All Boys: Pela permanência na primeira divisão

 

Por Rodrigo Vasconcelos

Aos times recém-ascendidos da B Nacional (segunda divisão da Argentina) é inevitável que a primeira missão seja a de fugir do rebaixamento. Tudo por conta do sistema de “promedios” que regula o descenso desde 1983. Desde então, se divide o número de pontos dos clubes pelo número de jogos nas últimas três temporadas. Daí surge uma desvantagem às equipes promovidas, pois como jogaram menos que as outras, precisam de um desempenho acima da média para não correrem riscos.

Quem aparenta ter aprendido bem esta lição é o Club Atlético All Boys, ou simplesmente Albo. Saíram da Floresta (bairro da cidade de Buenos Aires) dispostos a não seguir o mesmo rumo de Chacarita e Atlético Tucumán, os clubes que subiram na temporada 08/09 e caíram logo em seguida. Mais do que isso, querem se salvar mesmo rebaixando os Millonários da cidade grande, cuja situação desesperadora em 83 serviu de “inspiração” para a AFA reimplantar o sistema de médias: River Plate.

Naquela época, o presidente Júlio Grondona decidiu por retomar um esquema já utilizado nos campeonatos de 1957 e 1966, após lamentar o descenso do San Lorenzo, dois anos antes. O mandatário da AFA jamais admitiu, mas é senso comum na Argentina o fato de que o objetivo disto era salvar os clubes grandes. Conseguiram evitar a queda do River Plate, só que isso custou o rebaixamento do Racing Club. Hoje, mesmo com este sistema, a equipe de Nuñez está a perigo, e um de seus rivais diretos é justamente o All Boys.

Surgimento

Por mais óbvio que soe, o nome All Boys veio da idade dos homens que fundaram o clube em 15 de março de 1913. Foi batizado em inglês para seguir o modismo argentino no início do século XX. Ainda nesta época, o Albo fazia jus ao apelido de “equipe da Floresta”, pois mandava seus jogos no estádio da Rua Segurolla, que cruza o bairro. Esta mesma cancha viu nascer a rivalidade com o Nueva Chicago, cuja força cresceu num jogo em 1926, quando o capitão dos anfitriões decidiu chamar seus companheiros e abandonar o campo por protesto contra a arbitragem.

Apesar de o profissionalismo ter se instaurado na Argentina em 1931, para o All Boys ele só teve valor quatro anos depois, quando disputou seu primeiro torneio neste nível: a Segunda División. Mas o campeonato de maior destaque e polêmica veio só no fim da década de 30, quando o clube amargou um vice-campeonato para o Banfield. Como o “Taladro” foi acusado mais tarde de suborno a jogadores de outros times, e por ter recebido da AFA apenas uma punição de dez pontos no torneio seguinte, ficou para o Albo o gosto do título e do acesso moral à Primera División.

Uma tristeza que parece ter se alastrado durante toda a década seguinte. Não só o clube ficou longe de qualquer esperança de alcançar a elite como acabou rebaixado para a Tercera División, em 1945. Pelo desnível da competição, acabaram voltando sem problemas em 46. Só que dois anos depois, uma greve dos futebolistas no país afetou de forma impactante o elenco do Albo.

Apenas oito atletas ficaram para defender a equipe em 49. O suficiente para conquistar um nono lugar, mas não para permanecer na Segunda, já que uma decisão mal-explicada da AFA relegou o time da Floresta e outros sete para a recém-criada Primera C. Novamente, o All Boys conseguiu subir logo em seguida. Só que ao longo da década de 50 acabaram repetindo na Primera B as campanhas sem brilho que faziam nos anos 40.

Enfim na Primera

A maior alegria festejada pelo clube teria de esperar até os anos 70. Em 1972, para ser preciso. Foi a primeira participação marcante de José Santos Romero no time da Floresta, já que 28 anos depois ele treinaria a equipe que voltou a elite. Ainda como meia, ele participou do avassalador elenco que venceu 11 partidas seguidas (do 1 a 0 sobre Arsenal em julho até o 3 a 1 no Los Andes, em setembro) e levantou a taça de campeão no final.

A chegada ao torneio principal, porém, não foi nada agradável para o All Boys. Na soma dos resultados do Metropolitano e do Nacional 73, o resultado natural seria o descenso, que só não aconteceu pois o rebaixamento naquele ano foi anulado. De positivo na estreia dos alvinegros na Primera, apenas a vitória épica sobre o River Plate, em pleno Monumental de Nuñez, por 3 a 1, no dia 19 de agosto. O brasileiro José Andrade, ou Zezinho, marcou dois naquele jogo, o que o ajudou a se consagrar como ídolo na história do clube.

