Baggio – Coleção Grandes Craques
19 de junho de 1990. Pela Copa do Mundo daquele ano, a anfitriã Itália concluía sua participação na primeira fase enfrentando a Tchecoslováquia. Na TV Globo, Chico Anysio comentava a partida. Em dado momento, o humorista, indagado a respeito do futebol de Roberto Baggio, solta a piada: “Ele pensa que joga.”. O problema é que ele estava falando sério!
Minutos depois, o jovem de 22 anos, prodígio da Fiorentina, pega uma bola antes da linha divisória, passa para Giannini, recebe de volta e avança como um camundongo rumo à queijaria do goleiro Stejskal, driblando as vassouradas de Hasek e Kadlec no caminho. O chute colocado foi o desenlace perfeito de uma jogada fantástica. Após narrar o golaço, o locutor global, meio sem graça, rola a bola para Chico Anysio tentar explicar o inexplicável.
Esse desconcertante meia ofensivo é o tema de mais um DVD da coleção Grandes Craques. E é exatamente esse gol contra a Tchecoslováquia que encabeça o ranking feito em uma seção extra do DVD, intitulada “dez golaços”. No filme principal, que dura cinqüenta e poucos minutos, as cenas das jogadas mais bonitas da trajetória profissional de Baggio são acompanhadas por um narrador que, na versão comercializada no Brasil, é Fernando Vannucci.
O fato de o material ter sido originalmente planejado, dirigido e produzido por italianos gera alguns pequenos problemas. Por exemplo: quando se reporta ao jogo Itália 1×0 Noruega, da Copa de 94, o texto lido por Vanucci não deixa claro o que aconteceu com Baggio na ocasião. Apenas diz que ele “foi protagonista de uma cena que os italianos não gostariam de ter visto”, enquanto as imagens que vão correndo não ajudam a decifrar o enigma. Os italianos e mais todos que acompanharam a Copa sabem que Pagliuca foi expulso e Arrigo Sacchi sacou Baggio para pôr o goleiro reserva Marchegiani em campo, mas os muito jovens ou mais esquecidos, principalmente se não forem italianos, ficam sem entender.
A história de Baggio é contada, em alguns trechos, por ele mesmo, em entrevista concedida à jornalista Gabriela Mancini. O “Codino Divino” expõe alguns de seus sentimentos em relação ao futebol, com detalhes que vão das partidas improvisadas no corredor de sua antiga casa à amizade de Giovanni Trapattoni. Quase no fim da conversa, Baggio afirma que vai ingressar no Brescia e ficar lá por dois anos. E aí se nota que o depoimento é do ano 2000, algo que os mais atentos podem perceber até antes, já que as mechas brancas do novo milênio ainda não haviam atacado o cabelo do craque. O DVD, portanto, não tem os gols e as assistências da passagem pelo Brescia, que acabou durando o dobro do tempo previsto.
Excetuando-se o Brescia e o Vicenza (no qual jogou ainda bem garoto), o vídeo consegue dar uma idéia do que Baggio representou para cada clube que defendeu, com destaque para a época de Juventus, em que ganhou títulos – como a Copa UEFA de 1992/3 – e prêmios individuais – a Bola de Ouro de 1993 foi um deles.
A vitória da Inter sobre o Real Madrid na LC de 1998/9 é outro capítulo da vida clubística de Baggio que ganha uns minutinhos a mais no vídeo. Não foi uma final, tampouco uma semifinal, mas foi uma partida um tanto especial para Baggio, que entrou aos 67 minutos e marcou duas vezes, revigorando uma aura que ele já carregava há tempos: a de jogador letal em momentos decisivos. Essa faceta mortífera foi vista na Copa de 94, embora no mais capital de todos os lances – o pênalti contra o Brasil – ele tenha falhado.
As imagens de Baggio nas três Copas de que participou dão a medida de sua importância para a seleção italiana. O vídeo mostra algumas declarações dadas por ele após partidas importantes, menciona as críticas a Azeglio Vicini por não o ter escalado de início na semifinal de 90 e fala sobre o clamor de toda a Itália para que ele jogasse a Copa de 98, após uma estupenda temporada no Bologna.
Se não era fisicamente forte ou teve momentos de irregularidade e desmotivação, o certo é que Roberto Baggio fez dúzias de gols irretocáveis, foi ídolo nos três maiores clubes da Itália e brilhou em três Copas do Mundo. A fluidez das arrancadas, o dinamismo dos dribles, a lucidez dos passes, tudo isso está no DVD. Apesar dos problemas, é um ótimo programa.