Avellino: idas e vindas

Aconteceu com o Pisa, personagem desta coluna, há quase um mês e meio. Mas, no mesmo dia em que a equipe onde Dunga atuou, no fim da década de 1980, anunciou seu fim no futebol profissional, tendo de retornar ao amadorismo, um outro clube lembrado por suas aparições naquela década também teve de passar pela refundação – e o consequente recomeço, nas ligas amadoras da Bota.

É o Avellino. Com dívidas de cerca de € 4,2 milhões, o time alviverde da cidade homônima não conseguiu a inscrição na Lega Pro Prima Divisione, a terceira divisão italiana. E terá de recomeçar, agora com o nome de Avellino Calcio .12 SSD, uma história de quase cem anos. Que contou com a alternância frequente entre as séries B e C – e uma estada de dez anos, sempre lembrada pela torcida, na Serie A.

O começo sólido na região

Era 31 de agosto de 1912, quando foi realizada uma assembleia, na cidade de Avellino, região da Campana, unindo uma série de agremiações, entre as quais a Associazione Sportiva Avellinese. E, de reunião em reunião, foram sendo acertados os problemas, até que, em dezembro daquele mesmo 1912, foi anunciada a criação da Unione Sportiva Avellino.

O novo clube iniciou sua história disputando as divisões menores dos campeonatos regionais. Até que, na temporada 1929/30, o time conseguiu passar, em terceiro lugar, pelo grupo B da terceira divisão campana. No torneio geral da região, encontrando clubes como o Savoia, que chegara a conquistar o scudetto de 1924, o time conseguiu a quarta posição. Era a primeira façanha: o time disputaria a segunda divisão da Campana.

E seria nesse campeonato que o clube ficaria pelos próximos quinze anos, até a interrupção de suas atividades, em 1944 – evidentemente, devido à Segunda Guerra Mundial. O que não resultaria em atraso esportivo. Até porque, assim que as atividades futebolísticas esportivas voltaram à Itália, na temporada 1945/46, uma atitude da federação italiana ajudou os Lupi (Lobos, apelido dado ao clube em razão do animal estampar o seu escudo).

A vitória que gerou um… descenso

Com o aumento do número de clubes da Serie C, divididos em várias ligas, o Avellino conseguiu entrar para a terceira divisão italiana. Nas duas primeiras temporadas, não houve problemas para garantir a manutenção, na liga dos times do centro e do sul da Itália. Em 1947/48, entretanto, novo decreto da FIGC deixou a situação dos Irpini bastante difícultada.

Ao decidir diminuir o número de grupos da Serie C de 18 para 4, visando o fim do inchaço excessivo, a disputa das vagas que dariam direito à permanência na terceira divisão foi bastante renhida. Em alguns grupos, somente dois clubes conseguiam a classificação para a temporada seguinte; noutros, havia espaço para três.

Aí veio a sorte do Avellino: na Liga Sul, o time caiu no grupo A, que abria espaço para três equipes. E os Lupi conseguiram o direito a ficar na Serie C, como terceiro colocado, com 39 pontos, apenas um à frente da Frattese, e mantendo o lugar junto de Stabia e Benevento.

Superado o grande desafio, a equipe se reforçou para a temporada 1948/49. E, na Serie C, quase conseguiu a promoção à Serie B. Ou melhor, chegou a conseguir. Numa disputa ponto a ponto com o Catania, pelo grupo D, os Etnei conseguiam a liderança, a princípio. Porém, na véspera da última rodada do torneio, a justiça esportiva italiana tirou os pontos do Catania pelo empate contra a Igea Virtus, devido à escalação irregular de um jogador.

Mais uma vez, a sorte ajudava o time alviverde num momento crucial. A equipe conseguiu a vitória na última rodada, forçando a disputa de um jogo-desempate com o Catania. Disputado na Arena Cívica de Milão, o Avellino venceu por 1 a 0. Lugar garantido na Serie B? Não. Porque a equipe confessou ter pago prêmio ao Stabia, pela vitória deste sobre o Catania. E, ao invés do acesso, a equipe foi punida com o rebaixamento à Serie D.

Enfim, o acesso sonhado

Após o fracassado acesso, o Avellino ficou entre as Séries C e D. Até que, em 1968, a história do clube começou a mudar: naquele ano, o clube deixou de ser uma entidade sem fins lucrativos para virar uma empresa. Não demorou muito e a medida logo deu frutos.

Na temporada 1972/73, jogando pelo grupo C da Terceira Divisão, a equipe travou nova disputa equilibrada, como em 1948, agora com o Lecce. Sob o comando do treinador Tony Gianmarinaro, os Lobos bateram vários recordes: marcando 64 gols e sofrendo 18, o time chegou aos 62 pontos, número nunca atingido antes por um clube da terceira divisão. A ótima campanha foi coroada na última partida: vencendo por 1 a 0 o rival Lecce, com gol de Bruno Nobili, veio o sonhado acesso à Serie B.

