Alan Shearer: Lenda do futebol inglês

Depois de ter trazido o zagueiro Coloccini para ser o xerife da zaga, colocado o clube à venda e forçado a saída do treinador Kevin Keegan para contratar Joe Kinnear, o empresário Mike Ashley, dono do Newcastle, parecia sem opções para salvar um clube cada vez mais ameaçado pelo rebaixamento. Desesperado, o cartola decidiu apelar para todos os santos. Ou melhor, para um homem santo: Alan Shearer.

Contratado como treinador para ocupar temporariamente o cargo de Kinnear, ausente por conta de um problema médico, Shearer chegou ao clube com a difícil missão de salvar os Magpies da degola sem nunca ter sido técnico. A aposta de Ashley e de boa parte dos torcedores certamente não é em um conhecedor de táticas ou expert na arte de manejar egos e treinar atletas, mas sim na presença de espírito de um dos maiores ídolos da história do clube e do futebol inglês.

Das ruas de Gosforth à seleção inglesa

Alan Shearer nasceu no bairro de Gosforth, em Newcastle, no dia 13 de agosto de 1970. Inicialmente atuando como meio-de-campo, uma vez que isso significava que “poderia participar mais dos jogos”, Shearer logo se destacou entre os garotos de sua idade, sendo contratado para a equipe amadora do Wallsend Boys Club e em seguida para o Southampton em 1986.

Depois de passar apenas dois anos nos juniores do clube, Alan, já atuando como atacante, conseguiu ser promovido para o time principal, fazendo sua estreia nos profissionais dos Saints em março de 1988 contra o Chelsea. Duas semanas depois, marcou um hat-trick que deu a vitória ao Southampton por 4 a 2 contra o Arsenal, tornando-se o jogador mais jovem a conseguir marcar três gols em um só jogo na Premier League, aos 17 anos e 240 dias.

Atuando como o atacante de área entre os pontas Rod Wallace e Matt Le Tissier, Shearer obteve resultados discretos em suas duas primeiras temporadas pelos Saints, marcando apenas 7 gols em 62 jogos. Mesmo assim, foi um dos destaques da Inglaterra Sub-21 no torneio de Toulon, realizado no verão de 1991, conseguindo, no ano seguinte, se consolidar no cenário nacional ao marcar 13 gols em 41 aparições pelo Southampton. O desempenho o levou à seleção inglesa principal em fevereiro daquele ano. Na estreia, Shearer conseguiu marcar em um amistoso contra a França, garantindo seu lugar nas convocações seguintes.

Surge o artilheiro

Mesmo fazendo parte do vexame da Inglaterra na Eurocopa de 1992, quando o selecionado não passou da primeira fase, Shearer continuou em alta no futebol inglês, o que fazia muitos se perguntarem se atuar pelo Southampton era o suficiente para um atacante de tamanho potencial. A história, no entanto, mudou logo após a Euro, quando Alan, mesmo sendo alvo do Manchester United, decidiu se transferir para o Blackburn Rovers.

Sua primeira temporada no Ewood Park foi de altos e baixos. Uma lesão adquirida em dezembro daquele ano fez com que o avante perdesse boa parte dos compromissos do Blackburn no campeonato. Ainda assim, marcou 16 gols nos 21 jogos em que conseguiu atuar.

Recuperado para o campeonato 1993-94, Shearer mostrou o auge da sua forma e porque era um dos melhores atacantes de seu tempo. Jogando um futebol de força e composição física, aliado a uma grande potência de chute e admirável habilidade no cabeceio, Alan marcou 31 gols em 40 jogos pela Premier League, liderando os Rovers na excelente campanha que culminou com o segundo lugar no torneio.

A chegada do atacante Chris Sutton a Ewood Park para a temporada 1994-95 deu o impulso que faltava para o Blackburn estabelecer a sua força no cenário nacional. Juntos, Sutton e Shearer formaram uma dupla imbatível que levou o clube à conquista de seu primeiro título inglês. O chamado SAS (Shearer e Sutton), marcou 49 gols naquele campeonato, sendo 15 de Chris e outros 34 de Alan, artilheiro daquele ano.

