Como um palmeirense, um santista e um são-paulino secaram o Corinthians

Os secadores da nossa história marcaram às 21h para secar o Corinthians na primeira e única final da Libertadores na Argentina, contra o Boca Juniors. Fora as paulistadas e os sotaques naturais, que conheço pouco, vou tentar contar um pouco como cada um se sentiu nessa sombria noite para os pecadores. Quero dizer, para os três secadores.
Corintiano é maioria em São Paulo. Foram pouco mais de dois mil na Bombonera. Muito pouco perto dos mais de 40 milhões de habitantes. Ou seja: a boa era ver o jogão dentro de casa.
E eles se preparam para a importante tarefa. Compraram Quilmes a rodo, a cerveja que virou marca do Boca depois de tantos anos na camisa dos xeneizes. A primeira parte os três amigos já se sentiam fazendo.
– E aí, mano, tô cagado do Corinthians ser campeão, meu. Tá foda isso já. Fiquei dois dias sem dormir – começa o palmeirense, oferecendo o primeiro brinde.
– Um brinde a quê? – interfere o santista – Mano, eu sou Peixe, meu. Tricampeão, do Pelé, do Neymar, do Allan Kardec. Não vou brindar ao Boca. (Kardec já foi meio deboche do santista).
– Que os nossos sejam sempre nossos, que os delas sejam nossos e que os nossos nunca sejam … – esbalda-se o são-paulino até ser interrompido.
– PARA, para, mano. Que porra é essa? Isso é coisa de mina. Sai daí. Tricolor é foda, meu! – reagiu o palmeirense. – Bora, senta aí, vamo ver o jogo.
O Boca pressiona, tem mais posse de bola, mas neca de pitibiriba de ameaçar mais. Entediado, o santista reclama.
– Ah, meu, não tem magia. Que saudade dos meninos da Vila, viu?
– Também acho isso tão chato. Pô, mano, ganhei três vezes isso aí. Na verdade, vim aqui para ver “Gabriela”. Bora nessa? – convida o tricolor paulista.
– Iiiiihhh – dizem os dois amigos olhando desconfiados para o são-paulino.
O primeiro tempo vai se arrastando, a defesa do Corinthians permanece inexpugnável e os amigos, temerosos, se irritam.
– Mano, vem treta aí. Esse time dos gambás é muito embaçado, meu! – lamenta o palmeirense.
Mas finalmente Roncaglia rompe as redes da Bombonera e inaugura o marcador a favor.
– Caralhoooooo, meu!!!! – berra o palmeirense.
– Onde, onde, onde? – pergunta o são-paulino, já abraçando maliciosamente os amigos.
– Sai pra lá, porra, seu bambi, gooool dos caras. Puuuuuta, mano, nunca eles vão ganhar isso. Não tem passaporte. Só no playstation-tion-tion, só no playstation-tion-tion – zoa o palmeirense, delirantemente.
– Meu, e pensar que demos mole para esse time de merda. Puta que pariu, viu? – lembra o santista. – Culpa do Mano, do Andres, daquele juiz desgraçado.
Mas de repente, não mais que de repente, Romarinho surge do nada, sai na cara do gol, encobre torto o goleiro, mas as mãos de Órion, sapecamente, colocam a bola para dentro.
– Puuuta mano, não é possível. Não acredito nisso – entrega os pontos o palmeirense.
– Que cagada. Lamentável – conforma-se o santista. E baixa a cabeça.
– Nossa, meu. Que merda. Mas… olha aí, que horas são?! Putz, vai começar “Gabriela”…
O palmeirense e o santista olham para o são-paulino com vontade de atinar fogo no rapaz.
– Falando em atinar, seu locutor, esse Romarinho é demais, mano. Ele pode cantar: “Eu nasci assim, não atinava em nada, hoje eu sou Romarinho, Romarinho, ê camaradas” – tira da cartola o são-paulino, finalmente com a atenção calma dos amigos.
– Mano, fim de semana ele meteu dois na gente. Agora, depois dessa de hoje, pra ele meter duas, três nessa “Gabriela” do bambi não duvido mais nada – fecha a tampa o palmeirense.
– Chupa, seu Nacib, chupa, turquinho – diverte-se o santista.
– Onde, onde, onde? – pergunta o tricolor…