Os primeiros anos trouxeram alguma dificuldade para o time. Na temporada 1974/75, a equipe só salvou-se do rebaixamento no confronto direto contra a Alessandria. Nas duas temporadas seguintes, estabilizou-se na metade da tabela. E aí, veio o período 1977/78.

O time de Paolo Carosi chegou à última rodada da Serie B empatado em pontos com o Monza. Enquanto o rival enfrentaria o Taranto fora de casa, a equipe recebeu a Sampdoria. Num jogo turbulento, que causou várias dúvidas quanto à lisura, Mario Piga marcou o único gol do jogo. O gol do acesso. O gol que levou o Avellino a superar o Monza na tabela, chegando ao vice-campeonato da Serie B – e ao acesso à divisão de elite do futebol italiano.

Uma história acidentada – e memorável – na Serie A

Na Serie A do calcio, o Avellino passou em brancas nuvens em sua temporada de estreia, ficando com a 11ª posição na temporada 1978/79. Questão mais grave viria após o 12º lugar da temporada 1979/80: envolvido no escândalo do Totonero, em que resultados foram manipulados para beneficiar apostadores da Loteria Esportiva italiana, o clube escapou do rebaixamento, mas teve de começar a Serie A 1980/81 com cinco pontos a menos.

Para piorar, ainda em 1980, no dia 23 de novembro, um terremoto de 6,9 graus na escala Richter vitimou a região da Irpínia, onde estava a Campana – logo, onde estava a cidade de Avellino, que acabou sendo a mais atingida pelo tremor. Mesmo com a cidade em frangalhos, entretanto, o time superou as próprias dificuldades para assegurar a difícil permanência na Serie A, após empate com a Roma, vice-campeã, em 1 a 1, na última rodada.

Recuperada, a equipe estabilizou-se nas posições intermediárias da tabela (entre 1983/84 e 1985/86, ficou consecutivamente na 11ª posição). E conseguiu mescla de sucesso entre talentos que logo iriam para clubes maiores, como Andrea Carnevale, Stefano Tacconi e Luciano Favero, com talentos de outros países, como o peruano Geronimo Barbadillo, o argentino Ramón Diaz e o austríaco Walter Schachner. E os brasileiros fizeram parte desta história na Serie A, com Juary, Batista e Dirceu.

Porém, curiosamente após seu melhor desempenho histórico na primeira divisão (o 8º lugar na temporada 1986/87), o time ficou em 15º e, novamente, teve de voltar à Serie B. Paralelamente a isso, os problemas administrativos se avolumaram. A Bonatti, espécie de empresa-satélite da Parmalat de Calisto Tanzi, assumiu a equipe sem sucesso, com Pierpaolo Marino. No verão de 1991, Marino passa o cetro a Gaetano Tedeschi. Mas a sorte não muda e, por fim, as duas decadências resultam em um momento baixíssimo: na temporada 1991/92, com Francesco “Ciccio” Graziani como treinador, a equipe é rebaixada novamente para a terceira divisão. Agora, com o nome de C1.

Falência próxima

Na temporada 1994/95, há uma pequena reação. Com a presidência sendo entregue novamente a Antonio Sibilia, que já comandara o clube entre 1981 e 1983, o time consegue o retorno à Serie B, após um play-off contra o Gualdo. Mas de nada adiantam os 19 gols de Pasquale Luiso, artilheiro da segunda divisão, e o clube volta à C1.

Às voltas com as várias ameaças de falência, Sibilia deixa o clube em 2002. A Já com Aniello Aliberti na presidência, o Avellino chega aos play-offs pelo acesso à Serie B. E, se fora de campo Aliberti não amenizou a crise, dando logo lugar a Pasquale Casillo, os Irpini conseguem o retorno à Segunda Divisão, com o título da C1.

Todavia, Aliberti faz denúncias contra Casillo, que é forçado a deixar a presidência. O time, mesmo com Zdenek Zeman no comando, é novamente rebaixado à Terceira Divisão, em 2003/04. Após a queda, Massimo Pugliese assume novamente a presidência, ao lado do irmão Marco, e o time, agora treinado por Antonello Cuccureddu, consegue novo acesso à Serie B, após vencer os play-offs contra o Napoli.

As idas e vindas continuam em 2005/06, com o clube retornando à Serie C1. E na temporada seguinte, com o retorno à Serie B, após vitória sobre o Foggia, nos play-offs. Em 2007/08, o time fica em 19º lugar, mas, rebaixado a princípio, consegue a permanência, graças à falência do Messina. Na próxima temporada, porém, resta o penúltimo lugar e nova queda.

Que, desta vez, faz com que a falência seja decretada. E o time tente reagir, com a refundação que o fará tentar uma trajetória menos acidentada, sob a presidência de Renato Rodomonti e com Francesco D'Arrigo como treinador.

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