Só em 74 que os hinchas da Floresta conseguiriam algo para comemorar, ainda que por pouco tempo. Depois de vencer o Rosário Central, campeão do Nacional passado, por 3 a 0 no Islas Malvinas (um gol de Zezinho), a equipe chegou pela primeira vez a ser líder do Metropolitano. Apenas por uma rodada, já perdeu o posto ao ser derrotado pelo Atlanta por 5 a 1 na partida seguinte. Entretanto, este feito, aliado ao quinto lugar alcançado no final, marcou o ano como o melhor da equipe na Primera.

A primeira aventura na elite durou oito anos. Até o campeonato de 1980, quando o All Boys levou sete rodadas até conseguir o primeiro ponto no Metropolitano. A cinco rodadas do final, o rebaixamento já estava consumado, e o grupo que já não tinha mais Zezinho acabou inclusive ficando fora do Nacional no mesmo ano. Permaneceu “no limbo” por cinco meses, até o recomeço da Primera B, em 81.

O purgatório nas divisões menores

Em vez da luta para voltar a figurar entre os grandes, uma humilde luta para permanecer na Primera B foi o que restou ao Albo. No torneio de 82, aliás, teve de enfrentar o Talleres de Remedios Escalada numa repescagem para permanecer na principal divisão de acesso. Nesse meio tempo, ainda revelaria o zagueiro Fabbri, vice-campeão mundial em 90 com a Argentina. Só que na reestruturação dos campeonatos nacionais, em 86, mesmo com a equipe alvinegra vencendo o Banfield 3 a 0 num jogo sem torcida, não foi suficiente para alcançar a classificação na Nacional B, e teve de jogar a Nacional B Metropolitana.

Por seis anos, o All Boys jogou por lá sem qualquer brilho ou esperança de chegar a nova segunda divisão argentina. Apenas na temporada 92/93, uma temporada após a AFA instaurar os torneios curtos (Apertura/Clausura) para os times da elite, o clube da Floresta conseguiu a quarta taça de sua história. A década de 90, inclusive, trouxe bons momentos, tais como em 98. Naquele ano, a equipe treinada por Sergio Batista quase disputou a final da Nacional B contra o Talleres de Córdoba, mas no saldo de gols, perdeu a vaga para o Almirante Brown.

Em contrapartida, os anos 2000 foram turbulentos. A economia do clube alvinegro estava em frangalhos, de modo que a diretoria devia meses de salário ao elenco. O resultado foi a insatisfação e um novo rebaixamento à B Metropolitana. Nestor Fabbri quis se aposentar no Albo apenas pela vontade de retornar a velha casa, pois na Floresta já não se cogitava tão cedo outro retorno a Nacional B. Até o regresso de outro velho ídolo…

Romero e o segundo acesso

José Santos Romero também quis sentir outra vez o gosto de defender as cores do All Boys. Voltou como treinador, comandando a equipe que contava com Cambiasso no gol, Stefanatto e Grana na defesa e Ariel Zárate mais adiante. Eis que o quinto troféu da história do clube veio com facilidade: 15 pontos de vantagem para o vice-campeão. Mas o retorno a segundona não era suficiente, pois Romero queria mais.

A reedição da história dele só seria completa com um acesso a Primera, tal qual em 72. Na temporada 09/10, todavia, não levantou taça alguma. A boa campanha conseguiu “apenas” o quarto lugar e a vaga na Promoção para enfrentar o Rosário Central. No primeiro jogo, um desanimador empate por 1 x 1 no Islas Malvinas. Já no confronto final, um inesperado 3 a 0 em pleno Gigante de Arroyito para voltar a elite, 28 anos depois.

No atual Apertura, o grupo de Romero ocupa a discreta 12ª colocação, com 15 pontos ganhos. Em termos de rebaixamento, porém, é o suficiente para manter longe rivais de peso como Independiente, Racing e o mais notável de todos, o River Plate. O duelo da equipe da Floresta com os Millonários chegará em breve, no dia 31 de outubro. Mesmo com o jogo não sendo em Nuñez, quem sabe não se repete a história épica de Zezinho e companhia para manter o Albo na Primera outra vez?

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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