Caju: Quase foi Deco
Companheiro de Deco, atual Barcelona, no Corinthians e depois no Alverca, o meia Celso Freitas, o ‘Caju’, estuda propostas para retornar ao futebol brasileiro. O jogador, de 30 anos, conversou conosco sobre sua longa experiência no futebol português, sua forte amizade com Deco e seus relacionamentos com treinadores de ponta do futebol lusitano – além de ilustrar as dificuldades que um jogador brasileiro enfrenta para se firmar em Portugal.
Confira o que contou esse capixaba, de Afonso Cláudio, interior do Espírito Santo.
Como você e o Deco iniciaram a trajetória rumo ao futebol português? Vocês estiveram juntos no Corinthians, não é?
Eu comecei no Matsubara, do Paraná, em 1995. No ano seguinte, fui para o Corinthians, e o Deco já estava lá. Na época, o Nelsinho Baptista trouxe o Neto (ídolo da torcida corintiana, no inicio dos anos 90) de volta. Em 1997, eu e o Deco fomos para o futebol alagoano e ficamos apenas 1 mês lá. Ele no Corinthians-AL e eu no CSA. No meio daquele ano, fomos juntos para o Alverca, de Portugal.
Depois de dois anos e meio no Alverca, você foi para o Porto, onde ficou apenas seis meses. Por quê?
No Porto, infelizmente, eu tive poucas chances, joguei só duas partidas, e como volante, é mole? Eu estava habituado a atuar como meia ofensivo ou segundo atacante e tive que jogar de volante. Eu não senti o peso da camisa, o problema foi que eu fui contratado pela diretoria, e não por indicação do treinador, o Fernando Santos.
Então, nessa época, o treinador era o Fernando Santos, atualmente no Benfica. Ele é um técnico bastante contestado em Portugal. Qual é o perfil dele nos treinos e nos jogos?
O Fernando Santos é um treinador duro, ele é disciplinador, quer tudo certinho. O problema é que ele não é muito adepto de diálogo. É muito centralizador. Ele faz o que quer e ponto final!
No Alverca, você trabalhou com dois técnicos que estavam emergindo, o Jesualdo Ferreira, atualmente no Porto, e o José Couceiro, que também treinou o Porto, em 2005. Como eles são?
O Jesualdo taticamente é muito bom, embora seja um pouco defensivo. Eu não gostei de trabalhar com ele por isso. Assim como o Fernando Santos, ele também não pede opinião do jogador, não quer saber o que o atleta está sentindo. O cara é dureza! Já o Couceiro até hoje eu ainda falo com ele por telefone. É um treinador fantástico, tem muito diálogo, gosta de trabalhar muito a parte psicológica. Ele também enfatiza mais o treino com bola do que o treino físico.
Durante seu tempo no Porto, de 2002 à 2004, José Mourinho sempre dizia que Deco era o jogador mais completo de Portugal. Você jogou um ano com o Deco, ambos titulares no Alverca, em 1997/8. Já dava para perceber que Deco atingiria altos níveis?
Sinceramente, sim. Deco era incansável, mesmo trabalhando como meia-ofensivo, ele queria ajudar os volantes na marcação, gritava com a equipe e era o mais criativo do nosso time. Concordo com o Mourinho: sempre foi um jogador completo. Nenhum meia em Portugal se igualava.
O Deco mudou em alguma coisa desde que vocês se conheceram, há 10 anos?
Continuamos amigos. A vida dele mudou, agora muita gente quer falar com ele, existe um assédio enorme, e ele não tem muito tempo. Faz dois meses que nos falamos pela última vez. Em termos de personalidade, não mudou nada, continua aquele amigão de sempre.
E quanto ao Ricardo Carvalho, atual Chelsea e seleção de Portugal, um dos melhores zagueiros do mundo? Ele esteve com você no Alverca em 2000/1, certo?
Ele é um zagueiro completo. Sempre foi duro superar o Ricardo Carvalho, principalmente no mano a mano.
Na temporada 2001/2 quando o Sporting foi campeão e o Jardel fez 42 gols, você foi o artilheiro do Alverca, ficando entre os 10 maiores goleadores da competição. Aquela foi sua grande temporada?
Com certeza. Tudo dava certo para mim naquela época. Não é fácil jogar por uma equipe que não disputa títulos, eu sempre dei meu máximo no Alverca, mesmo sabendo das limitações do clube.
Você jogou no Alverca junto do meia Poejo, que pintou como promessa no Sporting nos anos 90 e acabou esquecido, e também com o Bruno Aguiar, que dava mostras de que iria ser um grande jogador e agora está escondido na Escócia. Você acha que a entrada maciça de estrangeiros atrapalha os jovens talentos em Portugal ou a aparição, com sucesso, de Cristiano Ronaldo, Moutinho e Quaresma prova que não atrapalha?
Todos eles são bons jogadores! O que acontece é que os grandes clubes de Portugal contratam bastante, querem jogadores experientes ou estrelas já formadas. Daí o jovem que começou nesses grandes clubes acaba não tendo espaço e vai para times pouco expressivos e tem que brilhar lá para chamar a atenção de um grande novamente. Nisso, muitos não conseguem e passam o resto de suas carreiras em equipes menores.
Alguns jogadores do Brasil, como o Artur, que jogou no Porto muito tempo, reclamam do preconceito contra brasileiros que vão jogar em Portugal. Segundo eles, quando um jogador daqui é contratado, os companheiros portugueses acham que perderão vaga no time. Você viu muito disso?
Isso existe, sem dúvida! Eu lembro que quando eu cheguei lá (em 1997) eu vi uma coisa muito chata. O João Pinto (ídolo de Benfica, Sporting, seleção e hoje no Braga) deu uma entrevista na TV dizendo que Portugal não precisava de jogadores brasileiros, justificando a conquista do Mundial sub-20, de 1991, como um exemplo da qualidade do futebol português e das categorias de base do país. Isso acontece porque geralmente o brasileiro é mais técnico e habilidoso, e eles sabem disso. Tem muito jogador português que é gente boa, conversa com agente, faz amizade, mas esses problemas existem. Eu vi muito.
Durante seu tempo em Portugal, quais os jogadores que mais te impressionaram em campo?
São muitos… mas acho que o Deco e o João Pinto são jogadores realmente fantásticos. São os que eu destacaria em termos de qualidade.
Na seleção de Portugal, sempre existiu o problema da falta de um ‘matador’, um goleador nato. Nos últimos anos, Pauleta e Nuno Gomes sempre foram vistos com desconfiança e brilharam pouco em torneios importantes. Na sua visão, qual o motivo dessa escassez?
Esse sempre foi o problema do futebol português. Eles sempre questionaram isso por lá. Não aparecem centroavantes de qualidade, por isso recorrem a estrangeiros. Não vejo como um problema de base, porque se você reparar surgiram Cristiano Ronaldo, Quaresma, Simão e muitos outros, todos de grande qualidade, mas nenhum deles joga como centroavante.
Segundo a CBF, cerca de 130 a 140 brasileiros, anualmente, desembarcaram em Portugal para jogar nos clubes de lá. Pela sua experiência de quase 10 anos no futebol português, que conselho você daria para um futebolista brasileiro que está chegando em Portugal?
Chegar muito humilde e trabalhar muito, procurando se destacar, porque o brasileiro é muito cobrado. Você chega sem moral, às vezes recebendo mais que os próprios jogadores portugueses, e isso cria ciúme. Mas tem que superar isso e tentar fazer a diferença em campo. A pressão em cima dos brasileiros é muito maior.