Bozó e o jornalismo esportivo da Globo

 Nos anos 70/80, Chico Anísio (que ainda era engraçado) tinha um personagem chamado Bozó. O bordão do Bozó era: “Trabalho na Globo!”, que ele lançava, salvo engano, em geral em tentativas de seduzir belas moças com pouca roupa.

Lembrei-me do Bozó em dois episódios na semana passada. O primeiro, muitos acompanharam pelo twitter: critiquei André Rizek, sem citar o nome dele, por ter dito no ar no Redação que “nenhum jornalista pode discordar” do novo manual de diretrizes editoriais da Globo, e que “jornalista não tem que ficar fazendo campanha.” O segundo foi um post inacreditável escrito por Gustavo Poli, editor-chefe do Globo.com, defendendo o João Sorrisão. Um dos argumentos era o de que “muitos jogadores têm filhos” e eles querem um João Sorrisão. Sério.

Não conheço Gustavo Poli; conheço o Rizek, aliás, o mundo do jornalismo conhece, e não se surpreende com sua defesa apaixonada de mais um patrão. Aqui, porém, não falo nem de um, que não conheço e pode ser que seja excelente jornalista, nem de outro. Falo de um fenômeno: a “bozóização” do jornalismo esportivo da Globo. Uma boa parte dos jornalistas que trabalha na emissora tem assumido uma postura de defesa de seus empregadores que é constrangedora. Além de inexplicável.

Não tenho nenhum problema com o cara querer trabalhar na Globo, é o desejo natural de todo profissional chegar ao topo de sua carreira, e a Globo certamente é onde você é mais visto. Como não acho estranho que um profissional queira defender posturas de seu empregador. O problema é que o empregador, no caso a Globo, não é jornalista, é uma empresa, tem objetivos que não são só jornalísticos. É por isso que ela tem um departamento comercial, um de relações públicas, um de transportes e até um de jornalismo.

Posso estar enganado, mas acho que a própria Globo se surpreende com a postura desta turma de Bozós. Não que ela não esteja acostumada a ter gente puxando seu saco, mas isso em geral estava em outros departamentos. Até porque, os jornalistas antigamente sabiam que, hoje você está na Globo, mas amanhã pode estar em outro lugar. E neste outro lugar, pode ser que o “trabalhei na Globo” não atraia nenhuma mulher bonita de pouca roupa.

Não precisa ser assim, e não devia ser assim, e quem tiver alguma dúvida que olhe para o sucesso de Lédio Carmona e Maurício Noriega. Trabalham na Globo como trabalhariam em qualquer lugar. E não parecem preocupados em mostrar lealdade, porque estão demonstrando competência.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo