BATE Borisov: reflexo do progresso

O futebol em Belarus ainda engatinha, embora tenha obtido resultados de respeito em seus últimos encontros e tenha dado trabalho a equipes mais conceituadas no esporte. Empates contra a Argentina, em casa (ainda que os sul-americanos estivessem desfalcados de seus craques olímpicos) e Alemanha, em Kaiserslautern, são mostras de que a safra atual do País, como por exemplo, o meio-campista Alexandre Hleb (ex-Arsenal, hoje no Barcelona), pode render bons frutos, ao menos para padrões medianos.

A mais recente prova dessa ascensão bielorussa ocorreu no meio clubístico, em 27 de agosto desse ano, quando o BATE Borisov, que já havia superado o Valur, da Islândia e o conhecido belga Anderlecht, arrancou um empate heróico contra o Levski Sofia, em 1 a 1, pela terceira fase eliminatória da Liga dos Campeões (LC). Como vencera o confronto anterior contra os búlgaros, ao apito final do árbitro Konrad Plautz, a festa tomou conta de Borisov. Pela primeira vez, um time bielorusso alcançava um espaço na fase de grupos da LC.

A vaga, por si só, já valeu a temporada ao BATE — e ao futebol do País. Até porque o sorteio das chaves se mostrou inimigo dos bielorussos, colocando-os frente a frente com um favorito Real Madrid, uma Juventus sedenta em retomar seu status na Europa e um Zenit St. Petesburg louco para mostrar que as conquistas da Copa da UEFA e da Supercopa não foram zebras. O que significa que, teoricamente, mesmo uma vaga na segunda competição do continente — no caso de um terceiro lugar — está mais para um sonho.

Força da indústria

O cenário para que um time vire uma potência em seu País, de uma forma geral, implica em ser de uma cidade grande e ter um estádio com boa capacidade, capaz de suportar grandes jogos, ainda que em nível nacional. Borisov tem apenas pouco mais de 150 mil habitantes. Apenas como critério de comparação, a capital Minsk tem aproximadamente 1,8 milhões de moradores. Além disso, o Haradzki, estádio onde o BATE manda suas partidas, tem capacidade para apenas 5.500 pessoas. No Dínamo, em Minsk, local onde o clube terá que jogar durante a LC, por sua vez, cabem 41.140 pagantes.

Apesar disso, há outros fatores que foram preponderantes nessa ascensão do clube. Mas para analisar melhor esse panorama, é preciso voltar a 1973, quando a equipe foi fundada com o nome da fábrica que a criou, a Borisov Car Automobile and Tractor Electrical Equipment — ou simplesmente BATE. Como lembra James Appeal, no ESPNsoccer.net, a cidade é conhecida por seu potencial ferroviário, sendo a principal ligação entre Minsk e Moscou. A indústria local é considerada a principal no País, e essa linha férrea funciona hoje a base de eletricidade. Por aí, dá para imaginar uma das razões para esse crescimento no que diz respeito, de certa forma, à questão dos recursos.

Logo em sua primeira competição, no mesmo ano, a equipe sagrou-se campeã da segunda divisão do período soviético do Campeonato de Belarus. No ano seguinte, veio também o primeiro título nacional, torneio que ganharia ainda em 1976 (com direito a dobradinha) e 1979. Em 1981, após um quarto lugar no certame, veio a decisão de se dissolver o futebol. O BATE voltava a cuidar unicamente do campo industrial.

O desinteresse pelo futebol permaneceu até março de 1996, quando Anatoly Kapsky, um homem de negócios de Borisov e diretor-geral da empresa BATE, resolveu ressuscitar o time. Tal como da outra vez, a equipe se reergueu de maneira meteórica, e em 1998, já estava na elite bielorussa, ficando com o vice-campeonato e garantindo vaga pela primeira vez em uma competição internacional: a Copa da UEFA. Destacava-se na ocasião o atacante Nikolay Ryndyuk, autor de 58 gols em 49 jogos nas duas temporadas que o BATE Borisov se encontrava nas divisões inferiores.

Novamente, a força da indústria local dá estrutura e recursos à equipe, e em questão de poucos anos, os auri-azuis assumem o posto de grande nome do País. De 1999 em diante, foram quatro títulos nacionais, e, até a última temporada, apenas em 2005 a equipe não esteve entre as três primeiras. A conseqüência dessa ascensão foi a decadência do Dínamo Minsk no cenário nacional, já que desde 2004 não levanta o caneco nacional, já conquistado em sete oportunidades (treze, se considerarmos o período soviético).

