha feito campanha impecável, vencendo os três jogos, com destaque para a estréia, quando mostrou ao mundo seu cartão de visitas com um vigoroso 4 a 2 sobre a Costa Rica. Nas oitavas, os alemães também não tiveram grandes problemas para superar a Suécia, por 2 a 0. Na fase seguinte, possivelmente estimulado pelas palavras do “amigo” Kahn, Lehmann defendeu as cobranças de Ayala e Cambiasso contra a Argentina, após empate por 1 a 1 no tempo normal, e garantiu o time nas semifinais, onde perderia para a Itália, futura campeã. Mas os subordinados de Klinsmann não abririam mão da honrosa terceira posição, ao bater a seleção portuguesa, de Scolari, por 3 a 1. Dias depois, Klinsmann anunciava sua saída, sob a justificativa de querer se dedicar à família. Seus números foram de 21 vitórias, 7 empates e 6 derrotas. Joachim Löw, que trabalhara com ele como assistente-técnico, assumiu o cargo vago.

Roberto Donadoni

Substituir o homem que havia dado ao selecionado italiano o quarto título mundial na Copa da Alemanha, colocando o futebol do país como o segundo mais vencedor do planeta, foi o desafio que Roberto Donadoni aceitou a partir de 13 de julho de 2006. O ex-jogador do Milan não era totalmente verde na função de treinador, mas suas experiências eram bem modestas: treinara, em 2001, o pequeno Lecco, da Série C italiana e, na primeira divisão, Genoa e Livorno. Mas, no último, acabou demitido após fraco desempenho do time na temporada 2005/06. Estava desempregado quando assumiu a Azzurra, no lugar do demissionário e supervencedor Marcello Lippi.

Aliás, seria justamente o espectro de Lippi que acompanharia Donadoni durante todo o trabalho. Por ter conseguido o excepcional triunfo no Mundial em meio a uma série de desconfianças envolvendo o futebol italiano – que sofria com o escândalo da manipulação dos resultados – Lippi, indiretamente, fez com que a opinião pública passasse a exigir do sucessor os mesmos resultados de alto nível. Tropeços não seriam facilmente assimilados. E a primeira competição a testar Donadoni seria a Eurocopa 2008, organizada por Áustria e Suíça. Com o status de campeã do mundo, a Itália chegava com grande favoritismo, além da gana de tentar apagar a pífia participação na edição anterior, em 2004. Na ocasião, os italianos conquistaram a mesma pontuação de Suécia e Dinamarca no grupo C, mas perderam para ambos no saldo de gols. Assim, foram eliminados logo na primeira fase.

Em 2008, a Azzurra foi melhor, mas não muito. Ficou em segundo lugar na fase de grupos, com a Holanda em primeiro, superando Romênia e França. Mas, já nas quartas-de-final, os italianos tiveram pela frente a seleção espanhola (que terminaria a competição com o título). O empate sem gols no tempo normal levou a decisão para os pênaltis. Diferentemente do que ocorrera na Copa, quando superaram os franceses e quebraram a maldição de sempre sucumbir neste tipo de disputa, desperdiçaram cobranças nos pés De Rossi e Di Natale e voltaram precocemente para casa.

Mesmo com o fracasso em Portugal, Donadoni tinha a ambição de continuar no comando. Mas o pensamento não foi compartilhado pela FIGC (Federação Italiana de Futebol), que optou pela demissão do ex-jogador, substituído (veja só!) pelo mesmo Marcello Lippi. Os números de Donadoni foram: 23 jogos, com 13 vitórias, cinco empates e cinco derrotas.

Hugo Sánchez

O maior jogador da história do futebol mexicano não era exatamente um novato na carreira de treinador quando assumiu a seleção do país, em 16 de novembro de 2006. Acumulava trabalhos anteriores como “comandante” em duas equipes locais, o Pumas e o Necaxa. Mas, por sempre ter falado publicamente sobre o desejo de treinar a equipe nacional, sabia-se que a passagem de Hugo Sánchez pelos clubes não passaria de um processo transitório, quase um laboratório, para lapidá-lo como o líder de um México competitivo na Copa do Mundo de 2010. Não foi bem assim.

Hugo Sánchez chegava para substituir o argentino Ricardo Lavolpe, que fracassara nos dois projetos a que se propôs: trazer uma medalha dos Jogos Olímpicos de Atenas (2004) e alcançar, no mínimo, as quartas-de-final da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, feito que parecia plausível, em vista da evolução do futebol mexicano em anos recentes. Na Grécia, o México sucumbiu logo na primeira fase, num grupo em que se classificaram Mali e Coréia do Sul. No Mundial, os cucarachas ficaram pelo caminho nas oitavas, ao perder para a Argentina, por 2 a 1. Hugo Sánchez era o mais ferino opositor ao trabalho de Lavolpe.

Os dois, na verdade, eram (são) rivais de longa data, dos tempos em que Sánchez era atacante do Pumas e Lavolpe, goleiro do Atlante. O principal demérito da “gestão Sánchez” foi, justamente, o de ter transformado o projeto da seleção numa resposta pessoal contra Lavolpe. Pudera: na temporada 1979/80, às vésperas de uma partida entre suas equipes, eles trocaram provocações. Lavolpe dizia que Sánchez era uma “vedete que buscava gols espetaculares para sair na foto”, e garantia que não seria vazado por ele. Sánchez respondeu no mesmo tom, garantindo que faria quantos gols quisesse contra o rival. O jogo terminou em 3 a 2 para o Pumas – com três gols de Sánchez. Meses depois, em novo embate entre as equipes, o Pumas voltou a vencer, desta vez por 4 a 1 – novamente, com três gols do goleador.

O estilo falastrão de “Hugol”, que, em certa medida, lembra o de Renato Gaúcho, também nunca foi bem digerido pela imprensa local. Chegou a prometer que colocaria o México entre as maiores potências da bola. Mas o fraco futebol desempenhado na Copa Ouro 2007, quando o time não encaixava nem mesmo diante de adversários como Guadalupe, Cuba e Panamá, começou a minar a boa vontade dos mexicanos quanto ao trabalho de Sánchez. A situação do ex-astro do Real Madrid piorou quando o México perdeu a final para os Estados Unidos, por 2 a 1, em Chicago, completando uma seqüência de nove jogos sem vencer os rivais em solo americano.

O estopim foi o fracasso mexicano no Pré-Olímpico. Sánchez prometera a classificação, mas a seleção acabou eliminada num grupo em que empatou com o Canadá e foi superada pela Guatemala. Na hora decisiva, precisando vencer o Haiti por seis gols de diferença, só fez 4 a 1 e deu adeus ao sonho olímpico. Nem a ausência do jovem Giovanni dos Santos, então no Barcelona (hoje no Tottenham), serviu como justificativa para o fracasso. Após um ano e quatro meses, ele acabou demitido do cargo pela FMF (Federação Mexicana de Futebol). Foram 12 vitórias, 3 empates e 8 derrotas. Em seu lugar, assumiu o sueco Sven-Goran Erikson.

Outros casos

Em 1988, o francês Michel Platini foi cooptado às pressas para recolocar a seleção do país nos eixos e tentar assegurar a vaga francesa para o Mundial de 1990, na Itália. Até começou bem nas Eliminatórias, quando seus comandados venceram, na estréia, a Noruega. A partir de então, seguiram-se resultados ruins, que incluíram derrota para a antiga Iugoslávia e empate com a pouca tradicional seleção do Chipre. Platini – que muitos consideram ter sido superior a Zinedine Zidane com a bola nos pés – havia, justamente, brilhado na Copa anterior como jogador, disputada no México, sendo um dos protagonistas na condução do time à honrosa terceira colocação (depois de despachar o Brasil nas quartas). Por isso, a perda da vaga francesa na Copa da Itália foi o estopim do processo de desgaste do ex-jogador da Juventus de Turim no comando da seleção. Ele ainda permaneceria por mais dois anos, quando novo revés, desta vez para a Dinamarca na primeira fase da Eurocopa 1992, o fariam declinar do trabalho. A partir dali, Platini abandonaria a carreira de técnico para se tornar dirigente esportivo.

Já em 1998, logo após a discreta participação da Azzurra na Copa do Mundo da França (caiu nas quartas-de-final frente à seleção anfitriã), a federação italiana de futebol resolveu apostar no lendário Dino Zoff para técnico, em lugar de Cesare Maldini. Com o status de ter sido campeão mundial em 1982, a aposta era que o ex-goleiro conseguisse recuperar a auto-estima italiana a partir de um bom papel na Eurocopa 2000. E conseguiu: junto com a Holanda, fez a melhor campanha da primeira fase e, nos mata-matas, eliminou Romênia e a própria Holanda, para chegar à decisão contra a França. A chance de devolver a eliminação no Mundial, no entanto, foi desperdiçada no minuto derradeiro do jogo, quando os franceses chegaram ao empate e alcançaram o triunfo na finada morte súbita. Zoff não resistiu ao resultado adverso e pediu demissão, sendo substituído por Giovanni Trapattoni.

Outro caso é o de Hristo Stoichkov. Lenda do futebol búlgaro, ele assumiu a seleção de seu país dez anos depois de ter sido o artilheiro da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, quando ajudou a Bulgária a alcançar às semifinais. Chegou para substituir Plamen Markov, que se demitiu do cargo após o fracasso búlgaro na Eurocopa 2004. Ali, a Bulgária acumulou três derrotas em três jogos, incluindo um sonoro 5 a 0 ante a Suécia. O principal objetivo do ex-atacante do Barcelona era classificar a Bulgária para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Fracassou: asseguraram vaga para o Mundial Croácia e Suécia, ambas com 24 pontos, contra apenas 15 da Bulgária, que ficou na terceira posição de sua chave. Mesmo assim, Stoichkov seguiu prestigiado e teve uma segunda chance nas Eliminatórias da Eurocopa 2008. No entanto, a campanha hesitante no torneio comprometeu sua permanência. A Bulgária estava na terceira posição do grupo C, com nove pontos – cinco de diferença para a líder Holanda – quando Stoichkov aceitou trocar a seleção pelo Celta de Vigo, da Espanha. Foi substituído no cargo por outro ex-jogador: Dimitar Penev, que, com o legado de Stoichkov, não conseguiria colocar a Bulgária na Euro.

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