Cartagena: O nanico bate à porta da Liga
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2023%2F04%2FTrivela-Imagem-Padrao.jpg)
O novo e desconhecido Cartagena está perto de realizar uma façanha gigantesca. Maior até que o próprio clube de tem apenas 14 anos e que estreou nesta temporada na Liga Adelante (segunda divisão da Espanha). Há seis rodadas do fim, é o terceiro colocado, e conseguiria a última vaga para a primeira divisão. Caso confirme o acesso, vai faltar espaço no Estádio Cartagonova para receber Messi, Xavi, Kaká e Cristiano Ronaldo.
Por isso, os cuidados são totais. Os dirigentes não falam sobre a próxima temporada para não desmobilizar o grupo. Os jogadores receberam semanas atrás a missão de “dar a vida em campo”. A ordem teve efeito imediato e o time nunca baixou da quarta posição. Venceu os dois jogos contra o rival Múrcia e ficou 11 rodadas sem perder.
A campanha deve-se, principalmente, ao “craque” do clube. Ele não corre, nem marca, tampouco chuta. Apenas observa. E paga. O presidente Francisco Hernández tirou o Cartagena do buraco e prometeu levá-lo ao topo. Só não imaginava que chegaria lá tão rápido.
Mudando a história da cidade
Em Cartagena, cidade do leste da Espanha com 211 mil habitantes, distante 460 quilômetros da capital Madrid, há futebol desde 1903. Mas até 1995, ano da criação do Fútbol Club Cartagena, era um esporte amador. Os clubes não sobreviviam por muito tempo em razão da escassez financeira e da falta de interesse local. Foram criados nada menos do que 12 times em 92 anos. Nenhum vingou.
O passo maior que a perna
O Fútbol Club Cartagena surgiu em julho de 1995, quando o Real Madrid foi campeão nacional pela 26ª vez. O início foi na quinta divisão. Três anos depois, a equipe preta e branca (o uniforme lembra o do Newcastle) já havia pulado para a terceira, um campeonato longo e complicado. Participam 80 times, divididos em quatro grupos regionais, onde jogam em turno e returno.
Os quatro melhores de cada chave avançam para as oitavas de final. Os confrontos, de ida e volta, são definidos por sorteio, assim como nas quartas. E os semifinalistas classificam-se para a Liga Adelante.
Por 10 temporadas o Cartagena viveu isso. Na primeira, em 1999, assombrou ao chegar até as oitavas, quando o objetivo era, simplesmente, não cair. O goleiro era o novato Manuel Almunia, hoje no Arsenal, emprestado pelo Osasuna. Em 2002/03, conheceu uma crise financeira que por pouco não o levou à extinção. Dentro de suas proporções e limites, investiu pesado para voar para a segunda divisão.
Foi um desastre. Dentro de campo, afundou e passou longe dos playoffs. Fora, o dinheiro evaporou. Os cofres estavam vazios. A expectativa criada fez com que a direção gastasse até o que não podia.
Sem solução, a saída era comunicar a Real Federação Espanhola de Futebol da desistência em continuar disputando jogos oficiais. Mas o rico empresário Francisco Hernández foi mais rápido. Com dinheiro na mão, bateu na porta da direção e pediu para ser presidente. Dizia saber como evitar o fim.
Antes e depois de Hernández
Com Hernández no comando, o Cartagena se profissionalizou. Ele bancou salários e cobriu dívidas. Correu atrás de patrocínios mais poderosos e de jogadores famosos para atrair – e criar – torcedores. Era um processo demorado. O objetivo final: a segunda divisão.
Depois de chegar perto em 2006, o Cartagena subiu em 2009. Venceu o Alcoyano, no jogo de ida das quartas de final, por 2×1, em casa. Na volta, segurou um dramático 2 a 2 e pôde, enfim, vibrar. A classificação direcionou recursos e holofotes para o Cartagonova até então distantes e desconhecidos. A realidade mudou e com ela o clube cresceu.
Para a atual temporada, Hernández trocou o treinador. Tirou o campeão da terceira divisão, Paco Jémez, e fechou com o experiente Juan Ignacio Martínez. Juntos, montaram o melhor time da curta história do Cartagena. Foram a Portugal contratar o ex-atacante do Real Madrid Javier Balboa junto ao Benfica e tiraram do Villarreal o zagueiro francês Pascal Cygan, campeão inglês pelo Arsenal, em 2004.
Também estiveram em Barcelona para buscar o meia Antonio Longás, 25 anos, do Barça B e com passagem pelo Zaragoza. Tem sido o melhor jogador do Cartagena e é candidato a estrela do campeonato.
A próxima temporada promete. Ou não?
Se esta temporada tem sido boa, os poucos torcedores projetam 2010/11 ainda melhor. Os 2,5 mil sócios já procuram hotéis e organizam excursões para Madrid e Barcelona. Querem estar no Camp Nou e no Santiago Bernabéu quando o clube viverá momentos mágicos, independente do placar das partidas. Mais importantes até que o eventual acesso à Liga.
Isso porque o Cartagena não tem nenhum título oficial. Nunca levantou uma taça ou vestiu uma faixa. O estádio onde joga também não pode chamar de seu. Emprestado pela prefeitura, o Cartagonova pode receber até 15 mil pessoas, mas raramente o público passa de 5 mil. Construído no fim da década de 80, foi baseado no Miniestadi, do Barcelona, que o usa em partidas da equipe B e das categorias de base.