Cabo Verde: primeiros passos

O gol marcado pelo ponta esquerda Lito contra Camarões, no dia 6 de setembro do ano passado, encheu a torcida do estádio da Várzea de esperanças. A vitória de 1 a 0 poderia significar a inédita classificação da seleção caboverdiana para a fase final das Eliminatórias Africanas para a Copa 2010. Mas a virada comandada por Achille Emana e Alain Nkong adiou por tempo indeterminado o sonho de um país apaixonado por futebol. Que guarda com o Brasil semelhanças que vão além da linha portuguesa.

Se a única derrota sofrida em casa, somada ao seguinte fracasso na rodada final para Tanzânia, foi decisiva para a eliminação de Cabo Verde, não foi suficiente para manchar o surpreendente desempenho da equipe na competição. Antes do início das Eliminatórias, pouco se esperava de uma seleção que nunca chegou à fase final da Copa Africana de Nações. Mas os Crioulos se saíram muito bem ao somarem nove pontos e ficarem em segundo no Grupo 1. A classificação bateu na trave. Além dos primeiros de cada chave, os melhores oito segundos colocados dos 12 grupos avançaram.

Excetuando a recente campanha, o maior feito da equipe lusófona foi ter chegado a final da Taça Amílcar Cabral em dezembro de 2007, torneio organizado pelo Conselho Superior dos Desportos em África (CSSA). Na semifinal, Cabo Verde derrotou Guiné-Bissau nos pênaltis. Na decisão, caiu diante de Mali pelo placar de 2 a 1. Além dos três países, Gâmbia, Guiné Conakry, Mali, Serra Leoa e Senegal participaram da Copa Cabral.

Embora venha colecionando alguns resultados importantes contra seleções africanas, o que lhe rendeu a 89ª posição no discutível ranking da Fifa, o time dos Tubarões Azuis ainda é praticamente inexpressivo no cenário mundial. Mas a historia é recente. Até o amistoso contra a Seleção de Luxemburgo em novembro de 2002, Cabo Verde nunca havia enfrentado uma equipe de outro continente.

Os maiores jogadores formados pelo país não defenderam a seleção nacional, mas a da ex metrópole Portugal. Foi o caso do goleiro Neno, que atuou por muito tempo no Benfica, e do meio-campista Oceano, ex-jogador do Sporting.

A equipe

Diferentemente de muitas seleções nanicas da África, o atual elenco é praticamente todo formado por jogadores que atuam fora do país. Da equipe que enfrentou a Tanzânia no dia 12 de outubro do ano passado, último compromisso da seleção, apenas o goleiro Fók, um dos destaques do time, atua na liga nacional. A maioria dos convocados joga em Portugal, em clubes de pequena expressão da segunda ou da primeira divisão, como Rio Ave e Paços de Ferreira. Os mais jogadores mais conhecidos são o atacante Dady, do Osasuna, e o zagueiro Pedro Pelé, do West Bromwich.

Até abriu do ano passado, o time era comandado pelo brasileiro Ricardo Rocha (que não é o famoso ex-zagueiro da Seleção Brasileira, como na época foi noticiado). Depois de quatro jogos sem vitória e da não classificação do time para a fase final da Copa Africana de Nações, porém, Rocha pediu demissão. O substituto foi o português João de Deus, que já fazia parte da comissão técnica.

O país

A República de Cabo Verde um pequeno arquipélago formado por dez ilhas de origem vulcânica. A região localiza-se na zona equatorial do Oceano Pacífico, a 600 km da costa de Senegal e Dacar, no oeste do continente africano. A ex-colônia portuguesa ainda conserva fortes ligações econômicas, políticas, e culturais com a metrópole. O idioma oficial é o português, mas a língua materna da população de meio milhão de habitantes é o crioulo, língua que mistura termos de origem africana à mesma base lexical.

A frágil economia do país depende de remessas de dinheiro feitas pelos muitos imigrantes espalhados pelo mundo todo. A agricultura, muito prejudicada pelos longos períodos de seca, é pouco desenvolvida. A grande maioria dos produtos de consumo são importados.

História

A história do Cabo Verde começa no ano de 1460, quando a região foi descoberta pelo navegador Diogo Gomes, a serviço da Coroa Portuguesa. Antes disso, não havia indícios de habitação humana nas ilhas. Como aconteceu com Brasil a partir do século XVI, o arquipélago foi colonizado pelo sistema de Capitanias Hereditárias dois anos depois. Logo, a Ilha de Santiago, a maior delas, passou a produzir cana-de-açúcar e algodão. As plantas, assim como a mão de obra escrava, foram trazidas da costa.

Ali foi fundada a cidade de Ribeira Grande, próxima à baía onde, em 1497, aportaram as embarcações de Vasco da Gama a caminho da Índia. Sua posição estratégica, rota de passagem entre África, América e Ásia, contribuiu para o seu desenvolvimento como entreposto comercial nos séculos seguintes. A cidade ganhou especial importância com o comércio de escravos para o Brasil, Caribe e sul dos Estados Unidos. Em 1712, Ribeira Grande foi invadida e saqueada por Corsários Franceses, motivo pela qual a capital de Cabo Verde foi transferida para a cidade da Praia. A escravidão vigorou até 1876.

Com o surgimento dos movimentos de independência dos povos africanos, Cabo Verde envolveu-se na luta pela libertação da atual Guiné-Bissau. Em 1956 o intelectual cabo-verdiano Amílcar Cabral (que dá nome à Copa Cabral) fundou em Bissau o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. Em 1973 ele foi assassinado.

A ensaiada independência só foi conquistada após a Revolução dos Cravos em Portugal, no ano seguinte. Daí até 1990, o país foi governado por um partido único de esquerda. Atualmente, o páis adota um sistema de democrática parlamentarista, com regime multipartidário.

Liga nacional

A Federação Caboverdiana também organiza o campeonato nacional do arquipélago. Uma competição bastante equilibrada, de nível técnico muito abaixo, mas que sobrevive graças à paixão de seus torcedores. Primeiro, são disputadas as ligas de cada uma das ilhas (Boavista, Sal, Maio, Brava, São Nicolau, Fogo, Santo Antão, São Tiago e São Vicente). Os campeões classificam-se para a fase final, disputada a partir da divisão de dois grupos, nos quais as equipes se enfrentam no sistema de turno e returno.

A principal equipe do país é o Sporting, da capital Praia, que joga no estádio da Várzea. O clube adotou uniforme idêntico a sua “matriz” de Portugal. O maior campeão, contudo, é o Mindelense de Mindelo com sete títulos nacionais da era pós-independência contra seis do Sporting. A seguir, há um equilíbrio entre clubes secundários como o Botafogo da ilha de Fogo, Desportivo da Praia e o Travadores de Santiago.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo