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As dinastias do futebol francês

No dia 21 de abril de 2007, o Lyon, sagrou-se hexacampeão francês, com cinco rodadas de antecedência. Era o início da 33ª rodada da Ligue 1, num sábado em que o papa-tudo atual dos gramados franceses não entrou em campo: bastou o Rennes derrotar o então vice-líder Toulouse por 3 a 2 para dar o sexto título seguido ao OL – feito único na França.

Mergulhando um pouco na história do futebol francês, percebe-se que a façanha do Lyon, que nunca havia sido campeão nacional até 2002, já se repetiu em outros tempos, em pelo menos duas oportunidades. O St. Etienne reinou no final da década de 60 e na metade dos anos 70, arrebatando sete troféus em dez temporadas, sendo quatro consecutivos e, depois de um intervalo de três temporadas, outros três seguidos. O Olympique de Marselha também já teve gosto semelhante, quando montou um esquadrão no final dos anos 80, faturando cinco campeonatos franceses em sequência e chegando ao título da Liga dos Campeões em 1993, o que nenhum clube francês ainda conseguiu repetir.

Analisando essas ‘dinastias’ passadas do futebol da França, será que é possível entender o sucesso do Lyon, um clube que tinha como melhor posição um vice-campeonato, alcançado apenas duas vezes? Nas próximas linhas, faremos uma volta no tempo no universo do futebol, visitando os dias gloriosos do St. Etienne e do Olympique de Marselha.

Diretoria e tempo

O futebol ensinou que não se faz uma equipe vencedora de uma hora para outra. O multicampeão Lyon não foge a essa regra, assim como os seus antecessores na França.
O St. Etienne, no início dos anos 60, tinha apenas um título francês no currículo, algumas disputas sem muito brilho nos campeonatos europeus de clubes e instabilidade dentro das competições. Em 1961, foi eleito um novo presidente, Roger Rocher, um homem que mudaria o futebol do clube e a maneira de se dirigir um time na França. Ele seria aclamado futuramente, mas não teve um início de trabalho fácil. Apesar de conquistar a Copa da França em 1962, o time acabou sendo rebaixado para a divisão de acesso no Campeonato Francês.

O que parecia ser um pesadelo para o clube começou a mudar logo na temporada seguinte. O time dominou a segunda divisão da França, perdendo apenas três jogos e ficando com o título daquela temporada. Era o ano de 1963, e o ousado presidente Rocher resolveu investir em jovens jogadores. Apenas uma temporada depois de jogar na Segundona, os Verts levantaram a taça do Campeonato Francês, ao final da temporada 1693/4.

Após o sucesso no terceiro ano de presidência, Rocher resolveu repetir a fórmula para as temporadas seguintes, contratando jogadores jovens. Mostrando visão, o clube contratou jogadores como Aimé Jacquet (futuro técnico da seleção francesa campeã do mundo em 1998) e repatriou estrelas nacionais, como Andre Fefeu. Em 1966/7, não deu outra: terceiro título francês do ASSE, com direito à melhor defesa e ao melhor ataque da competição.

Vejamos o Olympique de Marselha. O clube também começou a montar um supertime em um momento difícil para o clube: o rebaixamento em 1979 para a segunda divisão do Campeonato Francês. Foram cinco anos na Segundona até o retorno, em 1984, à elite francesa. Ao final do sofrimento na segunda divisão, entrou em cena o controverso presidente Bernard Tapie. Com uma visão arrojada e polêmica, ele abriu mão dos jovens atletas da base do clube e voltou-se para o mercado do futebol, buscando os principais astros do país e do resto do mundo. Dentre eles, estavam Jean-Pierre Papin, que se tornaria artilheiro do Campeonato Francês por cinco temporadas seguidas. Com isso, tapie transformou o perfil do clube, visto como ‘copeiro’.