Isso resultou também nas primeiras experiências do clube em gramados europeus, sendo algumas, especiais. Tais como em 2001, quando o BATE enfrentou o Milan, logo após ter superado o Dínamo Tblisi, da Geórgia, pela Copa da UEFA. Apesar de perder nos dois confrontos, a oportunidade de encarar um gigante continental foi uma ocorrência a parte na temporada. Tanto que é inclusive mencionada no histórico do time bielorusso, em seu site. Na ocasião, Vitaly Kutuzov, um dos principais jogadores da equipe, agradou aos italianos, sendo contratado em seguida.

Força da juventude

Um dos grandes marcos dessa ascensão do BATE Borisov não é apenas o apoio da indústria local, como já comentado. Até porque, mesmo sendo um dos clubes em melhor situação financeira dentro de Belarus, sua folha salarial é de apenas 1,5 milhões de euros/mês, segundo reportagem do site da UEFA. A grande sacada vem sendo o trabalho nas categorias de base.

Em 2004, no Europeu Sub-21, Belarus classificou-se como uma das melhores segundas colocadas da fase eliminatória, superando inclusive a Holanda em sua chave. Apesar de cair ainda na fase de grupos do Europeu, a equipe ficou atrás somente da campeã Itália e da vice-campeã Sérvia e Montenegro, tendo superado a Azzurra na primeira rodada por 2 a 1. Daquele grupo, sete dos convocados eram jogadores do BATE, sendo que um dos principais nomes do time, Alexander Hleb, já tinha passado pela base auri-azul.

No comando do grupo bielorusso estava Yuri Puntus, treinador que, aliás, seria o responsável por instituir essa política de incentivo à base no BATE — e que o levaria a seleção Sub-21 de seu País. Ainda hoje, a equipe de Borisov utiliza muitos jogadores vindos das categorias de base e de seu time reserva. Uma amostra do apoio a essa iniciativa veio com a promoção de Viktor Goncharenko, que até a temporada passada era justamente treinador do time reserva do BATE, ao cargo de técnico da equipe principal.

O fato de já conhecer boa parte dos atletas com quem trabalhava, aliado a sua experiência no clube (encerrara a carreira em 1998, ainda aos 25 anos, por causa de uma lesão, mas permaneceu no time, migrando para a comissão técnica), ajudaram Goncharenko a desenvolver o grupo. O caminho percorrido por seu antecessor, Igor Kriushenko, foi semelhante, também passando pelas equipes inferiores para depois assumir o time principal. Ao todo, foram quatro anos de trabalho nas divisões de base e reservas até a oportunidade de dirigir a equipe A.

Força das circunstâncias

O BATE Borisov, hoje, segue com tranqüilidade rumo a seu quinto titulo nacional (ou oitavo, se considerarmos a fase soviética do futebol bielorusso). Invicto nesta temporada e a oito confrontos do final (o torneio do país não segue o calendário europeu), tudo indica que a equipe, considerada pela imprensa européia a mais surpreendente da relação de 32 que estarão na fase de grupos da LC — até mais que o Anorthosis, devido à pontuação no ranking da UEFA —, deve sair novamente campeã. E, por conseqüência, ter uma nova oportunidade de disputar o torneio de clubes mais importante do continente na próxima temporada.

O resultado da estréia contra o Real Madrid, fora de casa, não fugiu o esperado: derrota. Apesar disso, o time não fez feio no Santiago Bernabeu, perdendo por um apertado 2 a 0. No próximo dia 30 de setembro, no entanto, terá seu primeiro desafio em casa (na verdade, no estádio do rival Dínamo Minsk), contra a Juventus. É difícil pensar em qualquer resultado que não sejam os três pontos em favor dos italianos. Mas se os bielorussos derem o trabalho que a seleção vem dando ultimamente em adversários mais consagrados, mesmo um empate não é impossível, visto que os auri-azuis terão grande apoio da torcida.

Ainda assim, falar em classificação é complicado, devido ao fato de, mesmo que a tradição fale mais alto e Real Madrid e Juventus avancem para as oitavas da LC, ainda há pela frente o forte Zenit, que, com os últimos resultados, demonstra que a vaga para a Copa da UEFA não é o suficiente e deve ser outro adversário a se impor contra os bielorussos.

No entanto, a divulgação do clube na Europa, aliada ao dinheiro que será embolsado por partida disputada na Liga dos Campeões, tal como disse Gustavo Hofman no Guia da LC, “vai bancar o clube nos próximos 12 meses brincando”, já são boas razões para exaltar a temporada como, talvez, a mais importante e representativa da história do clube — quiçá, do próprio futebol bielorusso.
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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