Chade: vida a um coração morto

O que podemos esperar da seleção de futebol de um país que vive em uma guerra civil, tem um dos piores índices de IDH do mundo e que é chamado de o “coração morto da África”? A resposta poderia ser a pior possível, mas a seleção de futebol do Chade aos poucos vai mostrando que, mesmo com as diversas dificuldades do povo chadiano, pode chegar a uma posição de respeito dentro do continente africano.

Localizado bem no centro da África, sem saída para o mar e com amplas zonas desérticas, o Chade tem fronteiras com a Líbia, ao norte, Sudão a leste, República Centro-Africana, a sul, Camarões e Nigéria, à sudoeste, e Níger, a oeste. Vive predominantemente da agricultura e pecuária de subsistência e tem algum destaque na produção local de algodão, amendoim, tabaco e petróleo para exportação.

Com uma população de cerca de 10 milhões de habitantes, o Chade está na 170ª posição do ranking de IDH da ONU, sendo um dos piores países do mundo no quesito. Isso está diretamente ligado à história do país, que, como na maioria das nações africanas, é marcada pela exploração dos países desenvolvidos e confrontos internos.

Apesar de ter sido uma colônia árabe durante toda a sua história, o Chade foi submetido ao domínio francês no século XIX, quando os europeus iniciaram a colonização do território com o apoio dos sultões locais. O país africano permaneceu sob a jurisdição da França até 1958, quando se tornou uma República autônoma dentro da Comunidade Francesa e um país completamente independente em 1960. Desde então a nação africana luta para manter a unidade entre os povos muçulmanos de língua arábica do norte, e os bantos, mais desenvolvidos economicamente, do sul e do oeste.

No entanto, conflitos com a Líbia em 1980 e entre milícias locais entre os anos de 1982 e 1995 levaram o Chade a uma época de terror que minou as bases sociais do país, prejudicando ainda mais o desenvolvimento do futebol na localidade. Após uma aparente reestruturação e período de tranqüilidade em seu território, a paz no Chade sofreu novo revés em 2005 quando uma nova guerra civil, que dura até hoje, eclodiu no país envolvendo forças governamentais e diversos grupos rebeldes, dentre os quais está a milícia árabe Janjaweed, abertamente apoiada pelo governo do Sudão.

Futebol no Chade

Apesar do futebol ser de longe o esporte mais popular e praticado do Chade, os resultados obtidos, tanto pelos clubes locais, quanto pela seleção nacional são pouco expressivos. As maiores agremiações do país são da capital N'Djamena, com destaque para o Renaissance FC, dono de 5 títulos nacionais, e para o FC Tourbillon, vencedor de 4 campeonatos. Mesmo assim, nenhuma equipe do Chad conseguiu sequer chegar a uma semifinal da CAF Champions League ou da CAF Confederation Cup, as duas principais competições internacionais envolvendo os clubes do continente africano.

Quando falamos da seleção chadiana, apelidada de Sao, a história não é muito diferente. Apesar da sua associação de futebol ter sido fundada em 1962, a entidade só foi se tornar filiada à FIFA em 1988 e à CAF em 1992. A primeira participação do escrete nacional em uma eliminatória para a Copa Africana de Nações aconteceu só em 1992, enquanto a primeira tentativa de qualificação para uma Copa do Mundo foi acontecer nas eliminatórias de 2002. Esse atraso em relação a outras seleções do continente contribuiu muito para que o Chade ostente hoje a inglória condição de nunca ter participado de uma Copa Africana de Nações e tampouco de uma Copa do Mundo. Seus melhores resultados foram dois vice-campeonatos na UDEAC Championship, torneio disputado entre as seleções do Chade, Congo, Guiné Equatorial, Camarões, Gabão e República Centro-Africana, e um outro segundo lugar na CEMAC CUP, sucessora da UDEAC e disputada pelas mesmas nações.

Mesmo com o fraco desempenho mostrado até aqui, a seleção chadiana vem colhendo bons resultados nos últimos tempos. Atualmente os Sao se encontram na 119ª colocação do ranking da FIFA, à frente de seleções com mais tradição como El Salvador, que já participou de duas Copas do Mundo, Luxemburgo, que já chegou a uma quarta-de-final de Eurocopa, e da Índia que, mesmo não tendo muita tradição no esporte, já foi vice-campeã da Copa da Ásia e tem muito mais condição econômica do que o Chade. Pode parecer pouca coisa, mas para um País que enfrenta grandes turbulências dentro de seu território e que participa das eliminatórias da Copa do Mundo e da Copa da África há menos de 20 anos, é muita coisa.

Esse desempenho ascendente mostra que o Chade, aos poucos, vai começando a desenvolver seu futebol, principalmente através da experiência internacional trazida pelo treinador Jean Paul Akono, medalha de ouro nas Olimpíadas de 2000 com a seleção de Camarões e que teve uma curta passagem pelos Sao em 2002, e pela presença de jogadores chadianos em campeonatos europeus. São os casos do atacante Misdongard Betoligar, 23 anos, que já jogou no Partizan Belgrado da Sérvia, e do defensor Azrack-Yassine Mahamat, de 20 anos, que atua no Auxerre da França.

Contudo há que se dizer que a organização administrativa do esporte no país ainda é deficitária. Por conta de um caso de ingerência do governo na federação de futebol, a seleção nacional chegou a ser suspensa pela FIFA em março de 2008, sendo absolvida posteriormente em maio do mesmo ano. Outro caso de questões políticas que prejudicou a seleção do Chade foi o fato da federação ter se recusado a jogar contra o Sudão no território vizinho, mesmo com garantias de que a segurança chadiana estaria garantida. A atitude fez com que a seleção fosse excluída das eliminatórias da Copa Africana de Nações de 2010, adicionando pelo menos mais uma edição sem a participação da equipe nacional.

Ainda não foi dessa vez

Mesmo com a punição para a Copa Africana de Nações, o Chade pôde disputar uma vaga para a Copa do Mundo de 2010 (a primeira fase de qualificação para os dois torneios ocorre dentro das eliminatórias para a Copa). A seleção até obteve bons resultados, como as vitórias sobre o Congo e o Sudão que a colocaram em condições de classificação até a última rodada, mas no final foi eliminada no último sábado, 11 de outubro, com a derrota por 2 a 1 para a seleção de Mali.

Agora os olhos se voltam para 2012, com a possibilidade dos Sao conseguirem enfim uma classificação para a Copa Africana de Nações que será realizada no Gabão e na Guiné Equatorial.

O futebol no Chade aos poucos vai demonstrando uma grande melhora. Resta o aspecto administrativo e sobretudo o fim das tensões sociais, que englobam todo o país, se resolverem para que a equipe possa finalmente ter resultados dignos no mundo da bola.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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