Bulgária: os leões da Europa

 

Por Clarissa Carramilo

A seleção da Bulgária pode ser definida em antes da Copa do Mundo de 1994 e depois dela. Antes, a história da seleção nacional era tão particular ao país quanto o motivo de sua alcunha. Os leões, como são chamados até hoje, nunca tinham vencido uma só partida em Mundiais nas suas cinco participações. Em 94, fez história e acabou como a grande zebra da competição, eliminando gigantes como a Alemanha.

Era a equipe do lendário Hristo Stoichkov, jogador que formava o ataque, ao lado de Romário, do chamado “Dream Team” do Barcelona do início da década de 1990. Dono de uma esquerda desequilibrante, Stoichkov consagrou-se como maior jogador do futebol búlgaro, tendo sido um dos artilheiros daquele Mundial, ao lado do russo Oleg Salenko.

Os craques e o comunismo

A Bulgária de Stoichkov é lembrada não só por ter vencido a primeira partida em mundiais, mas também por ter alcançado o melhor resultado da história do país na competição. Além do craque do Barcelona, a base da seleção era formada por Nasko Sirakov, pelo goleiro e capitão Borislav Mihaylov, pelos eficientes Krasimir Balakov, Emil Kostadinov, Ivaylo Yordanov e Yordan Lechkov.

Curiosamente, esses atletas formavam a base do CSKA Sófia, time do exército na Bulgária comunista de 1985. Naquele ano, a decisão da Copa da Bulgária entre o CSKA e o rival Levski Sófia terminou em pancadaria. Conhecido pelo pavio curto, Stoichkov saiu a socos com o goleiro adversário, Borislav Mihaylov.

Após a análise das imagens do jogo, o Comitê Central do Partido Comunista Búlgaro reuniu-se e decretou o banimento de vários jogadores. O órgão também determinou que aquela Copa da Bulgária ficaria sem campeão e que os dois times seriam extintos. O Levski virou “Sredets” e o CSKA, “Vitosha”.

Um ano depois, uma anistia foi dada aos jogadores e, em 1988, a punição aos clubes também foi atenuada. Eles retomaram os antigos nomes e o CSKA, o título da Copa de 85. Era o fim do comunismo no país, que controlou a Bulgária por mais de cinquenta anos. Em 1989/90, o Partido Comunista permitiu a realização de eleição multipartidária e a Bulgária iniciou a transição para a democracia e o livre-mercado capitalista.

A história da Copa

A seleção de 94 começou a Copa com uma derrota para a novata Nigéria por 3 a 0, dando entender a todos que a campanha búlgara seria semelhante aos anos anteriores. Não foi.

No segundo jogo, os leões venceram a Grécia por 4 a 0, com dois gols de Stoichkov. Após isso, nova vitória maiúscula, dessa vez por 2 a 0 sobre a Argentina de Gabriel Batistuta, Fernando Redondo e Claudio Caniggia, deu pistas sobre a força búlgara que ameaçava a hegemonia dos gigantes.

Nas oitavas, contra o México, a Bulgária saiu na frente, com Stoichkov abrindo o marcador aos seis minutos. O empate veio logo depois e o jogo foi decidido nos pênaltis, terminando em 3 a 1 para os leões. Depois, veio a histórica classificação para as semifinais em jogo eletrizante contra a Alemanha, que terminou em dois a um para os búlgaros.

A eliminação só veio frente à Itália de Baggio. Após isso, restou a disputa do terceiro lugar contra a Suécia, quando os leões foram goleados por quatro a zero. Mesmo assim, os jogadores da seleção foram recebidos como heróis no país. Formaram a melhor equipe da história do futebol búlgaro até os dias atuais.

O antes e o depois de 94

Mesmo com os fiascos mundiais antes de 94, alguns jogadores consagraram-se como ídolos na década de 1960. Um deles foi Georgi Asparuhov, o Gundi, que disputou três Copas do Mundo, em 1962, 66 e 70. Ele participou de dois dos melhores resultados da seleção da Bulgária em sua história: a medalha de prata nos Jogos Olímpicos em 68 e o quinto lugar na Eurocopa, também em 68.

Na Eurocopa de 1965/66, o time de Gundi, o Levski, jogou contra Benfica de Eusébio. Eliminados no agregado, o Levski perdeu a primeira partida por a três a dois e empatou a segunda em dois a dois com gols de Gundi. Os olhos da Europa então se voltaram para o atacante búlgaro. Ele recebeu várias propostas para deixar o país, mas o governo comunista não permitiu a venda.

Asparuhov morreu precocemente em um acidente de carro em 1971. No acidente, faleceu também o atacante Nikola Kotkov, de 31 anos, seu colega de seleção. Mais de quinhentas mil pessoas participaram do funeral em Sófia e o estádio do Levski foi batizado com de Estádio Georgi Asparuhovin, em homenagem ao ídolo nacional.

Hoje, a seleção da Bulgária enfrenta dias difíceis novamente. Os leões são comandados por Lothar Matthäus, um dos maiores ídolos da história do futebol alemão, e almejam desesperadamente melhor sorte na disputa da UEFA Euro 2012. No último dia 04 desse mês, a seleção empatou com Montenegro fora de casa pelas eliminatórias, amargando o quarto lugar em um grupo de cinco seleções, com a Inglaterra liderando ao lado de Montenegro. As duas têm 11 pontos e a Bulgária cinco, com Ivelin Popov como artilheiro do time na competição, com dois gols.

Atualmente, o artilheiro da Bulgária é o capitão Dimitar Berbatov, com 48 gols com a camisa da seleção. Depois dele, vem Hristo Bonev, que disputou as copas de 1970 e 74 e foi treinador da seleção na Copa de 1998. Em terceiro aparece Stoichkov, com 37 gols.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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