Cem Anos de Paixão
Um dos maiores clichês do futebol é que seja um esporte de homem. No Brasil, principalmente, a mulher só tem destaque quando exibe seus predicados físicos nas arquibancadas ou nas comemorações, ao som de uma batucada e com roupas um número menor que o manequim, em época de Copa do Mundo. Na imprensa, poucas são as jornalistas respeitadas, mesmo que muitas mostrem mais conhecimento futebolístico do que marmanjos barbados. A carioca Cláudia Mattos é um bom exemplo de mulher que não fala bobagem quando o tema é o ludopédio bretão.
“Cem Anos de Paixão” é um livro que surgiu a partir da dissertação de mestrado de Cláudia Mattos, o que poderia causar uma leitura acadêmica e chata. Não é o que acontece. Com muita clareza e fluidez, a jornalista relata a história da formação dos quatro grandes clubes do futebol carioca, traçando um paralelo com a história da cidade do Rio de Janeiro.
O futebol surge no Rio em 1897, quando sua elite vivia como se estivessem na Europa., conta Cláudia Mattos. Era a belle époque. O Rio esforçava-se para ser moderno e cosmopolita, com roupas francesas e sob um sol senegalês. As comunidades se reuniam em clubes para o bridge ou para o remo. E o futebol chegou como esporte de elite. Citando importantes autores o livro conta como foi tal formação e trilha a mitologia do futebol carioca.
Não podia ser diferente, o autor mais citado é o tricolor Nelson Rodrigues. Trechos dos clássicos “À Sombra das Chuteiras Imortais” e “A Pátria em Chuteiras” dão ainda mais um toque de humor à obra. “Em futebol, o pior cego é o só vê a bola” é a frase de Nelson Rodrigues que abre o livro. A autora trata da história de Fluminense, Flamengo, Vasco e Botafogo, sem se prende a craques e gols do passado, mostrando que não é cega.
No começo do século passado, o futebol era mais lido e ouvido que isto, pois televisão não existia. E assim os mitos ligados aos clubes de futebol foram surgindo. “Cem Anos de Paixão” recupera o passado glorioso do Rio e de seu futebol e analisa como a paixão atávica reflete nos tempos atuais.
A origem de cada um dos clubes é contada em capítulos que seguem a ordem cronológica de fundação de cada um. O futebol do Rio e o Fluminense, time criado por rapazes bem nascidos e requintados, surgem ao mesmo tempo. De forma exata, Cláudia Mattos narra a origem do apelido “pó-de-arroz”, do qual a torcida tricolor tem certo orgulho. O Rio era uma cidade-elite e o Fluminense representava a aristocracia carioca. O livro mostra como a cidade e o clube das Laranjeiras foram fadados à decadência.
No capítulo do Flamengo, quem não conhece a história descobre que o rubro-negro era um time só de regatas. São desvendadas também as explicações sobre a popularidade desfrutada pelo clube. Outro destaque é a forma como políticos se beneficiaram da popularidade do Flamengo e vice-versa. A jornalista conta que o então presidente do Brasil Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”, doou o terreno da Gávea ao clube das massas.
Foi irresistível falar do mais mítico jogo de futebol do Brasil: o Fla-Flu. Atendo-se ao primeiro Fla-Flu e ao inesquecível “Fla-Flu da Lagoa”, vemos porque este é o clássico do oximoro entre clubes com a mesma origem.
Vasco e a mestiçagem é um capítulo sobre racismo e preconceito no Rio e no Brasil. Para nossa elite, Portugal nem fazia parte da Europa, e os lusitanos fundadores do clube cruzmaltino eram comerciantes ou assalariados da zona norte ou do subúrbio; e o Vasco da Gama era tratado como time pequeno. Com negros no time e contra a aristocracia, o Vasco revolucionou o futebol carioca. Todo o preconceito foi vencido, mostra Cláudia Mattos. Tentaram tirar o clube do campeonato na década de 20, exigindo que todo clube tivesse um estádio próprio. A colônia portuguesa se uniu no que ficou conhecido como “Campanha dos 10 mil” e, em dez meses, construíram o Stadium de São Januário, que por longo tempo foi o maior estádio do país.
Conta o livro que o Botafogo sempre foi mais um time do que um clube, sempre treinando em campos espalhados pelo Rio e até em Niterói. E suas maiores glórias aconteceram na época em que teve General Severiano como sede. Também está nas páginas de “Cem Anos de Paixão” histórias de superstição do Glorioso, dando destaque para o cartola Carlito Rocha e para o cachorro Biriba, responsável – segundo os torcedores – por várias vitórias e títulos do alvinegro. É o folclore botafoguense. Mas o mote principal do capítulo é a ligação do time com a elite intelectual do Rio de Janeiro, mesmo que Cláudia não cite nomes de alguns de seus ilustres torcedores.
De fato, o livro é rico por contar como se formaram as identidades culturais de cada clube carioca, em um texto que agrada tanto aos aficionados por futebol, como quem tem um interesse por história e sociologia. O ponto alto do livro é fugir dos lugares-comuns de alguns almanaques de futebol espalhados pelas livrarias. É um livro que agrada os apaixonados por futebol, independente de qual é sua preferência clubística.