Anos 40 – Viagem à Década sem Copas

A Copa do Mundo, todos sabem, é capaz de alçar jogadores à condição de heróis épicos, ícones eternos de um país. Certamente, hoje essa noção está mais consolidada. O atleta da atualidade, com base nos exemplos de seus antecessores, vislumbra na Copa uma maneira de tatuar seu nome nos braços da história, ainda que não conquiste a taça. No Brasil, após a Copa de 1938, em que a seleção alcançou o terceiro lugar, jogadores como Domingos da Guia e Leônidas da Silva adquiriram o status de monstro sagrado, insígnia que a grandeza de uma Copa bem disputada lhes deu, e de cuja perpetuidade os craques talvez não tivessem a dimensão exata no distante verão francês de 1938.

E se uma geração inteira fosse impedida de posar para as fotos oficiais que venceriam o amarelo do tempo, de figurar nas estatísticas a cada quatro anos divulgadas, de subir na ordem cósmica ao tomar parte na soberana entre as competições? É esse o mote do ótimo livro escrito por Roberto Sander. Alicerçado numa vasta bibliografia, nos arquivos de jornais da época e no depoimento de jornalistas – como Luiz Mendes – e de quatro jogadores que vivenciaram a década de 40 – Otávio Moraes, Nílton Santos, Jair Rosa Pinto e Oberdan Catani – , o autor consegue recriar o clima do período e, dessa forma, justificar o subtítulo, que fala em ´viagem´.

Acossado pela loucura beligerante de Adolf Hitler e seus asseclas, o planeta perdeu milhões de vidas e a possibilidade de viver uma rotina harmoniosa. Sander mostra como esse tenebroso momento afetou o futebol. Na medida certa, narra os absurdos da guerra e os prejuízos ao esporte bretão, evidenciando que a relação existente entre esses elementos é maior do que se pode imaginar. Além da lacuna na história das Copas, há, por exemplo, a barbárie de que jogadores judeus da Ucrânia foram vítimas, a morte misteriosa do craque austríaco Mathias Sindelar (que se recusou a integrar a seleção alemã em 1938) e a ida de futebolistas a campos sem relva aparada e sem baliza, onde as batalhas travadas eram outras. Sim, alguns craques brasileiros estiveram no front, como Perácio e Geninho, e suas experiências são relatadas pelo autor.

Mas o livro nos assegura que, nos anos 40, nem só de episódios funestos viveu o futebol. Usado por Winston Churchill para lapidar o orgulho inglês ante a fúria nazista e, após a guerra, para trazer a alegria de volta a uma Europa que tentava se soerguer por entre os destroços, o esporte permaneceu emocionando e criando ricos personagens. Com o rádio contribuindo para a formação de adeptos apaixonados, os estádios do Rio e de São Paulo andavam entupidos e abrigavam partidas espetaculares, recheadas de craques que migravam não do Brasil para o exterior, mas de outros estados para os grandes centros, casos do pernambucano Ademir e do baiano Servílio.

Nas páginas de ´´Anos 40´´, o leitor encontrará perfis muito bem elaborados de ícones do decênio, como Zizinho e Heleno de Freitas, componentes de um ataque que ainda tinha Tesourinha, Jair e Ademir, no sul-americano de 1945. No capítulo que trata desse campeonato, um dos mais belos da obra, o autor nos convida a sonhar com essa linha ofensiva majestosa que, face à inexistência do videoteipe, não pôde se fixar na mente dos mais jovens.

É exatamente essa a tarefa de que Roberto Sander se incumbe em seu livro: recuperar com pormenores uma fase fecunda do futebol e apresentá-la à posteridade. Fase que, mesmo sem Copas, ou exatamente por isso, merece ser trazida à tona, para que os leitores conheçam mais a fundo os primórdios da rivalidade entre Brasil e Argentina – eles tinham um timaço, que poderia ter levantado os canecos de 42 e 46 – , o ´Expresso da Vitória´ do Vasco, o ´Rolo Compressor´ do São Paulo, o gênio Ferenc Puskas, o goleiro uruguaio Máspoli e tantos outros símbolos desses tempos de sangue e lágrimas.

O autor poderia ter incluído mais do que uma simples menção à sublime equipe do Torino dos anos 40, que ganhou cinco campeonatos italianos e morreu, por inteiro, num desastre aéreo, em 1949. Poderia, ainda, ter falado sobre o ponta Stanley Matthews, jogador do ano na Inglaterra em 1948, que teria uma carreira longeva (jogou até os 50 anos de idade) e receberia o título de ´Sir´. Mas essas ausências não mancham, de forma alguma, o livro de Sander, sempre muito abrangente e esmiuçado naquilo que se propôs a analisar.

Não faltam estatísticas, fotos magníficas, ´causos´ divertidos, descrições de clássicos perdidos (agora não mais!) no tempo e comparações com os dias de hoje. ´´Anos 40´´ é um item indispensável a prateleiras de bom gosto e, apesar de bem grosso (294 deliciosas páginas), caberá até naquelas estantes já bem apinhadas, lotadas mesmo, com livros se espremendo, como as 60 mil pessoas que chegaram a ocupar o Pacaembu na década abordada por esse livro que, provavelmente, se tornará um clássico da literatura futebolística brasileira.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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