Os títulos não tardaram a vir. Em 1987, o OM foi vice-campeão francês, somente quatro pontos atrás do Bordeaux. Finalmente, na temporada 1988/9, após 17 anos de fila, o Olympique de Marselha sagrou-se campeão francês, seu quinto título na história. Era o início de uma época dourada no clube. O time ainda venceu a Copa da França daquela temporada.

Mais uma vez, o tempo e a paciência foram fundamentais para a construção de um time vencedor: mais precisamente, quatro anos.

E o Lyon?

O atual hexacampeão francês, na década de 80, era considerado um time mediano, de pouca expressão nacional. Naquele momento, o máximo que o Lyon havia conseguido eram três títulos da Copa da França. Em 1987, Jean-Michel Aulas chegou à presidência do clube, e lançou o plano “OL – Europa”. O audacioso objetivo de Aulas era levar o time, médio, a ser um dos grandes do país e um dos mais importantes na Europa.

Em toda a década de 90, o Lyon passou a figurar nas primeiras posições do Campeonato Francês, chegando a um vice em 1995. Para crescer, a tática foi a profissionalização da direção do clube e o investimento maciço na contratação de jogadores de peso. Era um trabalho lento e de longo prazo, mas que já rendeu frutos durante a década de 90.

Veio 2001, e um degrau a mais para o aspirante a grande: o vice no Campeonato Francês. Nas temporadas seguintes, todo mundo já sabe o que aconteceu: seis títulos seguidos da Ligue 1. Some-se a isso as participações honrosas nas Ligas dos Campeões de 2003/4, 2004/5 e 2005/6, quando ficou entre os oito melhores da Europa.

A exemplo dos dois maiores vencedores de Campeonatos Franceses, o Lyon investiu na formação de um grande time, num projeto de longo prazo. Isso está diretamente ligado à longevidade de bons presidentes e dos treinadores em seus cargos. No caso do St. Etienne, Roger Rocher ficou à frente do clube até 1982. Em 20 anos, a partir de 1963, o ASSE teve apenas três técnicos: Jean Snella, Albert Batteux e Robert Hebin.

Situação semelhante viveu Olympique de Marselha de Bernard Tapie, guardando as devidas proporções, pois Tapie acabou sendo preso em 1993 devido a um escândalo de manipulação de resultados, corrupção e utilização indevida da máquina financeira do clube.

E o Lyon, que comemorou em 2007 o seu hexacampeonato francês, levou 15 anos para obter o seu primeiro título.

Para ganhar é preciso gastar – mas com responsabilidade

Todos que acompanham o futebol sabem que investimento financeiro também é importante para se atingir grandes metas no esporte. Os competentes presidentes de St. Etienne, Olympique de Marselha e Lyon não tiveram pena de gastar.

No ASSE, Rocher gastou para contratar, por exemplo, Wladimir Durkovic, Yvan Curkovic, o renomado goleiro Georges Carnus e o zagueiro argentino Olwaldo Piazza. A esses medalhões, agregaram-se jovens jogadores da região, formando um elenco balanceado.

Anos mais tarde, Tapie trouxe para o Olympique o que havia de melhor na Europa. Assim, figuraram no escrete marselhês Francescoli, Tigana, Mozer, Desailly e Deschamps, entre outros. Obviamente, tantos nomes prestigiados não saíram barato para os cofres do clube, o que veio a ser descoberto depois, quando foi revelado ao mundo as transações ilegais de jogadores.

O Lyon também gasta bastante. Aulas organizou a administração do seu clube e fez o Lyon tornar-se forte graças ao aumento de receitas – não só em marketing, ingressos e direitos de TV, mas também na venda inteligente de alguns nomes de seu elenco. Esse dinheiro extra tinha destino definido: contratação de jogadores. Assim, despontaram no elenco do Lyon nomes como Coupet, Sonny Anderson, Edmilson, Dhorasoo, Govou, Juninho Pernambucano e Fred. Como o hexacampeão francês é uma máquina de gerar dinheiro, o clube contaria com € 200 milhões para investir em contratações para a próxima temporada.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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