Shearer continuou encantando os torcedores do Blackburn na temporada seguinte, marcando mais 31 gols em 35 jogos, feito que lhe deu novamente a artilharia do campeonato, mas que não foi o suficiente para salvar os Rovers de uma mediana sétima posição. Nem mesmo a Champions League serviu de consolo para a equipe, que acabou sendo eliminada ainda na primeira fase.

Sem contar com bons resultados no clube, apesar de apresentar grandes atuações, Alan parecia fadado a ter o mesmo destino na seleção inglesa. Mesmo sendo artilheiro da Euro 96 com 5 gols, Shearer não conseguiu levar a Inglaterra ao título do torneio, que ficou nas mãos da Alemanha, algoz dos ingleses na semifinal.

O mito do Newcastle

Apesar de ter ficado sem o troféu continental, Shearer retornou à Inglaterra ainda mais valorizado do que tinha saído. Seu nome era novamente dado como certo pelo Manchester United, mas uma proposta do Newcastle fez com que o coração do artilheiro falasse mais alto. No dia 30 de julho de 1996, Alan Shearer assinou com o maior clube de sua cidade natal depois de o Blackburn ter aceitado uma proposta de 15 milhões de libras pelo atleta, uma das maiores negociações do futebol àquela época.

Torcedor da equipe desde criança, Shearer atingiu nos Magpies o status de ídolo que carrega até hoje. Na primeira temporada foi, pela terceira vez consecutiva, o artilheiro da Premier League, com 25 gols marcados em 31 jogos, desempenho que levou o Newcastle a seu segundo vice-campeonato seguido. Já na temporada 1997-98, uma grave contusão logo na pré-temporada afastou Shearer e diminuiu consideravelmente as chances de um novo bom desempenho dos Magpies. O atleta demorou a voltar aos campos, e quando o fez não repetiu o alto nível de outrora.

Ainda assim, conseguiu chegar bem à Copa do Mundo de 98, formando dupla com Michael Owen no ataque do English Team. Apesar de boas atuações, Shearer terminou o torneio com apenas dois gols, sendo um deles na fatídica derrota para a Argentina, nos pênaltis, em partida válida pelas oitavas-de-final.

De volta a seu clube, Shearer continuou sendo o jogador-chave e ídolo máximo do Newcastle, mas o mau momento dos Magpies e as constantes mudanças de comando acabaram minando seus esforços para levar o clube às glórias almejadas. Em 2000, aos 30 anos, decidiu se aposentar da seleção inglesa após uma fraca participação do English Team na Eurocopa, quando a equipe foi eliminada na primeira fase e ficou, novamente, sem o título. Títulos, aliás, era algo que Shearer continuava longe de conhecer também pelo Newcastle. Os melhores resultados da equipe de St. James Park nas temporadas que se seguiram acabaram sendo um quarto e um terceiro lugar nos campeonatos de 2001-02 e 2002-03, respectivamente.

A partir daí a carreira de Shearer começou a entrar em uma rota descendente, o que, no entanto, não significou menos gols para o artilheiro do Newcastle. Na temporada 2003-04 marcou 22 tentos em 37 aparições, mas não conseguiu evitar que o clube terminasse o campeonato na quinta posição e acabasse ficando fora da Champions League do ano seguinte. Frustrado e sentindo os anos pesarem, Alan Shearer chegou a anunciar que 2004-05 seria a sua última temporada em campo, mas voltou atrás depois de pedidos do técnico Graeme Souness e da 14ª colocação obtida no Campeonato Inglês. O campeonato seguinte, no entanto, foi o derradeiro de Shearer, que se despediu do futebol, aos 36 anos, em grande estilo ao marcar em fevereiro de 2006 o seu gol de número 201 pelo Newcastle, tornando-se o maior artilheiro da história do clube.

Mesmo sem muitos títulos, ainda hoje é considerado um dos grandes atacantes da história do futebol, sendo o maior artilheiro da Premier League, com 260 tentos, e um dos 125 melhores jogadores ainda vivos, segundo Pelé.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo